Usuário:
 
  Senha:
 
 

Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

10/04/2008 22:55:47
O TEMPO A AS HORAS
............................................................................

Jurema chaves

 

Que saudade dos tempos lá nos campos... 

Banhos na cachoeira, sem nem um talvez;

Tudo era tranqüilidade.

O correr do dia marcado apenas pelo sol,

Que resplandecia sobre os montes,

Jogando beijos quentes sobre as flores,

Nas manhãs da minha infância.

 

Ah! Que tempo aquele!

Sem relógio pra marcar as horas

E mandar no homem.

O relógio era o céu, ponteiros de sol

Marcando o passo;

Quando engarupava nas coxilhas pra partir,

Já se sabia

Que a noite está perto...

Essas horas de ocaso, melancólica beleza

Na paisagem bucólica que no olhar entardecia;

E logo despertava luzidia a lua branca, a cobrir tudo de prata.

A noite embalava seus fantasmas...

 

Quando a aurora surgia, branda e linda,

E gotas de sereno sobre as flores reluziam

Lágrimas que a noite derramou,

Na chegada repentina da aurora, não querendo ir embora,

Então, chorou!

Como havia liberdade nesse tempo!

Os horários se faziam por si só;

Tudo era o tempo dividido, refletido

Na primavera que bordava coloridos,

Matizando perfumes que a brisa bocejava

Nas varandas.

Nos verões de pescarias, tardes calmas,

A alma transcendia nessa paz.

Vendo os raios de sol varar os rios,

De repente a chuva... um arrepio,

E o vento que fazia bailar as pitangueiras,

Despetalando seus vestidos de florais.

 

O outono coloria o céu da boca,

Com sabores de mil frutos nos quintais.

Que doce tempo, nesses lindos madrigais.

Inverno chegava sem alardes,

Soprando minuanos pelas tardes,

Assobiando nas quinchas do galpão.

Os ponchos, então, ganhavam vida, movimentos,

Abraçando o gaúcho, pra o alento.

As botas pisavam mais fundo, nesses tempos.

Os campos se cobriam de brancura;

E as lonjuras silenciavam sempre mais...

 

Meus tempos sem relógios tinham mais tempo;

Andava devagar, sorvendo a vida.

Nas várzeas da alma, mais espaço

Pra o abraço, para o mate, à moda antiga.

Era um ritual, quase uma prece.

Sobre os braseiros, uma cambona chiadeira.

Uma guitarra sempre alerta, um payador;

Uma cordeona, um gaúcho tocador.

Havia sempre um tempo pras cantigas.

 

Éramos mais felizes, me parece...

Havia preces pra saudar a Ave-Maria.

E hoje em dia o relógio não dá tempo

Pra um momento de embalar o fim do dia.

 

Esses ponteiros, que a girar, roubam do homem

Um tempo de olhar para o poente;

E ver o sol, no horizonte a desmaiar.

No corre-corre vai buscando, sem saber

Que está perdendo lindos tempos de prazer,

Pelo prazer de correr atrás do nada.

No corre-corre do relógio me confundo:

Mudou o mundo, ou foi o homem que mudou?

Não vejo mais os amigos parceriando.

Onde foi que o tempo me deixou?

 

Nos tempos sem o tic-tac comandando,

Desatento desses tempos tão sem tempos,

Havia uma magia em movimento,

Que a voz do vento eternizou dentro de mim.

E olhando, assim, me perdi em outro tempo,

Que a liberdade era mais que uma ilusão.

A passarada,  manhãs primaveris,

As flores perfumando os pomares;

Nas borboletas cirandando com seus pares,

No beijar dos colibris sobre os jasmins;

Nos recitais das gargantas emplumadas,

Nas alvoradas, um sem fim de musicais;

O sol demarcando mais um dia!

Sem atropelos, tento-a-tento se trançando,

O sol e a chuva a chegar num tempo certo,

Para os trigais, os milhos e as maçãs.

Sempre, sempre havia Deus por perto

Em cada janela que se abria nas manhãs.

 

O relógio, pra meu pai, seguia o sol,

Previa o tempo no horizonte acobreado;

Acreditava, olhos presos no infinito,

E em silêncio o meu pai rezava,

Agradecendo a Deus por mais um dia.

Hoje me paro, olhar cerrado,

Fico revivendo o que ficou guardado;

Chego a sentir as folhas secas, sob os pés descalços,

Uma saudade que já não tem abraços,

Ouvindo passos que silenciaram.

 

Sinto uma lágrima desprender-se dos meus olhos,

Caindo disfarçada em minha mão;

E um relógio a bater, marcando as horas,

Pra me avisar que há muito foi-se embora

O menino, com seu flete de taquara,

Galopando a imensidão da pampa linda.

Balança a rede, fecho os olhos e vou de volta,

Por estradas tortas, vou bater à porta

De um tempo que voltará jamais.

Na colcha verde que embalou meus sonhos,

Tão machucada que mudou de cor!

A ganância aprisionou a liberdade,

E ninguém tem tempo pra plantar amor!

 

Quero voltar e não posso;

Buscar o meu canto-chão,

Meu rio de água espelhada,

Pois lá tudo, tudo tinha uma razão.

A natureza comandava, absoluta;

O homem semeava a terra bruta

E a recompensa vinha sempre

Encher-lhe as mãos!

 

Assim, a recordar, choro saudade

Da liberdade onde reinava a paz;

Meu olhar parou dentro do nada,

Mirando a estrada que deixei pra trás!

............................................................................
  Autor: Jurema Chaves
Poesia enviada Por: Jurema Chaves - São Leopoldo / RS
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
22/08/2009 19:56:08 cidinei mello - porto alegre / RS - Brasil
desculpa jurema au comentar eu troquei o teu nome, mas o teu poema é mesmo muito lindo, mais uma vez desculpa abraço
Sítio: *****
22/08/2009 19:52:13 cidinei mello - porto alegre / RS - Brasil
ola denize, parabens pelo poema, achei muito lindo e até chorei au le-lo abraço
Sítio: *****
26/05/2008 20:17:50 Denize Machado - Canoas / RS - Brasil
Pela primeira vez leio um poema seu. Gostei de todos, mas esse é, na minha opinião, o CARRO CHEFE. Gostaria de saber por que os gaúchos fazem tão belos poemas, mas todos longos. Sou intérprete, declamadora, mas, infelizmente, poemas tão longos fica muito difícil de decorar. Não sou gaúcha, mas moro aqui há quase vinte anos. AMO POESIAS. Parabéns, Jurema. Você é uma privilegiada por Deus. São lindos os seus poemas. Se tiver um menorzinho, por favor envie para meu email, que tentarei decorá-lo, pois quando vou ao Paraná todos me pedem para declamar um poema gaúcho. Sem mais. Fique com Deus e sorte sempre, SÓ COISA BOA! UM ABRAÇO! Denize Machado
Sítio: *****
Untitled Document