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Sina de Andejo, de Régis Marques

 

27/10/2007 07:12:19
ROMANCE DO TIO ABEL
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Nove leitos de hospital,
paredes e rostos alvos...
...e o Cristo crucificado,
olhando - compadecido -
aquele arrastar de cruzes
de miséria e de doença...
...restolhos de tempo antigo
naquele quarto de dores.
 
Pinga o soro endovenoso
em contraponto ao gotejo
de uma sonda intra-uretral...
- Eu pareço um surrão furado,
água que botam por riba
sai dereto lá por baxo!
E um xistoso e dolorido
sorriso, de meia-boca,
aviva o rosto do Abel.
 
Aquele corpo que outrora
soube agüentar muita lida
de cercado, de mangueira
e de lombo de cavalo,
hoje afocinha no pasto
- no sobre-lombo de um pealo -
de oitenta anos bem postos
que a vida, porteira-a-fora,
vem lhe ajeitando a mangueada
- costeada da “tar da prosta” -
direito à cruz de pau-ferro,
na costa de uma picada.
 
- Por que é que o tar Deus dos branco
faiz isso co´os negro véio?...
...por que é que a morte não veio
no estôro duma rodada?...
- E aquela tropa morruda
que nóis atiremo n´água
no Passo dos Enforcado
- Camaquã de gaio-a-gaio -
e o meu gateado cabano
se entregô pra correnteza...
...não fosse a cola dum tôro
que me cruzô no costado!...
- Por que é que o tar Deus dos branco
não me feiz essa gauchada?...
 
- Morrê não é o bochincho!...
...morrê sozinho é que é!
- Não tive fio o muié
que me ajudasse estas hora.
- E essa mardita demora
em dá co´a cola nas pedra!
 
- E o neto do patrão véio,
que hoje trabaia no povo,
nessa tar de capitar...
...quando guri, só andava
grudado na mi´as bombacha...
...por que é que tempo não acha
pra vê os que le pertence?...
 
- Moça, óia aqui...
...o meu braço tá inchando!...
 
A enfermeira...contrariada
com a pouca remuneração,
sem a menor caridade
ou compaixão ao seu próximo,
ainda xinga o negro velho
quando a agulha sai da veia.
 
- Quem será que vai cevá
o mate do meu patrão?...
- Quem será que vai ficá
im riba do fogo grande
pra não dexá isfriá as marca
nos dia de marcação?...
- Quem vai insiná os negrinho
como se encia um cavalo?...
- Quem vai descascá marmelo
e mexê tacho de doce
no calorão do verão?...
 
- Quem vai mostrá pros mais novo
o rasto da capinchada
e o sinar das resbalada
nas barranca dos arroio?...
- Quem vai insiná os negrinho
a pialá de bolcado?...
- Quem vai desfazê os mandado
quando a tormenta se enfeia?...
- Quem vai - de garganta cheia - 
cantá um chote bem marcado,
fazendo viola e costado
pra cordeona botoneira?...
 
- Quem vai contá pros negrinho
do tempo em que o avô deles
boleava toro aragano,
das gadaria bagual?...
- Quem vai mostrá pros mais novo,
ou pros criado no povo,
que home e cavalo novo
se conhece pelos óio?...
 
- Tá na hora do remédio,
abre a boca, seu Abel!
 
- Isso é amargo como um fel...
...se, ao menos, viesse um mate!...
 
E um sol ilumina o rosto
desbotado e descarnado,
num sorriso de alegria,
que há muito já não saía
da boca do negro velho.
 
- Trouxe um mate Tio Abel...
...custei um pouco, mas vim...
...acaso o senhor achava
que o seu negrinho mimoso
não ia deitar o toso
pra cuidar do negro velho?
 
- Acaso o senhor pensava
que o seu negro não lembrava
daquele tempo passado,
quando só andava grudado
nas dobras da sua bombacha?
 
- É certo que lhe agradeço
por me ensinar o que sei...
...e se achei rumo na vida
sei de pronto, e com certeza,
que é por saber com clareza:
trago na alma a firmeza
que dos antigos herdei.
 
- Agora sim, Deus dos branco,
que o meu negrinho já veio!...
...agora esse negro véio
pode morrê descansado!...
...que os tempo não são os mesmo
e os home tamém não são!...
...mas quem plantô bem-querença
nos cercado da amizade,
colhe amor e leardade
nas safra do coração! 
............................................................................
  Autor: Gulherme Collares
Poesia enviada Por: Cássio Gomes Lopes - Bagé / RS
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