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Os Bertussi:
O Tropeiro

 

09/04/2008 19:42:10
ÚLTIMA RINHA
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Calcei meu frango prateado,

Que foi pinto em meu terreiro,

Pra soltá no rinhedeiro,

Onde estava um colorado;

Havia povo amontoado,

De pé, sentado e de joelho.

O jogo, muito parelho,

De mansito começou,

Até que um pardo gritou:

Cem mil no galo vermelho!

 

Era um galo da Argentina,

Diz que campeão de torneio;

O meu era um galo feio,

Mas de pua muito fina.

Porém, a voz repentina,

Do alarife jogador,

Trouxe, como que um tremor

De surpresa e de impaciência,

Que fez tremer a assistência,

Ao derredor do tambor!

 

Foi como chuva de zinco,

E a coisa já pegou fogo,

Começando a sair jogo

De até vinte mil por cinco.

Mas havia tal afinco,

Que um dos lados se encolheu;

Ouve até quem se benzeu,

Num gesto de carpeteiro,

Fazendo cruz no dinheiro,

Jogando a favor do meu !

 

E me deixaram de lado,

Solito e sem parceria.

E eu joguei o que podia

Contra o galo colorado;

Depois, soltei o prateado,

Que, ciscando na serragem,

Bateu asas, de coragem,

E cantou com imponência,

Como quem diz à assistência:

Não dou nem peço vantagem!

 

Já na primeira topada,

Antes de trançarem ferro,

O meu frango deu um berro,

Numa voz esganiçada;

Tinha uma vista arrancada,

E o grito fora inconsciente,

Mesmo que um grito de gente,

Que ele soltou sem sentir,

Mas sem menção de fugir:

Oigalê, bicho valente!

 

Senti um bárbaro arrepio,

Que me correu pela espinha.

Mas, porém, seguiu a rinha;

E o meu frango não fugiu,

Cambaleou, mas não caiu,

E se aprumou de vereda,

Enquanto que pele seda

Do pescoço levantado,

Descia o sangue encarnado,

Num brilho de labareda!

 

E voltando com furor,

Respondeu aço com aço;

Puaço atrás de puaço,

Que estremecia o tambor.

Era mesmo peliador

O tal galo colorado;

Já nem falo do prateado,

Que bem de pé, como um potro,

Veio pra cima do outro

Mesmo que um tigre baleado!

 

E, amigos, naquele instante

Me amaldiçoei em segredo

Das vezes que tive medo

De algo insignificante,

Ao ver ali, impressionante,

Aquele galo ferido,

No próprio sangue esvaído,

Torto, quase cego até,

Disposto a morrer de pé,

Pra não se dar por vencido!

 

Afogado na sangüeira,

Abaixo de tempo feio,

Vi que não ia a careio

Assim, daquela maneira.

A cabeça uma peneira,

Do pescoço já nem falo,

Eu sem poder ajudá-lo,

Ele peleando sozinho;

E eu repetindo baixinho:

- Vamos?! Coragem meu galo!

 

E o vermelho ia ponteando,

Mais brabo do que uma cobra,

Que perna tinha de sobra

E raça também sobrando.

E foi aí, senão quando,

Que o frango do meu terreiro,

Num tiro de desespero,

Mais certo do que um balaço,

O desnucou de um puaço

No meio do rinhedeiro!

 

E ali está o galo prateado,

Cercado pelas galinhas.

Eu até deixei de rinhas;

Talvez, por penalizado,

Ou, talvez, espicaçado,

Que a morte não perdoa,

Por que se a vida é tão boa,

É um bandidismo da gente

Fazer um bicho valente

Matar ou morrer à toa!

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  Autor: Jayme Caetano Braun
Poesia enviada Por: Antonio Dias Severo - Capanema / PR
  Observações: Mensagem do prezado colaborador Antonio dias Severo: Jayme Caetano Braun: símbolo, mito, amor, poesia, homem que dizia: "EU SOU GAÚCHO E ME BASTA!"; SIMPLESMENTE UM ÍDOLO! Muito obrigado, Jayme!

 
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11/09/2012 23:07:34 luiz lewinski - caçador / SC - Brasil
Lindo de mais os poemas de Jayme Caetano Braum. Incomparáveis!
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20/03/2012 16:51:14 jerri - curitiba / PR - Brasil
Muito bom! Lendo pareço estar ali, naquela briga muito envolvente. Parabéns!
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11/02/2009 05:37:55 Paulo vitor da silva - Três de Maio / RS - Brasil
Essa poesia é de arrepiar, realmente... mas para quem ler este comentário, e tiver esta poesia declamada e qualquer modo, por favor, me mande: paulovitorpm@gmail.com Muito obrigado!!!
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02/11/2008 00:40:07 aristides manoel vila verde - sao jose / SC - Brasil
Esse poema me arrepia, cada vez que o leio, pois fui criado num rinhadeiro e hoje vejo tudo acabar assim, desse jeito tão grosseiro. Mas eles podem acabar com as rinhas, mas não podem tirar de nossos corações e de nossas mentes a lembrança e o gosto pela rinha de galo.
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