Usuário:
 
  Senha:
 
 

Baitaca:
No meio dos Quatro Ventos

 

07/12/2007 22:53:44
MALA DE GARUPA
............................................................................

Antonio Francisco de Paula

 

Velha mala de garupa

De pano de colchão

Herança da tradição

Da gauchada de antanho

Que a ferro branco e estanho

E lança firme nas mãos

Defenderam este chão

Dos valentes castelhanos

 

Rude trapo de riscado

Da nossa gente simplória

Costurado pela história

Com a linha da esperança

Que  ficaste nas estâncias

Pendurada nos galpões

Abarrotada de emoções

De saudades e lembranças

 

Toda vez que me deparo

Com uma mala de garupa

Já vejo o velho Chicuta

Oitavado no bolicho

Contente matando o bicho

Num martelo retovado

E depois comprando fiado

Os apetrechos de serviço

 

Espoleta, chumbo grosso

Fumo em rama, rapadura

Uma meia de canha pura

Pra espantar a solidão

Erva buena pro chimarrão

Pavio e pedra pro isqueiro

Charque gordo pro carreteiro

E querosene pro lampião

 

Café, açúcar mascavo

Tecido de chita e de brim

Mata piolho, criolim

E glostora pras melenas

Cabrestilhos pras chilenas

E como sempre de costume

Um frasquito de perfume

Pra agradar dona pequena

 

Socando tudo na mala

Metade pra cada lado

E saindo meio emborcado

Levando as compras nas costas

Atalhando pela encosta

Por dentro de uma picada

Chegando dando risada

Na sua velha palhoça

 

Quantas e quantas vezes

Andastes entreveirada

Em rinhas e carreiradas

Nos reboliços de venda

Onde o índio ventena

Te enrodilhava no braço

Pra se livrar dos puaços

Dos retalhos de chilenas

 

Viajando presa nos tentos

No recavém dos arreios

Acompanhando os tropeiros

Os vaqueanos andantes

Os caixeiros viajantes

A indiada campeira

Aparceirando as parteiras

E as benzedeiras de dantes

 

Sacolejando nos fueiros

No assoalho das carroças

Levando a bóia na roça

Para o humilde camponês

Que todo final de mês

Tapado de judiaria

Se bandeava a lá cria

Pro armazém do português

 

Num joguito de osso

Ou carteado de baralho

Na beira de um borralho

Numa roda de chimarrão

Nos fandangos de galpão

Nos bailes de cola atada

Nos tragos e porfiadas

Nas pulperias do rincão

 

Nas domas e gineteadas

Tiros de laços e castração

Nos dias de marcação

De esquilas e carneadas

Nos bolichos beira de estrada

Atirada pelos balcões

Amadrinhando os peões

Nas fuzarcas animadas

 

Lendária mala gaudéria

Peregrina dos pagos

Tu és o maior legado

Que carrego na memória

Da indiada de outrora

Que vagueavam sem assombro

Contigo atirada nos ombros

Carregando a nossa história!

............................................................................
  Autor: Antonio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antonio Francisco de Paula - Brasília / DF
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
12/11/2012 23:15:13 Paula Rejane de Paula - São Leopoldo / RS - Brasil
Às vezes, a gente procura uma coisa e encontra outra. Linda poesia! Não sei se nosso sobrenome é meio parente, mas nosso orgulho pela terra sim.
Sítio: *****
16/07/2010 13:54:48 Mauro Lopes de Paula - Caputera Itapeva SP / SP - Brasil
Gostei dessa poesia, meu irmão. Ela fala do tempo de antigamente. O nosso pai, quando ia no armazém do Teodorico buscar compra, sempre trazia bastante pão, pois eu gostava muito de pão com café. Abraço do mano velho da Caputera.
Sítio: *****
15/07/2010 13:54:26 Marcos freitas ribas - Belo Horizonte / MG - Brasil
Amigo, lendo algumas poesias pela internet me deparei com essa, que na minha opinião é a melhor que eu ouvi. Senti saudades do vovô e do meu tempo de infância. Morava-mos no sítio, longe da vila, e o único meio de transporte era o cavalo; e a mala de garupa era indispensável. Parabéns!
Sítio: *****
06/07/2010 23:56:38 Honório Fagundes - Itabera / SP - Brasil
Amigo, tua poesia é muito boa. Tenho 85 anos e já usei muito a mala de garupa. Vivi tudo isso. Vou contar-lhe uma história: certa vez, voltando da vila com a compra para a criançada, montado num burro ligeiro e veaco, avistei um tatu no meio da estrada; tentei tapar o olho do burro, para que ele não se assustasse, mas não adiantou. O burro empinou o orelha, deu um peido e jogou para o ar, eu e a mala de garupa, e saiu correndo. Aproveitei muito pouco da compra que eu fiz. Abraço!
Sítio: *****
06/07/2010 23:39:00 EZALTINO GUERRA FILHO - PORTO ALEGRE / RS - Brasil
Eia! Mas, tchê, que poesia buenacha, gaudério velho. Voltei ao passado, no tempo do vovô, e chorei de saudade. Abraço! E que Deus conserve essa inspiração em você!
Sítio: *****
04/04/2010 09:53:06 Euclydes - Bagé / RS - Brasil
Bom dia. Pensando na vida, relembrando o passado, procurei uma poesia que lembrasse os tempos de outrora, que o tempo não apaga; encontrei essa mensagem feita com amor, a mala que carrega comida, vícios, quinharias, sobretudo, ESPERANÇAS! Um abraço!
Sítio: http://*****
06/08/2009 16:31:19 Elisangela lopes - Jaguarão / RS - Brasil
Prezado gaúcho velho! Gostei do trecho do perfume, para fazer o agrado à chinoca. Naquele tempo os gaudérios não tomavam banho, mas gostavam que suas esposas ficassem cheirosas... Um forte abraco da fia!
Sítio: *****
06/08/2009 16:20:59 Mateus lopes - Vacaria / RS - Brasil
Gaudério amigo guacho velho porfírio, muito me agradou a tua poesia. Relembrei dos velhos tempos que mascava fumo e soltava fumaça do cachimbo, nas ventanas de um intruso, e riscava a costela do provocador com uma lapiana prateada, afiada à pedra. Um abraço, mano velho!
Sítio: *****
03/08/2008 18:16:59 Antônio Francisco de Paula (Graxaim) - Brasília / DF - Brasil
Buenas amigo. Fico feliz em saber que esta poesia mexeu com a sua sensibilidade. Abraço cinchado do amigo tradicionalista Toninho de Paula.
Sítio: *****
28/07/2008 11:37:25 Gerson Roger Avello Squizani - Santa Maria / RS - Brasil
Amigo Poeta!!! Sinceramente (em segredo nosso) chorei... chorei de saudade caprichosa. Porque apesar de pouco passar dos 30 anos vivi quase tudo isso com a Mala de Garupa... principalmente fazer compra pro Vovô no Bolicho... comprar canha, fumo em rama, buscar farinha no moinho, querosene nos finais de tarde pra não ficar no escuro... Abração, e que continues ajojando as palavras em poesias tão Lindas!
Sítio: *****
Untitled Document