Usuário:
 
  Senha:
 
 

Marcello Caminha:
Venâncio Acolhe o Rio Grande, Música-tema do Acendimento da Chama Crioula 2012, letra de Libório Wilges e melodia de Marcello Caminha e grupo, com a participação de Décio Portaluppi

 

11/03/2008 15:06:53
CAVALO PICAÇO
............................................................................

Lauro Rodrigues

 

Foi bem ali, nas Figueiras, que sombranceiam as coxilhas, 
sentindo das mancenilhas o cheiro bom do rincão, 
que um grupo de carreteiros, desabotoando os tamoeiros, 
charlando cousas ligeiras, chegaram lenha ao fogão... 
Vinha a tarde descambando e a bugiama gritando
nos brejos do pinheiral. Punha queixumes de dor 
na tarde cheirando a flor de juncos e lamaçal...
 
O velho Deco Madona, picando charque à carona,
falava como ninguém; contando, sem embaraços,
a história de um tal "Picaço", crioulo de Xenxerém.
 
Dizia o velho andarengo, num tom de voz, tão molengo, 
de quem ao falar pensava: - O "Picaço" inda era potro 
fogoso, que qualquer outro diante de si matungueava, 
por esses campos de além... Era crioulo da estância 
da velha Chica Venância, do sítio da "Mamangava", 
dos campos de Xenxerém!
 
Crescera sobre a querência, guapo e sadio como o quê! 
Quando rompia a alvorada, o Picaço, em disparada, 
corcoveava, cabriolava, coiceando na maçaroca 
e relinchando à tropilha que, ao fundo, lá da coxilha, 
pastava pelo rincão, sobre a terra umedecida,
por esse orvalho que é vida às gramas frescas do chão...
 
Sem nunca ter tido o laço, pelo pescoço, o Picaço 
gozava de liberdade. Era o senhor da coxilha! 
Tinha por cama a flexilha e por carona o infinito... 
Dormia sob as estrelas, sonhando, talvez, por vê-las 
no espaço azul tão bonito, esparramadas ao léu; 
que a lua fosse a madrinha da tropa que à noite vinha
pras invernadas do céu ...
 
E assim viveu muitos anos! Mas um dia os desenganos 
chegaram tão sorrateiros, que o velho bagual Picaço 
caiu na armada de um laço, que lhe fizeram os tropeiros!
 
Quando sentiu-se golpeado, pela ilhapa dominado 
à cincha vil de um matungo, corcoveou, deu manotaços... 
Vieram, depois, mais laços cinchados por mais pilungos, 
que soltos não lhe alcançavam. Enfim: bufando de xucro, 
pensando, talvez, no lucro de se deixar dominar, 
foi se chegando à mangueira, d'onde a peonada faceira 
mateava a lhe contemplar... Pois quando viram quebrado 
o seu corincho afamado de puava já madurão, 
discutiram às gargalhadas, em frases e patacoadas, 
as lides da domação!
 
Foi, então, que começaram, ao velho pingo altaneiro, 
as dores da nova vida! Numa manhã de janeiro, 
toda coberta de luz, um tal de Quininho Cruz, 
quebrando o chapéu à testa, num alvoroço de festa, 
foi se chegando pra encilha, enquanto o velho Picaço 
olhava longe a coxilha, onde tremia o mormaço, 
pensando, talvez, consigo, n'algum corcovo cabreiro, 
quando chegou-se um campeiro que lhe passou o pé-de-amigo, 
enquanto as loncas caíam, de uma a uma, no lombo 
arcado que nem porongo, que dá em cerca de arame!
 
"Como o gaúcho é infame!" - Pensava, talvez, o potro! 
E nisso chegou mais outro indiote mal apessoado,
com queixo de china velha, embora a cara barbada 
dissesse que ele era homem!
 
"A mágoa que me consome, - dizia ele altaneiro! -
é como velho campeiro: fazer somente a orelha 
desse Picaço atrevido! Quem dera pudesse eu, 
erguendo o mango comprido, correr-lhe as minhas rosetas 
desde a virilha à paleta, desde a paleta ao focinho...".
 
E nisso veio um padrinho. E sem demora, no mais, 
o tal de Quininho Cruz; aos gritos do capataz, 
alçou a perna, seguro no Santo Antônio de pratas. 
E já o potro bufando, relinchando, corcoveando,
tentou esconder o quengo no meio das duas patas... 
Mas qual o quê! O Quininho deu-lhe um laçaço ao focinho 
e lá se foram peleando num entrevero de cascos, 
de gritos e de dichotes!
 
E sempre, sempre aos pinotes, se esconderam na coxilha, 
aonde a vista não alcança e o céu se junta com a serra... 
Depois... A velha esperança do potro caiu por terra!
O Quininho era que nem grampo de campo bem alambrado! 
Depois que estava esganchado nem rodada lhe tirava, 
se não quisesse sair...
 
