Usuário:
 
  Senha:
 
 

Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

09/04/2008 23:56:53
PRIMEIRA VIAGEM DE AVIÃO
............................................................................

Realmente é divertido
apreciar a narração
da volta do índio grosso,
rumo ao saudoso rincão;
de Porto Alegre a Alegrete
o índio voltou de avião.

Voltou de avião só porque,
não estando acostumado,
se pôs a comer sorvete,
meta sorvete gelado;
quando o índio se deu conta,
estava destemperado.

E se vendo mal do intestino
quis ir logo pro Alegrete,
onde acharia remédio
em qualquer erva do brete;
o trem corcoveia muito,
seria pior pro ginete.

O grosso pensou consigo,
mostrando-se corajudo:
“De fato, o avião me dá medo,
perigo até ficar mudo;
mas não me falta coragem
pra viajar com medo e tudo!”.

Lembrou-se de um promessa,
que fizera quando moço:
“Viajar de avião? Deus me livre,
é bruto virar destroço;
um avião pra me matar
só que me caia no pescoço!”.

Depois, pensando na Varig,
topou sem medo o repuxo;
a Varig é rio-grandense,
avião seguro e de luxo.
Disse o grosso: “pelo menos
morro num avião gaúcho!”.

E lá se foi ao aeroporto,
já decidido a voar;
viu um Douglas DC-3,
prontito pra decolar.
E o índio pensou: “lá puxa!
três é o número do azar!”

E o taura, supersticioso,
aumentou a tremedeira,
ao se dar conta que era
dia treze e sexta-feira;
e não podia adiar a viagem,
por causa da corredeira.

Eram doze e trinta em ponto,
o avião pousa no rumo;
os passageiros subiram.
E o grosso, picando fumo,
disse: “é desta vez que me vou
como capão pra consumo!”.

Sentou bem teso no avião,
tendo um companheiro ao lado;
todos prenderam o cinto.
E ele disse, desconfiado:
“Eu, se morro, morro solto;
não pélo viajar maneado!”.

Quando as hélices roncaram,
disse ao capitão, ligeiro:
“Me revise os parafusos,
lhe pago cem mil cruzeiros,
pois se escapa algum no ar,
adeus tia Chica, parceiro!”.

Quando a nave acelerou
na pista, batendo casco,
o quera, para evitar
de sair fazendo fiasco,
empinou um trago de canha,
que esvaziou todo o frasco.

Passando a mão nos bigodes
foi dizendo, com coragem:
“Agora, sim, seu chofer,
movimente essa engrenagem;
só peru morre na véspera,
meta espora, que bobagem!”.

“Abra a porteira, no más,
e pode dar a largada;
dê-lhe rédeas a esse guaxo;
se ele afucinhar na estrada,
São Pedro nos abre a porta;
não se assustemo, moçada!”.

Depois, disse ao companheiro:
“Mas que engraçado, seu moço,
quando o avião sobe pra riba,
me faz baixar o pescoço;
quando cai num barrigaço,
me ergue o intestino grosso!”.

De repente, o avião sofreu
turbulência, solavanco;
ia pior do que correr
um avestruz de tamanco.
E o índio apertou o chapéu,
em vez de agarrar-se ao banco.

E já bateu a cabeça
num outro banco fronteiro;
ergueu-se logo, explicando:
“Não foi nada, companheiro;
fiz um galo bem na testa,
mas não perdi meu sombreiro!”.

Botou um “crioulo” na boca,
pra acender na mesma hora;
a aeromoça pediu:
- por favor, não fume agora!
Ele retrucou: “entonces,
eu me vou fumar lá fora!”.

Aproveitou a ocasião
e perguntou de boa-fé:
“Sia moça, eu me sinto mal,
por causa de um picolé;
onde é que tem um cantinho?
Você me entende, não é?”.

