Usuário:
 
  Senha:
 
 

Tchê Campeiro:
Direitos do Bugio

 

08/01/2008 23:23:12
PECHINCHAS
............................................................................
Ainda há pouco,
Nas avenidas da cidade,
Um gaúcho oferecia, em altos brados,
Quinquilharias que a ninguém interessava.
 
-Olhem...
Vendo uns trastes de couro, bem curtido
E lonqueado por meus braços de guasqueiro,
Uma sela... Uma chincha e um baixeiro,
Além do relho e um buçal para domar!
 
-Tenho também...
Um laço por sovar...
Rédeas... freios... um pelego e um xergão,
Que hoje são trastes de estorvo a este peão
Que não tem mais cavalos pra montar!
 
-Vejam...
Uma faca talhada por ourives,
De cabo e bainha feito em prata,
Mas que não passa de mais uma sucata
Que a sociedade proíbe-me de usar!
 
-Vendo barato...
Pra quem quiser comprar,
Pois na mesa deste pobre peão campeiro,
Pela sina infeliz de biscateiro,
Já não há quase mais carne pra cortar!
 
-Quem vai querer...
Um velho par de esporas sem rosetas
Que se gastaram no "mól" dos aporreados.
Correias secas e o papagaio enferrujado
Pela falta de rumo e de tropeadas!
 
-Um par de botas...
Couro de búfalo, riscada
De banhados, capões e unha-de-gato,
Pois que me adianta se troquei os matos
Pelo cimento e o asfalto das estradas!
 
-Aqui está...
Um lenço rubro... maragato
Que o tempo o tornara desbotado
Mas que foi bandeira no passado
Na ideologia fanática de um moço!
 
-Umas bombachas...
Favo de abelhas... pano grosso...
Eterna companheira nos cambichos,
Mas que já não passa de gozo nos bolichos
Por aqueles que me vêem como "grosso"!
 
-Ainda tem mais...
Uma guaiaca de couro de capincho
Que guardava as patacas das esquilas,
Mas que hoje não enxerga nem os "pilas"
Das changas indigentes da cidade!
 
-Tenho um pala...
Seda inglesa... raridade!
Um chapéu...
Mas este eu não vendo,
Pois, infelizmente, dele ainda dependo
Para colher esmola e caridade!
 
-Tenho ainda...
Uma bomba de prata desgastada
Pelo sumo da erva e da saliva.
Uma cuia... que conserva ainda viva
Reflexos de antigas tradições;
Quero vendê-la,
Pois nesses novos e amargos chimarrões,
Que a erva misturada proporciona,
Não têm mais gosto de brasa e de cambona
Nem a fumaça revolta dos galpões!
 
-Tenho também...
Páginas e páginas de história
Que meus avós escreveram e me legaram
E algumas pontas de lança que ficaram
Entranhadas no corpo do passado
Que, embora sejam bens já sem valor,
É o pouco do que tenho a dar amor
E o muito do que tenho me orgulhado!
 
-Por final...
Uma mala de garupa,
Já desgastada pelo cerne do meu lombo
E pela esfola diária dos meus tombos
Nessas buscas da minha identidade!
Mas...
Esta mala sempre há de ficar,
Para que eu tenha um traste onde guardar
A miséria e a dor desta cidade!
 
Ainda há pouco,
Nas avenidas da cidade,
Um gaúcho oferecia, em altos brados,
Um Rio Grande
Que a ninguém interessava!!!
............................................................................
  Autor: José Luiz Flores Moró
Poesia enviada Por: José Luiz Flores Moró - Frederico Westphalen / RS
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
23/11/2009 10:00:39 Muriel - Cachoeira Do Sul / RS - Brasil
Bueno... A Pechinchas que declamo é muito diferente desta, digo até mesmo que uma versão bem mais interessante...Ela veio até mim pelas mãos de Patrocínio Vaz Ávila, uma cópia bem antiga e já amarelada...e dito por ele original em seus versos...
Sítio: *****
Untitled Document