Era um gaúcho tão forte que nunca domou a Morte,
porque a Morte não se encilha... 
Mesmo assim ainda acredito, que se a engrenasse um pouquito, 
a Morte deixava a Vida, vadeando pelas coxilhas pra se abrigar na resteva 
de um caponete qualquer ...
 
A Morte é guexa! É mulher que tem respeito da gente, 
quando se topa de frente com um índio de garrão duro ...
 
A Morte é coisa simplória! Pra mim é o fim de uma história!
É sesteada no futuro!... Mas, isso não vai ao causo!
 
Vamos voltar ao Picaço que, no primeiro laçaço,
já se aplastou pra o Quininho! Voltou de queixo quebrado, 
sovaco, todo cortado, mostrando a carne e o toucinho...
 
Ficou manso para a encilha! Bom de boca e de virilha, 
ligeiro que nem preá... Atendia a qualquer upa! 
Dava lugar na garupa... Sabia até cabrestear!... 
E um dia, numas carreiras, lá na cancha das Figueiras, 
fez reboliço outra vez, quando correu, por chalaça, 
com um puro-sangue de raça, da fina cria de inglês!
 
No partidor já se viu que era carreira ganhada!
 
Olhando a cancha pelada, mascando o freio, escarceando,
nervosamente, aguardava pelo sinal da largada!
 
Um tiro estourou na tarde! E sob os gritos de alarde 
da gauchada a jogar, já se vieram na cancha, 
num rufo forte de patas, se entreverando parelhos, 
numa toada de relhos, linda de ver como o quê!
 
No cruzar a quadra-e-meia já era a brecha tão grande,
que um laço não lhe alcançava; e o velho Quininho Cruz, 
de satisfeito gritava, dobrando o jogo na luz...
 
Foi carreira de petiço com cavalo parelheiro...
 
No fim do tiro o Picaço, crioulo aqui da querência, 
matungo de pêlo duro, tinha dobrado o estrangeiro: 
cavalo só de aparência, famoso porque era puro ...
 
Mudou-lhe a vida, esse dia! Teve trato, estrebaria, 
compositor cuidadoso; ficou de pêlo lustroso, 
adelgaçado e leviano como pandorga de pano 
ao sopro da ventania ...
 
Ganhou carreira a la farta!
 
Das duas quadras à quarta, topava qualquer parada! 
Dava luz! Dobrava peso! Ganhava no partidor! 
Não respeitava largada...
 
Mas veio um dia o destino, tropeiro mui teatino,
modificar-lhe a vivência: foi quando ecoou na serra 
um grito forte de guerra, que reboou na querência...
 
De cada canto dos pampas, como um rodeio de guampas, 
se ergueram pontas de lanças, festivas como esperanças 
e agudas como a consciência...
 
Tropel de cascos no chão! Toques de alarme no ar! 
Mil palas soltos ao vento... Chapéus quebrados à testa, 
num reboliço de festa, tornavam os veteranos 
das epopéias passadas a reviver arrancadas, 
que nos cobriam de glórias... Lá estavam Curuzú,
Curupaití, Humaitá, pedindo entradas na História!
 
Veio Osório; Porto Alegre, a recrutar a indiada 
por toda e extensão do pago...
 
Houve um silêncio no campo!
 
E os noivos deixando as noivas. acenavam nas coxilhas... 
Os velhos rasgavam pranto no coração de suas filhas;
e as mães trancavam soluços, como a brisa nas flexilhas, 
à hora em que o sol descai... Mas, todos, sem um receio, 
mostravam, cheios de anseio, os campos do Paraguai!...
 
Quem soubesse tirar couro, manejar a boleadeira, 
tivesse pulso de homem e alma bem brasileira, 
que não levasse lembranças, deixasse aqui seus amores!...
 
Quem quer brigar que se esqueça das próprias mágoas que tem!...
 
E o velho Quininho Cruz, valente como ninguém,
vendo que os outros partiam, tratou de partir, também! 
Tocou as garras ao lombo do seu garboso Picaço, 
e, sem um beijo, um abraço, um adeus, uma saudade, 
largou-se, cheio de fé, direito a Tujucuté, 
peleando por liberdade...
 
Brigamos juntos - me lembro! - no dia três de novembro 
do ano sessenta e sete... Eu era ainda um guri, 
mas, juntos, em Tuiuti, cruzamos ferro e fiorete ...
 
Também, lhes digo: - caramba! - se brasileiro eu nasci, 
mais brasileiro voltei, porque quem viu Tuiuti, 
Itororó, Curupaiti, Serro Corá, Monte Caseros, 
voltou da guerra mais homem, voltou bem mais brasileiro!
 
