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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

16/02/2008 11:47:25
ETERNIZAÇÃO
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Lauro Rodrigues

 

Mais solto do que cusco eu fui criado,
gauderiando sem nome e sem pousada,
como o rijo pampeiro que soluça
nas restingas e moitas e quebradas.
Talvez, porisso - güecha redomona! -
a minh'alma se refuga de carona
e corcoveia se lhe põe os couros...
Ainda está por nascer sob este céu
o qüera que desquebre o meu chapéu,
a mulata que me prenda com seu choro!

Não sei porquê! Mas, sempre altaneiro,
como o passado do pampa brasileiro,
eu tenho sido desde piazinho!
Nunca um bochincho me pegou parado,
uma rodada me deixou apertado
ou um touro chucro me tocou o focinho...

Sou índio, por Deus, bem aragano!
Nunca soube o que fosse um desengano
porque aquilo a que amo não me trai:
cresci amando, com apego e galhardia,
o cavalo de minha montaria,
a querência e a benção de meu pai!

Só tive pai, e, p'ra o causo, um amigaço,
porque a mãe, Deus levou-a a seu regaço
quando eu era promessas de menino;
e fiquei que nem filho de perdiz...
a errar pelo pago, sem destino,
sem saber se feliz ou infeliz...
E nesse tranco, sem rumo, lhes garanto,
p'ra mode o maldito do quebranto
de uma china lindaça e umas carreiras,
o velho que revive nesta fala
morreu peleando, escudado no seu pala,
num entrevero de adagas e capoeiras...

E, assim: sem oitão e sem telhado,
-como lá diz a frase do ditado! -
eu fiquei na rigeira de meus passos
só tendo por amor o meu tostado
e essa campanha que ao me ver montado
na revava de beijos e de abraços...

Hoje, que anda longe a meninice
e que a tarde tristonha da velhice
vai pouco a pouco me envidrando o olhar,
espanto o gemido com o pigarro,
escondo-o nas cinzas do cigarro,
golpeando o peito para não chorar...

 

Sou como touro bravio desgarronado!
Nem mais direito de andar montado
porque o pampa quase todo é um vilarejo!...
Sou fantasma de tapera mal olhada...
Sou a cruz do passado aqui plantada
cumprindo a voz do superior desejo...
Nem rodeios... Nem domas... Nem tiranas...
Nem tropeadas, apojos e serranas
eu mais verei neste rodar de idade!
Porque são cousas que o tempo, repontando,
vai aos poucos, aos poucos invernando
no rincão da velhice que é a saudade!!!
 
Saudade - velha amiga penitente -
é o coice que o passado dá na gente
sob o relincho do pranto que borbulha;
é o ressurgir de tipos e passagens
que voltando ao rodeio das paisagens
interiores, às vezes nos orgulha,
e, outras vezes, de pranto marejados,
nos deixa os olhos, tristes e parados,
namorando a distância o infinito...
 
Olhos mansos, perdidos: dois tropeiros
repontando a boiada dos cangueiros
de tédios agoniantes e malditos!!!
 
Nada mais do que fui eu represento!
Apenas, a tristeza aqui no tento
corcoveia como um potro redomão;
e qual sinuelo de tropa amaldiçoada,
estoura a cerca de meu coração!
Só me resta um consolo - e que tristeza! -
é o saber que a morte, com certeza,
já ronda de mui perto a minha vida...
 
Ligeirito, no mais, se Deus quiser! -
sem flores, nem soluço de mulher,
serei tudo; serei nada! Sombra perdida
a errar pela pampa adormecida
dentro da noite morna como um beijo...
E como o negro da lenda dos tordilhos,
reincarnando fantasmas andarilhos,
errarei pela Terra. Meus desejos são:
recordar no perpassar do tempo,
viver no uivo que soluça o vento,
nos aguaceiros que fustiga o gado;
ser sombra e luz, p'ra vigiar por perto
este futuro de destino incerto
às tradições do meu rincão amado...
 
Quero por leito na terra hospitaleira
uma sombra magestosa de figueira
- onde eu possa sestear eternamente!
E quando em "Nada" transformar este meu "Todo";
ser partícula do "Todo": terra, lodo,
auxiliando o mistério da semente
que fecunda, que cresce, que se agita
dentro do espaço, abóboda infinita;
como é infinito o coração da gente...
Quero ser seiva; viver nas suas raízes,
aonde à tarde os pássaros felizes
possam trinar nos ramos balouçantes...
Ser seus frutos, sazonados e morenos,
torneados e macios como os pequenos
seios de caboclas sem amantes...
 
Ser sombra p'ra os tropeiros andarengos,
p'ra os carreteiros, lânguidos, molengos,
pioneiros de várzeas e quebradas...
Ser confidente de todos os sesteantes;
Ouvir histórias de amor, impressionantes,
e anedotas arteiras mal contadas...
Ser, por fim, a terra do Rio Grande;
o pó cor de griz de suas entranhas,
o verde das planícies orvalhadas,
o perfume da flor de mancenilha...
Ser tudo o que respira e que se agita
neste canto de Pátria onde palpita
a legenda da gente Farroupilha!!!

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  Autor: Lauro Rodrigues
Poesia enviada Por: Maria da Graça Rodrigues - Porto Alegre / RS
  Observações: Maria da Graça Rodrigues é filha do saudoso poeta Lauro Pereira Rodrigues.

 
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20/11/2010 14:31:53 Maria Teresinha Brandao - Porto Alegre / RS - Brasil
Fiquei feliz em ler esta poesia, deste grande tradicionalista, estando pesquisando algo sobre ele. Gostaria de saber qual Cemitério ele foi enterrado, na data de 17.12.1978. Agradeço por ser atendida...
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21/07/2010 09:05:16 Glauco D'Elia Branco - Sorocaba / SP - Brasil
Pucha, achei o autor! Certa feita, na casa de um Gaudério amigo meu, na Praia do Cassino, Rio Grande-RS, encontrei esta poesia jogada no fundo de um baú, escrita em máquina de escrever. Não referenciava o autor. Daí incluí nas minhas coletâneas e a declamei em vários Saraus, que participo por este Brasil a fora. Faço parte da Associação Cultural Coesão Poética de Sorocaba e CTG Fronteira Aberta, de Sorocaba. Neste ano de 2010, na Bienal do Livro, vou participar com algumas poesias de minha autoria. "Vaqueano" Glauco
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29/03/2008 02:53:40 India Nara Goulart Cezar - POA / RS - Brasil
A mais bela poesia gauchesca que já ouvi e li!!! Obrigada pela publicação!
Sítio: *****
03/03/2008 15:00:40 Vivian Schäfer - Porto Alegre / RS - Brasil
Olá, Maria da Graça! Preciso falar contigo. Queremos usar uma poesia do teu pai num programa sobre o Rio Jacuí. Ligue-nos. 51.32352505 Urgente!
Sítio: http://www.clicrbs.com.br/natrilhadosrios
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