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Grupo Fogo de Chão:
Gaúcho

 

30/09/2007 20:37:39
REMORSOS DE CASTRADOR
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Um pealo -, um tombo -,
grunhidos de impotente rebeldia, 
o sangue da cirurgia 
no laço e no maneador.
Nada pra tapear a dor 
do potro que --- sem saber, 
perdeu a razão de ser
na faca do castrador.
 
Há uma bárbara eficiência
nessa rude medicina, 
a faca é limpa na crina 
que alvoroçada revoa, 
pouco interessa que doa,
a dor faz parte da vida.
Há de sarar em seguida, 
desde guri tem mão boa.
 
Aprendeu --- nem sabe como, 
a estancar uma sangria. 
Sem noções de anatomia
é um cirurgião instintivo 
que --- por vezes --- pensativo, 
afundou na realidade
da crua barbaridade 
desse ritual primitivo.
 
Já faz tempo --- muito tempo, 
que um dia --- na falta doutro, 
castrou seu primeiro potro, 
um zaino negro tapado. 
Que pena vê-lo castrado, 
o entreperna coloreando 
e os olhos recriminando, 
num protesto amargurado.
 
Depois do zaino --- um tordilho, 
depois --- baios e gateados, 
um por um sacrificados 
pela faca carneadeira 
e o rude altar da mangueira
a pedir mais sacrifícios 
dos bravos fletes patrícios, 
titãs de campo e fronteira.
 
Por muitos e muitos anos
andou nos galpões do pampa, 
castrando pingos de estampa 
com renomada experiência, 
cavalos reis de querência, 
parelheiros afamados, 
pela faca condenados 
a morrer sem descendência.
 
Às vezes, durante a noite, 
um pesadelo o volteia 
e o remorso paleteia. 
Castrador!... Que judiaria! 
E quando sem serventia 
por aí deixar semente 
no mundo onde há tanta gente 
pedindo essa cirurgia.
 
E ali está --- defronte ao rancho, 
pastando o mouro do arreio, 
pingo de campo e rodeio 
que castrou --- quando potrilho. 
O mouro --- mesmo que filho 
do xiru velho campeiro, 
o último companheiro
do seu viver andarilho.
 
Na primavera --- outro dia, 
um potranca lazona,
linda como temporona, 
vestida em pelagem de ouro, 
veio se esfregar no mouro,
mordiscando pelo e crina,
mais amorosa que china
num princípio de namoro!
 
E o mouro? --- pobre do mouro!
Não pode ter namorada. 
Veio, direto à ramada, 
numa agonia sem fim, 
olhando pro dono, assim, 
num bárbaro desespero, 
como dizendo: parceiro, 
vê o que fizeste de mim!
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  Autor: Jayme Caetano Braun
Poesia enviada Por: Rafael Valerio - Mafra / SC
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26/04/2012 09:24:27 paulo junior - canguçu / RS - Brasil
Parabéns! Essa é a melhor poesia q eu já conheci. Cheguei a declamá-la na CIENA e gostei muito. Parabéns! Abraço!
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01/07/2011 01:22:37 Juliana de Lima - Mafra / SC - Brasil
TAMBÉM SOU MAFRENSE, TELURISTA E POETIZA. ME AGRADA MUITO O VERSAR DA XUCRA, SIMPLES E VIVAZ, VIDA SULINA.
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