Quando saiu do “escritório”,
ocuparam o “gabinete”;
o gaúcho disse, alegre:
“Já me aliviei do sorvete!
Estou vendo que a cachaça
pra corredeira é um porrete!”.

Chegou no banco e deu volta,
dizendo, em voz apressada:
“Ô seu moço, aí de dentro,
abra essa porta fechada;
que eu me esqueci da guaiaca
e esta bombacha é folgada!”.

Voltando para a poltrona,
na bolsa meteu a mão;
e encontrou um rico saco
de papel, com inscrição,
que a aeromoça trouxera,
pra enjôo e indisposição.

O índio gostou do saco,
porque era bem reforçado;
e já foi metendo a erva,
que vinha num embrulhado
de papel muito fraquinho
e quase todo rasgado.

A seguir, pegou no sono.
Quando acordou da soneira
não achou mais o pacote:
“E a minha erva Palmeira?
Vai ver que a moça pôs fora,
pensando que era sujeira!”.

O companheiro do lado
convidou o gauchaço
a olhar pela janela;
replicou, sem embaraço:
“Deus me livre essa fundura,
chega a me esfriar o espinhaço!”.

Vinha a moça oferecendo,
gratuitamente, otimista,
livros, revistas, jornais,
Aos passageiros da lista;
quando perguntou ao grosso:
“- Cavalheiro, uma revista?”.

O índio se ergueu de um salto,
como quem vai retrucar;
abriu depressa o casaco
e levantou os braços pro ar:
“Mas claro que dou revista,
pois pode me revistar...”.

Assim viajava o índio grosso,
bem teso e gajo no avião;
quando o índio se deu conta,
a nave pousou no chão,
no aeroporto do Alegrete:
o seu glorioso rincão.

Os passageiros desceram.
E o índio desceu, na lei;
largou um suspiro, dizendo:
“É a minha terra, cheguei!
Mas até parece um sonho!
Oigale-tê, me escapei!”.

Era, de fato, índio grosso,
como caldo de torresmo.
Às vezes, tomando mate,
eu fico pensando a esmo:
- Mas quem seria esse grosso?
Será que não era eu mesmo?

............................................................................
  Autor: Padre Paulo Aripe, o Padre Potrilho
Poesia enviada Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações:

Poesia publicada a pedido de Élio, gaúcho de Selbach-RS, e residente em Verê-PR.


 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
25/06/2015 19:46:22 Lawrence Campos - São Borja / RS - Brasil
Essa poesia é muito famosa por aqui, mas a melhor poesia é a primeira viagem de trem do indio grosso, e essa nao tem aqui. Caso achem essa poesia me avisem, abraço.
Sítio: *****
14/09/2012 21:23:30 RICARDO - RIO DE JANEIRO / RJ - Brasil
NÃO GOSTEI DESSA POESIA
Sítio: *****
31/01/2012 11:46:35 marcioli perez pereira - porto Alegre / RS - Brasil
Buenas, tchê! Que maravilha a Internet! Esta poesia, numa feita, fui a uma tertúlia no CTG Rincão da Frontera, em Jaguarão, vi e ouvi um índio dizer este verso do padre. Espetacular. Dei muita rizada, isto lá pelos meados dos anos 80. Gracias, amigo. Sorte e saúde.
Sítio: *****
11/02/2011 20:25:26 joão nunes paroli - cascavel / PR - Brasil
Gostei da volta do índio grosso. Eu sou um baita fã do Pe. P. Aripe, que já declamava há mais de 35 anos a Viagem de Trem. Ele é nota 10!
Sítio: *****
19/07/2008 20:49:21 Miguel Medeiros Bardim Junior - CRISTAL / RS - Brasil
A poesia é a forma mais linda da literatura. Eu gostaria de receber as poesias dos amigos para estar divulgando na Rádio Cristalense 104.9, na qual sou apresentador. Se estiverem a fim, entrem em contato através do telefone (051)93029369. Obrigado!
Sítio: *****
Untitled Document