Usuário:
 
  Senha:
 
 

Miguel Marques:
No Agosto da Alma

 

30/01/2008 16:06:35
PAYADA
............................................................................

Jayme Caetano Braun

 

Raízes, tronco, ramagem...

Ramagem, tronco, raiz...
Abriu-se uma cicatriz

De onde brotei na paisagem...

O tempo me fez mensagem

Que os ventos pampas dirigem,

Dos anseios que me afligem

De transplantar horizontes,
Buscando o rumor das fontes

Pra beber água na origem.

Sobre o lombo da distância,

De paragem em paragem,
Fui repontando a mensagem

De bárbara ressonância,
Fazendo Pátria na infância

Porque precisei fazê-la,
E a Liberdade, sinuela,

Sempre foi a estrela guia
Que o meu olhar perseguia

Como quem busca uma estrela.

Pensei chegar alcançá-la,

No estágio de índio rude,
Mas nunca na plenitude,

Porque essa deusa baguala
Que aos andejos embuçala,

Nunca ninguém alcançou,
Bisneto nem bisavô,

Nos entreveros mais brutos,
Labareda de minutos

Que o vento sempre apagou.

Primeiro era o campo aberto,

Descampado, sem divisas...
Com fronteiras imprecisas,

Mundo sem longe nem perto..
Eu era o índio liberto,

Barbaresco e peleador
Rei de mim mesmo, senhor

Da natureza selvagem,
A religião da coragem

E o sol de bronze na cor

Um dia veio o jesuíta

A este rincão do planeta
Vestindo a sotaina preta

Na catequese bendita
Foi mais do que uma visita

À minha pampa morena
Bombeei por trás da melena,

Olhos nos olhos o irmão,
E gravei no coração

A santa cruz de Lorena!

Mais tarde veio mais gente

Às minhas terras campeiras...
A falange das bandeiras,

Impiedosa e inclemente...
Me levantei de repente

E as tribos se levantaram...
As várzeas se ensangüentaram,

Elas que eram verdejantes,
Mas eu venci os bandeirantes,

Que nunca mais retornaram.

E depois vieram os lusos,

Os negros, os castelhanos,
E nos pagos campejanos,

Novas normas, novos usos...
As violências e os abusos

Da Ibéria, Castela e Lácio
Que rasgaram o prefácio

E mataram as plegárias
E as ânsias comunitárias

Dos irmãos de Santo Inácio.

Não pude deter a vaga

De Andonega e Barbacena...
Se a História não os condena,

A mancha nunca se apaga!
A opressão jamais indaga

Na sua ambição mesquinha,
Era meu tudo o que tinha,

Era meu tudo o que havia,
E eu morri porque dizia

Que aquela terra era minha.

Mas o eterno não morre,

Porque permaneço vivo...
No lampejo primitivo

De cada fato que ocorre
O meu sangue rubro corre

Na velha raça gaudéria,
Corcoveando em cada artéria

Pela miscigenação
Na bárbara transfusão

Com os andarengos da Ibéria...

Fui sempre aquilo que sou,

Sou sempre aquilo que fui,
Porque a vida não dilui

O que a mãe terra gerou...
Sou o brasedo que ficou

E aceso permaneceu,
Sou o gaúcho que cresceu

Junto aos fortins de combate
E já estava tomando mate

Quando a Pátria amanheceu.

E assim, crescendo ao relento,

Criado longe do pai,
Junto ao mar doce - o Uruguai -,

O rio do meu nascimento,
Soldado sem regimento

No quartel da imensidade...
Um dia me meu vontade,

Deixei crescer toda a crina
E me amasiei com uma china

Que chamei de Liberdade!

Por mais de trezentos anos

Fui pastor e sentinela
Na linha verde e amarela,

Peleando com castelhanos,
Gravando com los hermanos

A epopéia do fronteiro!
Poeta, cantor e guerreiro

Da América que nascia
Na bendita teimosia

De continuar brasileiro!!!!

