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Tchê Campeiro:
Direitos do Bugio

 

08/01/2008 14:19:52
PÓ DE ESTRADA
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Nas guaritas bambas das porteiras
Fui sentinela, em tardes de guri,
Da teatina vida das estradas...
Olhos distantes, de lonjura a fora,
Procurei, no ritual das polvadeiras,
Encontrar respostas verdadeiras
Do por que das idas e demoras!
 
A carreta passou, chorando rodas,
E o boi da ponta se avivou em patas
Quando a picana cutucou o lombo!
 
Eu não sabia...
Mas a carreta não mais voltaria
Porque "a lo largo" da estrada fez-se estátua
E foi dormir no catre dos museus!
 
O rufar de patas fez tremer barrancos
E a cortina de pó ganhou os ares
Como nuvens carregadas para chuva,
Levando tropas para o matadouro!
Entre assovios e o latir dos cuscos
O "eira boi" finou-se no horizonte
Seguindo o rastro dos que vieram ontem,
Mas fazendo marcas de casco e pai-de-fogo
Para deixar pros que viriam atrás!
 
Eu não sabia...
Mas a tropa também não voltaria,
Pois um tropeiro bagual e roncador,
Com aporreados cavalos no motor,
Faria changas no rol das invernadas
Levando o gado... Sem gritos... Sem pousadas,
Sobre potentes patas de borracha!
 
O peão de estância que enfrenou o zaino
E emalou "recuerdos" pra domar saudade,
Também passou pras bandas da cidade
Entonado de pilchas e esperança!
 
Eu não sabia...
Mas o peão também não voltaria,
Pois enormes vaga-lumes de ilusões
Rondariam as janelas dos galpões
Procurando o potro liberdade
Para prendê-lo, de alma e pensamento,
No "tronco" de asfalto e de cimento
De um brete chamado de cidade!
 
De alma em cerne
E melenas trançadas de minuano
Veio gambeteando do grosear dos anos
O velho alambrador que plantou cercas
Para o varal das verdes caturritas!
Olhos compridos de varar os anos
Também quis ver, bem rente da barbela,
Que luz estranha era aquela
Que incendiava o horizonte...
 
Eu não sabia...
Mas o alambrador também não voltaria,
pois que adiantaria ainda semear moirões
Se o pampa se rendeu às vastidões
De muitos e muitos latifúndios?
 
... E muitos outros passaram pela estrada...
O biriva... O mascate... O domador...
Pessoas que sovaram o corredor
Em busca de um além que se fez sonho
Nos contos de fadas do horizonte!
 
Eu não sabia...
Mas ninguém mais voltaria,
Pois onde desemboca o rio da estrada
Nas águas turvas e negras dos asfaltos
Aquerenciou-se o crime e os assaltos,
Extorquindo valores e morais,
Fazendo com que além das sesmarias
Ficasse mais solita a gadaria
E mais inútil o lombo dos baguais!
 
E, numa volteada,
Também me dei por conta
Que o pampa fenecia igual tapera
E, embora a minha saudade e a minha espera,
Ninguém... Ninguém mais retornou!
Eu quis saber porque ninguém voltou
E o que encontraram de bom pra não voltar!
Desci da minha última porteira,
Vesti as ilusões mais estradeiras
E me mandei, também a "Deus-dará"!
 
Porém... Aí eu já sabia
Que também não voltaria,
Pois, como os outros,
Bateria o pó da estrada,
Buscando rumos que não levam a nada,
Sem ter coragem pra poder voltar...
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  Autor: José Luiz Flores Moró
Poesia enviada Por: José Luiz Flores Moró - Frederico Westphalen / RS
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14/05/2011 23:40:17 Bombacha Larga - Brasília / DF - Brasil
Prezado Mario Augusto. O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita e a comunicação postada neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Em resposta, informamos que encaminhamos-te, nesta data, via correio eletrônico, um arquivo MP3 e outro MP4 contendo áudio e vídeo de uma declamação da poesia Pó de Estada, de José Luiz Flores Moró. Com as Saudações Tradicionalistas segue um quebra-costelas a esse prezado Vivente!
Sítio: http://www.bombachalarga.org
12/05/2011 20:06:33 mario augusto cruz alves - pelotas / RS - Brasil
GOSTARIA DE RECEBER A POESIA DECLAMADA POR UMA MULHER E PELO AUTOR, POIS JA ESCUTEI DECLAMADA POR MULHER E GOSTEI MUITO, DAI NUNCA CONSEGUI GRAVAR. SE FOR ATENDIDO AGRADEÇO DESDE JÁ. ABRAÇOS...
Sítio: *****
26/04/2011 23:14:53 Lidiane Souza - Rio Grande / RS - Brasil
Declamei essa poesia na Inter-regional de 2005, da 6a RT, e até hoje lembro-me dela. É linda!
Sítio: *****
22/09/2008 00:25:22 mario augusto cruz alves - pelotas / RS - Brasil
Essa poesia é bem das verdades do dia-a-dia: simples, mas mostra e conta pros que não viram e não viverão a verdade do mundo moderno e as suas mudanças. E é uma pena que essa vida passada levou toda a poesia, toda aquela coisa que só quem tem coraçâo gaúcho entende. Parabéns, gaúcho! E continue nos alegrando... .
Sítio: *****
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