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Tchê Campeiro:
Direitos do Bugio

 

07/01/2008 06:53:11
AFOGADOS
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Mescla de barro e taquara
Entaipei as quatro paredes,
Cobrindo, devagarito, com feixes de santa-fé.
Com leivas da tabatinga
bem batida... bem sovada...
Fiz o piso, o fogão e o primeiro chimarrão
Que se embornou numa mão
Numas dez léguas quadradas.
 
Arei a terra pro milho,
Botei a vaca de leite e engalinhei o terreiro.
E nas tardes de longos mates
pensava, com o olhar distante,
nesse chão que Deus me deu...
                      Além da sanga dos fundos,
                      Além do rio e dos montes,
                      Além... bem além do horizonte
                      Caramba! Tudo era meu!
 
A geada mais caborteira
Do dia mais frio de agosto
Me encontrava aconchegante
Ao redor de um fogo de angico
Que largava, impertinente,
Faíscas guapas de quentes
Pelas rugas do meu rosto.
E o silêncio da coxilha quebrou a primeira vez
               Com o alarde do quero-quero
               Pois um troteado bem distante
               Mostrava que um visitante
               Se achegava de mansito!
                      Era um índio da cidade
                      Desses de terno e gravata
                      Que pra nós é diferente.
                      Desses que, à primeira vista,
                      Até nos causa a impressão
                      De que já vão pondo a mão,
                      Limpando o bolso da gente!
 
Sem mesmo apear do cavalo
Me gritou lá da porteira:
Prás bandas cá de Cruz Alta,
Num tal de Passo Real,
Ergueram uma taipa bem grande
E um naco desse Rio Grande
Vai ficar dentro do açude...
Tua plantação... Tua encerra...
Tua casa e toda esta terra
Vai virar lama... no fundo!
 
Sem entender "patavina",
Peguei das mãos do vivente
A tal desapropriação...
Com letras que me diziam que logo construiriam
Num lugar perto do povo
Um cercado e um ranchinho
Prá que eu criasse uns bichinhos
E plantasse a horta de novo...
 
Num "se vamo", alçei os trastes
E galopei pro povoeiro,
Sem lar... Com pouco dinheiro...
Mas com fé nessas promessas!
 
                Adeus meu rancho sapé!
                Meu milho de saraquá!
 
                          Além de levar saudades
                          Levava, presa na cela,
                          A vida vã das favelas
                          Que nos impõe a cidade!
 
           Meu Deus!
           Que os rumos são novos
           Na direção do horizonte!
           Mas todos - Passos de um sonho
           E um desespero medonho
           De se "afrochá" pra saudade!
 
Mentira!
Tudo mentira!
Foi pura politicagem!
 
Pois já passam mais de anos
Que ando margeando cidades,
Procurando autoridades,
Sem nunca ser recebido.
E sentindo, barbaridade,
Na entranha xucra do peito
Que o homem não tem direitos
Nem mesmo ao que é propriedade!
 
Andejante das calçadas
Me constituí um teatino
Tendo por sina e destino
Escritórios de governantes,
Mendigando entre os mandantes
o tal "direito e garantia",
         Trocando meu próprio mate
         Por tarefas e biscates
         Que "changueiam" a bóia do dia!
 
Nas buscas de um andarilho
Quantos valores se perdem
Por entre os rumos que apontam
Sempre um ponto no horizonte
Que nunca dá pra chegar...
 
E quando a saudade açoita
Me paro a pensar, com mágoa,
Que um mundo no fundo d'água
Foi o chão que Deus me deu...
             E que além da sanga dos fundos,
             Além do rio e dos montes,
             Além... bem além do horizonte,
             Caramba! Tudo foi meu! 
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  Autor: José Luiz Flores Moró
Poesia enviada Por: José Luiz Flores Moró - Frederico Westphalen / RS
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