Com Bento em mil entreveros,

Em barbarescos ensaios...
Depois contra os paraguaios,

Em Humaitá e Toneleros
Andei em Monte Caseros,

Paisandu, Peribebuí
Passo da Pátria, Avaí...

Longe do meu território...
E fui ordenança de Osório

Nos campos de Tuiuti

Depois, em Noventa e três,

Na gesta federalista,
A pátria a perder de vista,

Andei peleando outra vez...
Sem soldo no fim do mês

Porque pelear era lindo,
As espadas retinindo,

Chapéu batido na copa,
Como carneador de tropa

Nas forças de Gumercindo

Mais adiante, em Vinte e três,

Em Vinte e quatro de novo...
É o destino do meu povo

Que assim altivo se fez,
A marca da intrepidez

Deste velho território!
Ante o bárbaro ostensório

Dos lenços rubros e brancos
Acompanhei os arrancos

Do velho Flores e Honório...

Chimangos e maragatos,

Farrapos, federalistas,
Caminhadas e conquistas

Que a história guarda em seus fatos

Os tauras intemeratos

De adaga e pistola à cinta...
Não há ninguém que desminta

Nossa estirpe de raiz
Que se adonou da matriz

Nas arrancadas de Trinta

Depois vesti a verde-oliva,

Como sempre voluntário,
No cuerpo expedicionário,

Formando uma comitiva
Da nossa indiada nativa

Pra responder um libelo
E o pendão verde-amarelo,

No outro lado do mundo,
Cravei, bem firme e bem fundo,

No velho Monte Castelo!

Hoje, tempo de mudar,

Meu coração continua
O mesmo tigre charrua

Das andanças do passado.
Sempre de pingo ensilhado,

Bombeando pampa e coxilha...
A Pátria é minha família!

Não há Brasil sem Rio Grande

E nem tirano que mande

Na alma de um Farroupilha!

............................................................................
  Autor: Jayme Caetano Braun
Poesia enviada Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Uma homenagem ao grande e saudoso Pajador do Rio Grande Jayme Caetano Braun e ao Dia do Pajador Gaúcho Brasileiro.

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
28/09/2008 00:22:14 paulo costa - capão da canoa / RS - Brasil
Quando guri (aos cerca de dez anos de idade ou talvez onze) eu declamava uma poesia de Jayme Caetano Braun no CTG, onde participava de sua Invernada infantil. Hoje, aos 38, infelizmente afastado desta atividade maravilhosa que é a prática ativa das culturas do RIO GRANDE, gostaria de saber se alguém pode enviar a poesia que se me lembro bem do título chama-se PELOS CORREDORES DO RIO GRANDE ou algo perto disso: (...pelos vastos corredores deste Rio Grande altaneiro vai o meu verso campeiro estendendo o rude manto, fincando no solo santo em cada palmo de chão um pedaço de canção fimbria do meu própio canto ...). Infelizmente não me recordo do resto da poesia e se errei algum trecho da parte em que escrevi, por favor desculpe-me e me mandem o texto correto. Muito obrigado, desde já, e um abraço a todos. Meu e-mail é: paulinhoencanador@terra.com.br
Sítio: *****
08/02/2008 17:41:19 Jorge Lima - São Miguel das Missões / RS - Brasil
Prezado amigo Itajaú. Meus parabéns pela lembrança e homenagem ao grande e imortal poeta e pajador Jayme Braum. A reprodução desta obra do grande mestre, no site Bombacha Larga, enche de esperança e ânimo todos os gaúchos que cultuam as verdadeiras tradições desta nossa terra. Talvez esta poesia sirva como mensagem a todos aqueles que renegam e não valorizam nossas raizes. E encerro este meu comentário inspirado no verso de Dom Jayme, e digo que "enquanto existirem gaúchos calçando o garrão e escorados nestas tronqueiras de puro cerne, não vai haver tiranos mandando na alma dos gaúchos, muito menos em nossos costumes". Um abraço deste missioneiro! Jorge Lima - São Miguel das Missões-RS
Sítio: *****
Untitled Document