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Os Farrapos:
Passo do Bugio

 

27/03/2008 10:13:04
MEU RUMO
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Jurema chaves

 

São marcas, fragmentos de amor,
Estas cicatrizes no flanco do meu peito;
O bate casco solitário do meu pingo,
Na estrada sem fim desta saudade,
Levando na garupa peçuelos cheios de lembranças,
Onde o sonho misturou-se à realidade,
Buscando a tapera tão sonhada,
Que dentro de mim continua, lá,
Numa toalha verde de coxilha,
Onde o sol se espeta nas flechilhas
E a primavera vem bordar matizes.

Sim, hoje é tapera;
Ontem, foi morada,
Um rancho simples onde as estrelas
Brincavam a noite inteira;
E a lua branca, tão faceira,
Se debruçava entre o arvoredo,
A descobrir segredos;
E o minuano, soprando nas quinchas do galpão,
Se juntava ao bordoneio da guitarra,
Nas charlas galponeiras,
Que pra mim foi oração;
O ritual do mate amargo, como um gesto de carinho,
A dizer: sejas bem-vindo,
Meu irmão!

Minha tapera,
Onde vivi parte melhor da minha vida,
Meu santuário de paz;
A cacimba de água pura, onde me debruçava
Pra beber um pedaço do céu,
Na concha das mãos.

E aquele pé de angico, que cresceu comigo,
A ofertar-me a sombra como abrigo
Nos meus brinquedos de piá.
O tempo passou. Eu cresci, e parti.
Somente tu continuas lá:
Braços abertos, como a vigiar
Minha tapera, na eterna espera
De quem não vai voltar.

No flete das lembranças me vejo criança,
Nas margens do rio.
Mas restam somente as minhas pegadas
E um imenso vazio;
Os sons ecoam, acordam silêncios
Pedaços de risos
Que o tempo engoliu.

Na velha porteira,
Onde a poeira adormeceu silente;
Na sanga, os aguapés sem nenhuma flor,
Numa estiagem de ausência,
Adormecia nos braços da querência
Embriagada pela imensidão;
Cenário sublime dos meus sonhos,
Numa moldura de lembranças
Que guardei em mim.

Por onde andará meu gado de osso,
Minha boleadeira de sabugo,
Que naquele faz-de-conta era meu mundo;
Um petiço manso, laço de embira,
De piazito, no meu tempo
De infância livre e feliz;
Nem vi que a vida passava
E hoje, me dando conta
Do mundo de faz-de-conta,
Há uma distância sem fim
Pra o mundo em que vivo agora.
Mas não quero que vá embora
Esse piá que mora em mim.

Eu quero seguir sonhando
Com minha velha morada;
Nesse retovo de afagos,
Que minha alma acalenta,
Eu seguirei camperiando
No lombo dessa saudade,
Pois tive a felicidade
De nascer neste rincão.

No poncho dos meus anseios
Vivo parando rodeios;
Embretando a solidão,
Galopo potros de ventos.
Na névoa do pensamento
Vejo meu velho galpão;
E na vertente dos olhos
Rebrotam pingos de mágoas,
Que sofrenando, calados,
Buscando em vão o passado
Que não voltará, jamais.

Ouço a voz do meu passado
No armorial das lembranças;
Imagens, reminiscências,
Que tão vivas, se refletem
No espelho da alma, no olhar,
Mostrando a dura verdade
Em mil poemas de saudade,
Que o dia-a-dia escreveu;
Batendo marca na estrada,
Sigo beijando o sereno
Nos lábios da madrugada.
O mundo não mudou nada,
Quem mudou mesmo foi eu!

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  Autor: Jurema Chaves
Poesia enviada Por: Jurema Chaves - São Leopoldo / RS
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