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Obrigado, Patrão Velho - de Raimundo José e Leonir

 

08/02/2006 18:19:12
ANGOERA: GEOGRAFIA DOS MITOS BRASILEIROS, DE LUÍS DA CÂMARA CASCUDO!
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"ANGOERA (Rio Grande do Sul). Essa tradição rio-grandense do sul é um elo do ciclo das lendas que as Missões deixaram em seus sete pousos históricos. Nas "estancias" afastadas, outrora, crepitando as madeiras do teto, subindo mais alto as chamas do fogão, súbito vento fazendo ondular a saia das "chinas", estalar os vimes dos balaios, as ataduras das cestas, as amarras dos surrões, passando restos de sons, traços de vozes, dizia-se que era GENEROSO que visitava amigos, fazendo-se lembrar e pouco temer. Quando se deixava uma viola ao relento ouviam-na soar, debil mas harmoniosamente. Era GENEROSO que se divertia... Esse Sací inocente, Djim cristão, era como um membro invisível de todas as famílias, dela partipando pela história velha dos santos padres jesuitas, plantadores das Sete Missões da serra. GENEROSO não assombrava ninguém. Estava presente nas horas alegres nos "pagos", sapateando nos bailes, riscando bordões de violas e, às vezes cantando mesmo, uma copla, a mesma sempre que sua inteligencia retivera há seculos, e alí trazia na mais desnorteante das memorias regionais. GENEROSO era indio guaraní, de nome Angoera, contração de "Anhan-goéra" (anhã-goéra), o espectro, o fantasma: ou de "anhunga-oéra", a alma velhaca, esperta, sabida (Teodoro Sapaio para a primeira e Plinio Airosa para a segunda definição), alusão possivel à sua valentia e saber intuitivo. Era um homenzarrão atlético mas sisudo, calado e taciturno. Guiou os padres para a serra quando vieram do Uruguai. Os Jesuitas batizaram-no. Ficou sendo GENEROSO. Mudou, com a agua lustral, o feitio carrancudo. Ficou folgazão, alegre, doido por dansas, cantos e saltos ritimados. Serviu sempre aos padres com alegria. Para ele se fizera o salmo animador: Serví com alegria!... 'Um dia, chamou o padre-cura, confessou-se e foi ungido de oleo santo e morreu. Generoso morreu contente, pois a cara do seu cadaver guardou um ar de riso; e foi muito chorado, porque tinha a estima de todos, por ser mui prazenteiro e brincador. De forma que a sua alma saiu-lhe do corpo, de jeito alegre e então, invisível, entrava nas casas dos conhecidos, passeava nos quartos e salas, e para divertir-se fazia estalar os ferros do teto e os barrotes do chão, e também os trastes novos, e os balaios de vime grosso; e se achava dependurada uma viola, fazia sonar o encordoamenteo, para alegrar-se com a lembrança das suas cantigas, de quando era vivo e cantava... Outras vezes assobiava nas juntas das portas e janelas espiando por elas os moradores da casa; e quando os homens rodeavam a candeia, pitando, ou as crianças, brincando, ou as donas costuravam ou faziam unhandutí, o Generoso, - a alma dele, p'r'o caso - soprava devargazinho sobre a chama da luz, fazendo-a requebrar-se e balançar-se, que era para a sombra das cousas também mudar de estar quieta... E muitas vezes - até o tempo dos Farrapos -, quando se dansava o fandango nas estancias ricas ou a chimarrita nos ranchos do pobrerio, o Generoso intrometia-se e sapateava também, sem ser visto; mas sentiam-lhe as pisadas, bem compassadas no rufo das violas... e quando o cantador do baile era bom e pegava bem de ouvido, ouvia, e por ordem do Generoso repetia esta copla, que ficou conhecida como marca de estancia antiga: sempre a mesma... Eu me chamo Generoso, morador de Pirapó: gosto muito de dansar, co'as moças, de paletó... (J. Simões Lopes Netto, Lendas do Sul. p. 78)'. O soar da viola ao relento lembra que a tradição se articula com outras tantas das colonias espanholas. N'Argentina era um dos caracteristicos da alma de Santos Véga, fixado no poema de Rafael Obligado: 'Dicen que, en noche nublada, si el crucero del pozo deixa de intento colgada, lhega la sombra callada y, al envolvela en su manto, suena el preludio de un canto entre las cuerdas dormidas, cuerdas que vibran heridas como por gotas de llanto'. Ainda Generoso denuncia sua existencia anterior à chegada do mito do Sací. Generoso ainda conserva muitas das atividades que hoje emprestam ao negro unipede de carapuça vermelha. A divulgação do Sací que se teria feito especialmente pela raça negra e mamelucos, não encontrou pronto ambiente para sua expansão. Generoso explicava tudo, estalos, rumores, assobios, sapateados, sons errantes. Quando a população mestiça de indio e europeu foi sendo saturada de outras ondas emigratórias, a vinda de contingentes do norte brasileiro com o fatal cortejo de assombrações, Generoso, mito local, duende familiar, bailador de "chimarritas", diluiu-se como tendo cumprido sua doce missão de alegria despreocupada e de fidelidade às terras da coxilha nativa. Guaraní católico, servo das Sete Missões, êmulo pacato de Sepé-Tiaraiú e Cumbatá, indio alegre que deixa a herança de sua alacridade comunicativa, deve figurar ao lado das criações mais autênticas no fabulario gaucho. Se, alguma vez, no ímpeto de sua tropilha de baios, deter-se o Negrinho do Pastoreio, não será apenas na colheita das velas oblacionais para sua madrinha Nossa Senhora, mas para ouvir, num acento de sua raça melomana, a cantiga invariavel e menineira, simples e emocionante, de Generoso, símbolo da outra raça que ajudou, com seu martirio, a viver a amada terra do Brasil!" (CASCUDO, Luís da Câmara. Angoera "in" GEOGRAFIA DOS MITOS BRASILEIROS, Livraria José Olympio Editora: São Paulo, 1947) Obs: texto reproduzido fielmente, conforme a publicação original.
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