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Miguel Marques:
Alma de Campeiro

 

19/02/2008 20:12:50
CARREIRA ENCARDIDA
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O ar pairava pesado, naquele domingo chuvoso.

O sol, meio manhoso, de vez em quando apontava

e em fachos iluminava a cabeceira da cancha.

Depois uma garoa mansa de novo o tempo fechava;

e outra vez se vislumbrava, à distância, uma mancha!

 

Uma mancha pra os de longe, para os de perto era mais:

dois ginetes, dois animais, no partidor, lado-a-lado.

Eu no lombo de um gateado, cabos-negros, anca-de-viúva;

o outro num azulego-coruja, peito-de-pomba avançado:

dois fletes emparelhados, naquela tarde de chuva!

 

E ali no fio da coxilha achava-se a cancha reta

pelos dois lados repleta de assistência entusiasmada.

Aos gritos dobravam a parada, sem respeitar pêlo nem marca,

apostando tudo, até a tarca, no seu pingo preferido.

E o jogo seguia renhido, fazendo correr a pataca!

 

Era a carreira grande, a carreira principal.

Do meu lado o rival: um índio meio matreiro;

diz que “flor de campeiro” e corredor afamado.

Eu um piá, mas já cansado de correr desde pequeno;

e sempre ganha o que eu enfreno. Aquela era a vez do gateado!

 

Porém, o cavalo azulego tinha mesmo boa estampa;

o dono apostou tudo, na tampa, e deu por “morta a parada”.

Já na carreira atada disse: - Vai ser um roubo! Nesta vai sobrar jogo!

E ali, alisando o “venta-rasgada”, o índio falou, dando risada:

- É hoje que eu forro o poncho!

 

Só que o meu pingo, também, esbanjava bom estado:

irriquieto, alevianado, trocava orelha imponente.

Mascando o freio, impaciente, cascava a terra com estalo.

Ansioso, o meu cavalo pedia cancha, sacudindo a crina

e a cola atada lá em cima, bem onde canta o galo!

 

- É uma carreira encardida, diziam ao olhar a parelha.

- Talvez pra correr de orelha, mas nunca pra se dar luz!

Mesmo assim eu me propus ali, na última hora,

a apostar minhas esporas contra as do índio maleva.

Ele disse: - As minha tu não leva! E as tua, despôs boto fora!

 

Nisso o Juiz de Partida atravessou o maneador;

Fiscalizou cavalo, corredor, e a bandeira levantou.

Um breve silêncio abafou as vozes do povaréu;

uns retiraram o chapéu, fazendo o sinal da cruz.

Depois, como um raio de luz, viram estourar o tendéu!

 

O chão tremeu na largada. Os corcéis, num grande salto,

arrancaram para o alto e se espicharam pelos trilhos.

Na minha frente só o brilho da água, na raia, empoçada.

E a cancha reta, molhada, fazia ouvir-se o bailado

das patas do meu gateado na ruidosa galopada!

 

Do tiro de quatro quadras, três já estavam pra trás.

E ali, peleando no más, pata-a-pata, casco-a-casco,

os fletes rasgavam o espaço que nem um tufão de vento.

Mais rápidos que o pensamento não corriam, mas voavam

de tão velozes, e bufavam, quando chamados nos tentos!

 

Menos de quadra faltava, de repente aconteceu:

se veio por cima do meu o azulego, atropelando;

o gateado foi destrilhando meio pra o lado do povo.

Senti que era “mau jogo”, pendi o corpo pra frente

e mostrei pr’aquele vivente que eu tava vivo de novo!

 

Havia chegado o momento de decidir a parada.

Dei só uma cutucada por baixo e o pingo arfou;

deu resposta e alinhou, se abrindo na disparada.

Co’as pupilas dilatadas foi vendo perto o lugar

que deveria cruzar: era o Laço de Chegada!

 

E assim estava a disputa se definindo por fim.

Por sorte era pra mim, mas tenteava o outro cavalo;

num esforço desesperado mostrava ser o animal

de fibra descomunal. Só que honrando a boa linhagem

o meu, com um pescoço de vantagem, cruzou a marca final.

 

Com tiros e gritos de viva meu pingo foi festejado

e por todos aclamado o grande campeão do lugar.

Mas antes de eu desmontar, tive ali uma outra conquista:

uma linda morena na pista me perguntou, alcançando uma rosa:

- De onde és? Respondi à mimosa: - Dos pagos da Santana da Boa Vista!

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  Autor: José Itajaú Oleques Teixeira
Poesia enviada Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Carreira encardida é aquela em que o resultado é muito difícil de ser previsto, em decorrência da igualdade dos parelheiros.

 
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