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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

19/10/2007 11:34:59
TUPÃ
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1-Fidalga estirpe de nobre,
meu velho cão perdigueiro,
chegaste ao chão brasileiro
no sangue dos teus avós,
ancestrais vindo da França
te resguardaram na herança
que derramou-se entre nós...
 
2-Quanta volta deu teu sangue
até chegar à querência...
O imenso rio da existência
tem "miles" de tributários...
Mestiço de boa cepa;
por baixo, branco de pombo;
pintas negras, sobre o lombo;
focinho e cauda ordinários.
Pouca estampa e muito faro
te distinguiam dos outros;
te assemelhavas aos potros,
na destreza e na coragem...
Em meio dos capinzais,
cheirando o vento que zonze,
eras estátua de bronze
sobre o verde da paisagem...
 
3-Tirei-te as baldas da infância
sem nunca te repreender;
aprendestes a obedecer
ao silvo de um assovio.
Meu bom irmão dos instintos,
como nós nos completamos
ao longo de tantos anos
que a mocidade engoliu...
A vida é campo dobrado
em que a roseta domina!
Por ele a Morte assassina
sempre caça de tocaia...
Não retornou ao Rio Grande
o velho amigo fiel
que o dente da cascavel 
aniquilou no Araguaia...
 
4-Seus restos jazem na terra
da aridez do planalto,
junto a um piquí, muito alto,
em meio do cerradão.
Ao lhes dar a sepultura
jurei, no meu último afago,
que voltaria ao pago,
comigo, no próprio chão
 
5-Percebo um cheiro de morte
nos meus cabelos tordilhos.
Vão os dias andarilhos
cumprindo o penoso afã,
por isso, filhos, agora,
eu vos suplico um aval:
se o meu instante fatal
me surpreender amanhã,
cumpram, por mim, a promessa
de arrancar do carrascal
do rude Brasil Central
os ossos do meu Tupã.
Façam único sepulcro 
para nós,-dois animais!-
que nos campos sepulcrais
das grotas do esquecimento,
possamos juntos, confiantes,
como em pousos do passado,
nos decompor, lado a lado,
nesse eterno acampamento...
 
6-Sobre nós dois, em sarilho,
minhas armas, meu cantil...
Para traçar o perfil
dos corpos que se consomem
um epitáfo legenda
que fale da estranha união
de um homem que não foi cão,
e um cão melhor do que os homens 
E, quando, nas madrugadas
das invernias pampeanas,
o vento sobre as savanas
passar uivando no céu,
nós dois iremos ao campo,
como nos idos de outrora,
fantasmas dentro da aurora,
surgidos do mausoléu...
 
7-Que importa o medo do Mundo
pela sombra dos defuntos,
se um dia nos rever juntos
no ermo dos matagais?
Quem sabe, ao nos ver rondando
restos de Vida na Terra,
esmague o clamor da guerra
no escombro dos arsenais...
............................................................................
  Autor: Lauro Rodrigues
Poesia enviada Por: Maria da Graça Rodrigues - Porto Alegre / RS
  Observações: O último pedido do poeta Lauro Rodrigues, de ter o Tupã junto com ele, foi atendido por mim. Agora eles descançam em paz. Tupã, foi o mais fiel perdigueiro dele e a sua última promessa ao cachorro foi cumprida: voltou ao pago, no mesmo chão que ele. Maria da Graça Rodrigues - filha de Lauro Rodrigues.

 
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06/12/2008 19:16:32 Fabio vitoria rodrigues - uniao da vitoria / PR - Brasil
Também tenho um casal de perdigueiros, mas infelizmente o macho foi roubado; o ladrao não sabe, mas levou um pedaço do meu coração com ele. JJ: amor para sempre!!!
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11/01/2008 15:24:20 Maria da Graça Rodrigues - Porto Alegre / RS - Brasil
Sr. Diovani Cecato, quero lhe agradecer o carinho com que manda os parabéns pela poesia Tupã, de autoria de meu saudoso pai. Como ele mesmo dizia, ser um homem que nunca foi cão e um cão melhor do que os homens. Dos 32 cães perdigueiros que possuía, Tupã se sobresaia em tudo, era o xodó! Devem andar pampeando nas invernadas do Patrão Maior. Um grande e respeitoso abraço e mais uma vez obrigada!
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22/12/2007 11:33:08 Diovani Luis Ceccato - Marechal Candido Rondon / PR - Brasil
Emocioante ler uma poesia que fala de um homem que tem todo o amor por um cachorro, e até no seu último momento nunca se esqueceu de seu melhor amigo, que tenho certeza nunca o traiu, porque só um cachorro fiel é assim, muito melhor que o homem. Meus parabéns!
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