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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

26/01/2008 17:14:04
ALMA TAPERA
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Minha alma também é uma tapera
Oculta aos muitos matagais dos anos,
Sementando os grãos dos desenganos
Que o vento planta no final das tardes,
Meia aturdida com o temor e o alarde
De mil demônios e bichos peçonhentos
Em eternos festivais de meus tormentos
Que alertam as nuvens dos meus céus covardes!
 
Mas antes de tapera fui mansões e fui palácios
Rodeado de jardins e alamedas,
Janela grandes - Cortinais de seda.
Portal gaúcho de imponência guapa!
Sem jamais imaginar que nesse mapa
De tantas geografias e alambrados
Viesse ranger porteiras, nesses meus costados,
Essa interpérie de visões farrapa!
 
Pois também tive erguido minhas paredes
Com as pedras e o barro da esperança,
Tive a alegria e o sorriso das crianças
Correndo em minhas loucas vastidões!
Tive mistérios nos sótãos, nos porões,
E nos labirintos de minhas chaminés,
Transmitindo, desde o teto aos rodapés,
O calor de minha guarida e meus fogões!
 
Tal qual a casa nova quando pronta
Abre a porta e recebe o construtor,
Também escancarei o meu amor
E abri cancelas de mim para uma prenda!
Transformei-me de rancho pra fazenda,
Sovei meus parapeitos pela espera
E, finalmente, virei nessa tapera
Quando essa china, um dia, virou lenda!
 
Tive também meus pássaros cantores
Clarinando meus oitões bem falquejados,
Dei raízes aos pilares afundados
Nas entranhas da terra e do cascalho.
Fui "consumo"... Fui sinuêlo... Fui atalho
Para o princípio de ternas amizades
E abri cancelas aos ventos da saudade
Que comprimiam meu teto e meu assoalho!
 
Tive varandas enormes... Mobiliadas...
Cheias de quadros sorrindo nas paredes,
Uma sala com flores e com redes
Para o descanso de amigos e parceiros.
Eu era dono de todos meus potreiros
Até perder os antigos moradores
Com a abertura de muitos corredores
E a chegada prematura dos posseiros!
 
Uma a uma...
Foram levando minhas táboas
E espalhando meus pedaços pelo mundo.
No princípio fui o lar dos vagabundos
E, depois, de corujas e de cobras,
Até que a engenharia de minhas obras
Fora tragada pela grama e pelas heras.
Oficialmente fui tombado por tapera
No monte de escombros de minhas sobras!
 
Agora...
Só os vultos andejantes do minuano
Visitam minhas paredes carcomidas
E alguns fantasmas impiedosos de outra vida
Ainda brincam nos meus quartos destruídos;
Ectoplasmas dos dias bem vividos
Que, nas noites horrendas de hora incalma,
Buscam charlas com os espectros dessa alma
Como se não estivessem mortos e perdidos!
 
Porém...
Quando se dizimar o último tijolo
Sobre o útero do barro em que foi feito,
Por certo irá brotar sobre esse leito
Apenas sementes de flores e de heras
pra que essa alma, lúgubre tapera,
Descanse em paz nas garras das raízes,
Sorvendo néctar de dias mais felizes
Para exalar em outras primaveras! 
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  Autor: José Luiz Flores Moró
Poesia enviada Por: José Luiz Flores Moró - Frederico Westphalen / RS
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15/03/2008 13:06:32 guilherme batista dos santos - itaoiranga / SC - Brasil
Bagual que nem tu, indiada buena de coração... Guapo galdério. Um abraço do tamanho da Santa e Bela Catarina!
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