Foi ali! Foi nesse dia, em meio da gritaria dos homens 
trançando espadas, que eu vi e guardo na memória
a melhor história da História de todas as arrancadas...
 
Havia cinzas no ar e corpos soltos ao chão; 
clarins tocando avançar, num estranho turbilhão 
de mãos crispadas de dor, em entrechoques fatais; 
quando uma bala, certeira, ferindo a nossa Bandeira, 
matou o baio encerado que Porto Alegre montava, 
nessas plagas infernais...
 
O Conde era guapo e rijo que nem golpe de cutijo, 
em cerne de grapiapunha! Mas de a pé, não tinha jeito 
de comandar peito-a-peito aquele lote de bravos, 
enfurecidos na luta... Mesmo assim, já se dispunha, 
numa coragem impoluta, a morrer livre e senhor,
do que viver sendo escravo...
 
Foi quando o Quininho Cruz, mais ágil que a luz da luz,
mais destorcido que um laço, boleou a perna, altaneiro, 
e ao Conde entregou, ligeiro, o velho pingo Picaço!
 
A peleia cresceu de ardor!
 
Brigava o Conde montado!... Mas o Quininho, a seu lado, 
lhe acompanhava na glória ... Parece que o seu cavalo 
sentia em tudo o regalo de quem escreve uma história...
 
Naquele rodeio rubro, que se parava com a morte; 
naquela estranha epopéia, do forte enfrentando o forte, 
só se salvou para a vida quem na vida teve sorte ...
 
Ficou o campo coalhado de corpos amortalhados 
pela tristeza dos vivos... E em meio daquela glória, 
ferido por um lançaço, dormia o velho Picaço, 
como um herói sem história...
 
Ao lado, rubro de sangue, desfalecido e exangue,
jazia o Quininho Cruz, de adaga desembainhada, 
com a lâmina bem colorada, reverberando na luz...
Mais adiante, a poucos passos, da carniça do Picaço 
e do corpo do gaúcho, um paraguaio dormia, 
mostrando ao sol desse dia todas as dobras do bucho...
 
Fora ele quem lanceara o sangrador do Picaço, 
quando o Conde comandara a luta de braço-a-braço!
 
Fora infeliz, todavia, na sua selvageria,
na sua sede de vingança! Nem bem lanceara o Picaço, 
o Quininho, num trompaço, quebrou-lhe a haste da lança.
 
Um grito horrendo de dor, de desespero, de amor, 
nasceu da boca dos qüeras, que se golpeavam incessantes... 
E com os sóis rutilantes, as adagas - duas feras! -
duas terríveis panteras! - se cruzavam retinindo, 
num ronco surdo de golpes...
 
Mas, pra vencer o Quininho, precisava ser bem homem; 
não era um guacho de fome que lhe ia abarbarar!
 
De repente! - companheiros! - Três talhos fundos, ligeiros, 
racharam com o Paraguai, que, sem um grito, um suspiro, 
morreu sem queimar um tiro, morreu sem soltar um ai!
 
Tombaram juntos no campo!
 
(Dois patriotas caídos,,cumprindo o mesmo destino,
sonhando com a mesma causa...).
 
Tiveram todos sua história!
 
E a nossa Pátria, em memória, fez estátuas, que são glórias, 
para aqueles que morreram; eternizou para sempre,
em bronze, o civismo ardente dos que lutaram e venceram!
 
Mas esqueceu - que desgraça! - de levantar numa praça 
um monumento de ouro, por onde a alma da raça 
prestasse um culto de graça para o cavalo crioulo!
Porque quem viu Tuiuti, Itororó, Curupaiti,
Serro Corá, Monte Caseros, merece um lugar na História! -; 
Merece um bronze em memória, na alma dos brasileiros... 
............................................................................
  Autor: Lauro Rodrigues
Poesia enviada Por: Maria da Graça Rodrigues - Porto Alegre / RS
  Observações: Maria da Graça Rodrigues é filha do poeta Lauro Rodrigues.

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
15/08/2009 20:45:03 Bombacha Larga - Brasília / DF - Brasil
Prezado Artur. O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita e o comentário postado neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Em resposta, informamos-te que a referida poesia, enviada pela filha do autor, Lauro Rodrigues, foi publicada neste sítio conforme o arquivo encaminhado por aquela prezada colaboradora. Com as Saudações Tradicionalistas segue o nosso quebra-costelas cinchado a esse prezado Vivente!
Sítio: http://www.bombachalarga.org
15/08/2009 12:26:20 Artur Pereira dos Santos - Porto Alegre / RS - Brasil
Sempre me emociono ao lembrar versos desta poesia. Decorei alguns há mais de quarenta anos atrás. Gostaria de saber porque não são publicados os versos iniciais e que também enceravam a poesia. "Faz um tempão, não me lembro se foi outubro ou novembro. Só sei que havia luar..."
Sítio: *****
Untitled Document