Usuário:
 
  Senha:
 
 

Miguel Marques:
Alma de Campeiro

 

16/11/2007 13:19:37
RETORNO BRAVO
............................................................................

 

 

Ali na porta do rancho,
junto ao cusquito nervoso,
o velho guasca orgulhoso
olhava o filho partir;
também desejava ir
com a mesma disposição,
levando a lança na mão,
p'ra se unir aos farroupilhas
e pelear pelas coxilhas
em defesa do rincão.

Porém, já velho e arquejado,
perdera a força no braço;
tinha no lombo o cansaço
do peso de muitos anos;
mas era um dos veteranos
com orgulho do passado,
por ter a lança empunhado
combatendo os castelhanos.

Que ganas tinha de ir
aquele velho guerreiro,
de novo para o entrevero
como gaúcho pelear;
mas ficava a se orgulhar
que, embora velho e cansado,
tinha um filho já criado
partindo no seu lugar.

E ali, na porta do rancho,
cheio de orgulho e pesar,
viu o filho se afastar
com garbo e disposição:
montando um flor de alazão,
o laço preso nos tentos,
o poncho revoando ao vento
e a lança firme na mão.

Depois, com a estrada deserta,
a noite foi se chegando,
o pampa foi silenciando
nas grotas e nos banhados;
e o velho guasca, cansado,
no catre foi se arrimando,
em silêncio memoriando
entreveros do passado.

Assim, a poeira dos dias
cobriu o catre vazio
do paisano que partiu
do rancho para a guerrilha,
levando, na alma caudilha
de guasca continentino,
a fibra, a glória e o tino
de campeador farroupilha. 

Já muitos dias depois
um xirú trouxe a notícia:
- A farroupilha milícia,
em que seu filho marchou,
peleando se dizimou.
Morreram, mas não recuaram;
e entre os bravos que tombaram
dizem que o moço ficou.

Num sentimento profundo
o velho ficou calado,
mas o seu rosto enrugado
não pode a dor esconder,
deixando livre correr,
do fundo da alma ferida,
uma lágrima sentida,
que ele não pode conter. 

Tristonha caiu a noite
e mais triste a madrugada;
latia ao longe a cuscada;
na quincha gemia o vento;
e sem dormir, um momento,
ali, no catre estirado,
o velho ficou atado
na soga do pensamento. 

Lembrou o filho em criança,
correndo o pampa em retoço;
a melena em alvoroço,
soprada ao vento pampeano;
recordou ano por ano,
até que o piá ficou moço,
e ali, da porta do rancho,
partiu p'ra revolução
montando um flor de alazão,
o laço preso nos tentos,
o poncho revoando ao vento
e a lança firme na mão.

Estava, assim, recordando,
quando lá fora um gemido
lhe fez apurar o ouvido
e despertar-lhe a atenção;
e quando ouviu uma mão,
naquela hora tão morta,
forcejar de encontro a porta,
como querendo arrombá-la,
sua visão ficou clara,
voltando-lhe a luz e o brilho;
e num ímpeto caudilho
a porta abriu com vigor;
e estarreceu-se de horror
ante a figura do filho.

Cambaleante, ensanguentado,
as vestes feitas em frangalhos,
o corpo cheio de talhos
dobrado pelo cansaço,
já sem força em nenhum braço,
já sem poder ver direito,
e com o meio do peito
aberto por um lançaço.

Fitando os olhos do filho
o velho ficou calado,
estarrecido, espantado,
vendo-o ali em sua frente;
então gritou, gravemente:
- Meu filho, por que voltaste?
Por que? Por que não tombaste,
onde tombou nossa gente? 

Maldito sejas, covarde!
Tu já não és mais meu filho!
Não tens o sangue caudilho,
não aguentaste o repuxo!
Deixaste teus companheiros!
Fugiste dos entreveros!
Tu já não és mais gaúcho! 

Então, a face do guasca,
que peleando não tombou,
como um lançaço estampou
a ira do coração,
prostrando-se, rudemente,
naquele gesto inclemente,
desfalecido no chão.

O moço, sentindo a morte
roubar-lhe o sopro da vida,
com a alma triste e ferida,
ali prostrado no chão,
sem rancor no coração,
olhou para o pai a seu lado;
e já, num último brado,
fez a brava confissão.

- Meu pai, eu não fui covarde,
honrei meu poncho e minha adaga,
fiquei coberto de chagas,
mas aguentei o repuxo!
Fui valente, fui gaúcho!
Peleei com todo o ardor!
E se aqui vim, escondido,
foi p'ra salvar do inimigo
o pavilhão tricolor!

E abrindo a camisa ao peito,
tirou, em sangue banhado,
aquele trapo sagrado,
que até o fim defendeu.
E, beijando-o, estendeu
ao pai, num último esforço;
e, depois, curvando o dorso,
o bravo guasca morreu!

............................................................................
  Autor: Ubirajara Raffo Constant
Poesia enviada Por: Flavio Rasia Filho - Caxias do Sul / RS
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
15/09/2009 18:14:20 Geraldo Ribas - curitiba / PR - Brasil
Grande Aldemir! Vamos nos falar, gaúcho véio de guerra!
Sítio: *****
19/08/2009 20:56:37 paulo - ijui / RS - Brasil
Já não se faz mais guascas como esse!
Sítio: *****
21/12/2008 16:38:59 aldemir flores - londrina / PR - Brasil
Ouvindo ou lendo esta poesia chucra é impossível segurar a emoção. Pêlos que se arrepiam e lágrimas que brotam do fundo da alma. É por terem existido guascas assim que tenho orgulho de ser GAÚCHO! Parabéns!
Sítio: *****
16/10/2008 17:24:49 patrícia soares de oliveira - tuparendi / RS - Brasil
Adorei! é espetacular!
Sítio: *****
Untitled Document