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Jayme Caetano Braun:
Sangue Farrapo

 

13/04/2008 23:05:24
UM CERTO CAPATAZ DE TROPA
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Nem despontava, no horizonte, a aurora,
já se ouvia o alvoroço da peonada, 
sob a luz do candeeiro e do bom fogo de chão,
tomando o seu chimarrão, apresilhando as esporas.
E na mangueira, à espera, já estava a tropa encerrada.
Organizando a partida, o capataz, já pilchado;
lenço branco no pescoço, guaiaca, chapéu tapeado;
poncho emalado a capricho; pingo mui bem encilhado.
- "O Belmiro conhece bem os atalhos e pousadas;
sabe onde tem boa aguada e boa pastagem também...
Por isso, vai de vaqueano.
Todos vocês são campeiros, eu sei disso muito bem,
mas para ir de ponteiro, tem que ser o Quintiliano!
 
E quando, de vermelho, já pintava-se o horizonte,
o capataz e a peonada davam início à jornada,
levando o gado em reponte.
Cutucando as esporas, no seu lobuno campeiro, 
Quintiliano assume a ponta, todo orgulhoso e faceiro!
Dias e dias de marcha, tinham, por diante, os viventes.
Mas o tempo, inclemente, não tem pena dos tropeiros;
pois logo, logo o Pampeiro, numa fúria sem igual,
guasqueava forte e sem dó!
Porém, não havia um só sem o seu poncho "Ideal".
 
E a marcha continuava monótona, lenta, triste...
Mas, pra tropeiro não existe tempo ruim que o detenha.
O silêncio só quebrava com os gritos de "Venha...Venha"...
Ora indo por atalhos; ora em estradas e pontes.
Mas, vale a pena que se conte:
a monotonia acabava, quando o capataz entoava
uma antiga canção. A voz bonita e afinada,
se espalhando na amplidão, dava ânimo à peonada,
pra enfrentar o frio; a geada... até ao final da missão.
 
Depois de entregar o gado, já voltando para o Pago;
estrada afora, a trote largo, tinha saudades do rancho,
da prenda e da filharada. Mas pra enfrentar tanta estrada
e a fadiga espantar, inventava brincadeiras;
tinha "causos" pra contar. 
De quando em quando,
explodia a costumeira gargalhada,
que era marca registrada na sua maneira de ser.
Assim, voltando pra casa, sua mente cria asas
e voa em reminiscências!
E ao chegar à querência, nem dá para descrever
a alegria da piazada, ao vê-lo descer a estrada
e depois bolear a perna na entrada do galpão.
 
O mate novo, cevado pela prenda,
com o carinho que o acompanhou em preces,
lhe reconforta e aquece o rancho do coração!
Estes versos que componho, tentam mostrar um pouquinho
do perfil deste gaúcho,
de alma tão nobre e sem luxo,
que passou por este mundo, tropeando reses e sonhos.
Era amigo e companheiro; do dever tinha consciência;
e no peito, um coração do tamanho da querência!
Jamais negava acolhida ao sem pão ou sem abrigo;
e aos parentes e amigos, com que prazer recebia!
Para ele, a amizade era o maior bem da vida; 
e a família reunida era tudo o que importava.
 
Nas canções que cantava
ou nos causos que contava, como só ele sabia,
demonstrava a alegria de estar rodeado dos seus.
Faz tempo... ele foi embora, morar lá perto de Deus,
mas sua risada sonora ainda atravessa
a imensidade e me traz de volta a infância,
ecoando na lembrança, no silêncio da saudade!
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  Autor: Zulma T. de Bem
Poesia enviada Por: Zulma T. de Bem - Novo Hamburgo / RS
  Observações: "Este poema eu fiz em homenagem a meu pai Ernani de Bem e Canto, que hoje deve andar tropeando pelos Pagos do Infinito". Zulma T. de Bem.

 
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