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Fogo de Chão:
Regresso de Carreteiro, de Leonardo

 

27/10/2005 13:07:18
CAÇAPAVA NÃO SE ENTREGA!
 
Carreteando tradições!
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Em homenagem ao Dia Nacional do Livro, comemorado na data de 29 de outubro, estamos postando a primeira parte de um dos capítulos da obra Chananeco: a História de um carreteiro, romance histórico originado da Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche e da autoria dos escritores Carlos Cassel, Lucas Zamberlan, Luiz Hugo Burin e Remaldo Carlos Cassol (pedidos para burin.lh@farrapo.com.br). E sendo Chananeco um personagem pouco conhecido dos brasileiros, como observa Alcy Cheuiche, esta é mais uma oportunidade que os amigos visitantes do Bombacha Larga têm para se informarem a respeito desse que foi um dos Heróis da Guerra do Paraguai. Boa leitura a todos! Uma grande roda de chimarrão reunia homens de muitas tropas. Cavalarianos, infantes, artilheiros, confraternizavam naquela noite estrelada. Sabiam que os paraguaios estavam por perto, mas aproveitavam aqueles momentos de paz. Após o toque de silêncio, o corneteiro recebeu permissão para continuar distraindo os soldados. Músico conhecedor de seu ofício, fazia do instrumento uma verdadeira obra de arte. A corneta continuou tocando hinos, com uma perfeição invejável. Mas havia naquelas notas límpidas um traço de melancolia. Era como se tocasse um hino de saudade. Chananeco, um pouco afastado do grupo, mateava com Lino Azambuja. O soldado tentava distraí-lo lembrando causos da querência distante. Mas o capitão estava inquieto. Aquela música o levava para perto da mulher e da filha. Dois longos anos longe de casa. Uma saudade grande o fez tremer, ele que nunca tinha medo. Chegou a ouvir as batidas do seu coração. Tirou o chapéu e levantou-se. Seu cabelo ainda era negro, com poucos fios brancos. Mas o longo cavanhaque estava completamente grisalho. A música parou. O olhar de Chananeco fixou-se em outro grupo de soldados que cercava um major, alto e de melena pelos ombros. Durante todo o tempo, tinham ignorado a música. Todos riam muito, principalmente o oficial. – Esse riso me tira da paciência. Lino olhou com curiosidade para o amigo. – Está meio nervoso, meu capitão? – Nervoso nada. Não é de hoje que esse sujeito me irrita. História antiga. Chananeco sentou-se, suspirando fundo. E sem fazer qualquer introdução, começou a recordar um fato ocorrido no Cerrito do Ouro, há alguns anos atrás. Foi num domingo. Dia lindo de primavera. No início da tarde, organizou-se um carteado na sombra da ramada. Debaixo das madressilvas em flor, aqueles homens rudes conversavam e riam alto. Às vezes batiam com força na mesa e repetiam palavras de desafio, como o jogo do truco permitia. Todos com facas e revólveres na cintura. Ninguém tinha intenção de usá-los, a não ser que fosse preciso. Seu Nunes, o bolicheiro, esmerava-se em atender os fregueses prontamente. E circulava em volta da mesa grossa de costaneira de pinho. O carteado continua. Seu Nunes serve gasosa, cachaça e pastéis de carne. As conversas giram em torno dos afazeres da cada um. Gado, cavalos, tropeadas. A cada rodada, festeja-se os vitoriosos. Alguns jogam, outros ficam de caranchos, como chamam os observadores. Velhos amigos, parceiros do lugar. Se conhecem de longa data. Dentro da casa, algumas mulheres estão tomando mate doce e falando de seus assuntos. Crianças correm levantando poeira, ocupadas, brincando. Meia dúzia de cachorros, depois de se estranharem na chegada, agora dormem na sombra de um umbu. Mutuca entre eles. O sol se põe. Chananeco não se conforma com a tarde azarenta. Perdeu um bom dinheiro para seu compadre Riquinho e precisa recuperar a perda. O outro compadre, o bolicheiro Nunes, sentindo o perigo, começou a misturar água na cachaça. Chananeco, já meio enfrascado, desafiou Riquinho para uma carreira. Seu cavalo zaino contra a égua baia dele. O melenudo topou na hora. Com as vozes engroladas, deixaram tudo acertado para o próximo domingo. Na madrugada do dia combinado, relâmpagos clareavam com um prisco todo o carreiramento. Ao raiar do dia, um temporal com forte aguaceiro transformou em lodo grande parte do local da cancha reta. Era uma carreira parelha. Tudo já estava preparado. Apostaram uma vaca gorda a escolher. O jogo por fora era grande. Os trilhos tinham sido sorteados. Cavalo no debaixo e égua no de cima. Onze horas da manhã e nova chuvarada volta a encharcar o local, formando poças d’água por toda a parte. A desigualdade dos trilhos ficou visível. O mais baixo recebendo água constantemente tornou-se um lodaçal. Ao pisar, enterrava quase meia bota. A diferença para os parelheiros ficou enorme. Sentindo-se prejudicado, Chananeco propôs a Riquinho: - Compadre, vamos suspender a carreira. Deixamos para outro dia. A diferença de trilho é grande e até à tardinha não vai melhorar. O melenudo não gostou da proposta. – Não pedi pra Deus mandar chover, e nem tratamos disso ao fazer as condições da carreira. Chananeco mais uma vez ponderou: - Não é justo. Meu cavalo vai enterrar as patas desde a largada. – E eu com isso? Nova proposta: - Pago o depósito. Leva a vaca gorda e fica aberto o jogo de fora. – Não aceito. Nunca fui tratante. No mesmo momento, um violento golpe de cabo de relho dado por Chananeco atingiu o ombro direito de Riquinho. O compadre tentou puxar da pistola, mas o rebencaço foi tão forte que seu braço ficou imobilizado. Chananeco, já com o facão encostado no peito do homem gritou: - Ninguém me chama de tratante. Pega a tua égua e vai-te embora. Terminado o relato, Lino estendeu mais um mate para o capitão e disse apenas: - Eu vi tudo. Eu estava lá. (Continua...)

 

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16/10/2008 20:47:15 Nathalia Farah Aliot - União da Vitória / PR - Brasil
É interessante saber que existem livros assim, que contam a história desse grande Herói. E se for o Chananeco que eu estou pensando, eu sou descendente dele. Um grande homem! Fico muito feliz por isso.
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28/10/2005 14:59:40 MURILO DAMAZIO DA SILVA
UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE CONHECERMOS MAIS OS GRANDES HOMENS QUE FIZERAM A HISTÓRIA DO PAÍS.
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Listados 2 Comentários!
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