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Marca do Pago, de
João Pantaleão Gonçalves
e Pedro Neves

 

04/03/2008 14:30:59
GUITARRA EMUDECIDA
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Jurema Chaves

 

Como dói ver a guitarra emudecida.        

A poeira adormeceu bordões e primas,

E em mim uma dor, que não se cala.

Pendurado na parede aquele pala...

Que testemunhou nosso primeiro beijo.

 

Mas faz muito tempo... que está sem vida,

Esquecido... de seu dono permanece...

Assim como eu, vive calado....

Rasgando a madrugada numa prece...

 

Gostaria de sabe por que te fostes num repente,

Viver ausente, do teu céu de campos largos,

Deixando amargos beijos, nos meus mates,

Nos arremates de cada entardecer!

 

A um silêncio, que grita em horas mortas,

Que até teu cusco fica dando voltas,

Como pressentindo passos, retornando...

 

Nem a cambona enfumaçada ensaia um canto,

Jogada sobre as cinzas que ficaram,

Das chamas que um dia incendiaram

Nossos olhos de paixão e encantamento.

 

E hoje, quando ouço a voz do vento

Fazendo gemer as casuarinas...

Volto no tempo, e encontro uma menina

Sorriso em festa, e no olhar a imensidão;

Flor no cabelo, num vestir de chita,

E vinha te esperar junto ao portão...

 

Querendo, sem poder, voltar no tempo,

E a desatar, tento por tento,

Desse querer bem maior, além de si.

Mas uma voz  pequenina a traz de volta...

Seca o pranto que em rebuços se consome;

Colocou no filho o mesmo nome,

Do amor indelével que repousa

Nos pergaminhos da alma,

Pois não ousa... revelar....

O quanto fere o punhal dessa saudade.

Cinco anos... uma eternidade

Pra quem soube amar, além do adeus!

 

Sim, um piá, um retrato vivo de ti,

Que sequer imaginas que ele existe;

E quando me pergunta com seus olhos tristes:

- Mamãe, quando o papai volta pra casa?...

Meu coração, a queimar em brasas,

Sem saber o que dizer ao filho amado!

Que acalentou no peito solitário...

Calando insônias, num olhar cansado...

Pedindo abrigo para a solidão,

Embalando no ventre o que ficou

Do mais lindo sonho, já vivido...

Num canto de ninar enternecido,

Mãos maternais, buscam consolo,

A embalar no colo, um anjo adormecido!

 

O que dizer, que resposta dar,

Se nem mesmo ela sabe onde andará

Seu peão... seu coração, seu guitarreiro.

Abraça o filho escondendo a dor...

Numa mentira piedosa... por amor...

Responde: ele logo chegará.

 

Quando partiu sem dizer nada,

Emalou o poncho e se foi pra o povo,

Certamente pra viver um sonho novo...

Nem deu-me tempo pra revelar

Se foi aos trancos, sem pra trás olhar.

 

Foi sem saber que aqui deixava

Mais que um amor, além de nós...

Que na espera prolongada...

O tempo arrasta esporas...

Como custa cada hora... cada dia....

Cada anoitecer, uma agonia;

Noutro amanhecer, um fio de espera

Lutando para não virar tapera

O rancho que abrigou um sonho a dois!

 

Peleando contra as intempéries,

Vendo o filho crescer, e tomar gosto

Pelas coisas que foram de seu pai.

Quem sabe até a guitarra, emudecida,

Volte a cantar trazendo vida,

E ouvirei em nosso filho a tua voz...

 

Talvez uma tropilha de saudade

Te reponte de volta pra o teu mundo,

Entendendo que aqui é teu lugar!

Que aqui tens dois amores te esperando,

Quatro braços, tão vazios dos teus abraços.

Quantos espaços vazios sem teu olhar;

Dois sorrisos sem sorrisos pra sorrir,

Guardando mil abraços pra te dar!

 

Quando te fostes, nosso filho deu-me forças

Pra lutar e ensinar o que aprendi.

Mesmo tão só, longe de ti...

Nosso filho aprendeu a amar a terra,

Onde nossos sonhos floresceram...

E tu fostes, sem saber que aqui deixavas

Um coração a pulsar, nova esperança.

Se voltares, o melhor de mim ainda te espera

Nesse filho que é a razão dos dias meus.

Sorvo mates  lavados... prantos... gastos,

Pois parte de mim ficou sem vida,

Na mortalha de uma lágrima escondida;

Em um beijo que soprei, sobre os teus rastros!

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  Autor: Jurema Chaves
Poesia enviada Por: Jurema Chaves - São Leopoldo / RS
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11/03/2008 20:58:51 Paola - Rosário do Sul / RS - Brasil
Linda essa poesia, como todas da Jurema!!!
Sítio: http://lapatriagaucha.blogspot.com.br
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