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Os Farrapos:
Passo do Bugio

 

11/07/2009 23:12:33
EIS O HOMEM
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Foto de Nei Eugenio Maldaner

Modificada pelo BL

 

Brotei do ventre da Pampa,

que é Pátria na minha Terra.

Sou resumo de uma guerra,

que ainda tem importância. 

E, diante de tal circunstância,

segui os clarins farroupilhas;

e devorando coxilhas

me transformei em distância.

 

Sou do tipo que numa estrada

só existe quando está só;

sou muito de barro e pó;

sou tapera, fui morada;

sou a velha cruz falquejada,

num cerne de curunilha;

sou raiz, sol farroupilha

renascendo estas manhãs;

sou o grito dos tahãs,

coejando sobre as coxilhas.

 

Caminho como quem anda

na direção de si mesmo.

E de tanto andar a esmo

fui de uma a outra banda.

E se a inspiração me comanda,

da trilha logo me afasto;

e até sementes de pasto

replanto pelas vermelhas

estradas velhas, parelhas,

ao repisar no meu rastro.

 

Sou a alma cheia e tão longa,

como os caminhos que voltam

substituindo os espinhos;

e a perda de alguns carinhos,

velhos e antigos afrontes,

surgiram muitos, aos montes,

nesta minha vida aragana,

destas andanças veteranas

de ir descampando horizontes.

 

Sou a briga de touros

no gineceu do rodeio;

improtério em tombo feio,

quando o índio cai de estouro.

Sou o ruído que o couro faz,

ao roçar no capim;

sou o rin-tim-tim da espora,

em aço templado;

e trago o silêncio, guardado,

do pago dentro de mim.

 

Fazendo vez de oratório,

sou cacimba destampada,

de boca aberta, calada,

como a espera do ofertório;

como vigia em velório,

que tem um jeito que é tão seu;

tem muito de terra... e céu,

que a gente sente, ajoelhando,

de mãos postas levantando

o pago inteiro para Deus.

 

Sou o sono do cusco amigo,

dormindo sobre o borralho;

sou vozerio do trabalho;

na guerra ou na paz - sou perigo.

Sou lápide de jazigo,

perdido nalgum potreiro;

sou manha de caborteiro;

sou voz rouca de acordeona,

cantando triste e chorona

um canto-chão brasileiro.

 

Sou a graxa da picanha

na bexiga enfumaçada;

sou sebo de rinhonada,

me garantindo a façanha.

Sou voz de campanha,

que nos lançantes se some;

sou boi-ta-tá - lobisomem,

sou a santa ignorância;

sou o índio sem infância,

que sem querer ficou homem.

 

Sou Sepé Tiarajú,

Rio Uruguai, rio-mar azul;

sou o Cruzeiro do Sul,

a luz-guia do índio cru.

Sou galpão, charla, sou chirú

de magalhanicas viagens;

andejei por mil paisagens,

sem jamais sofrer sogaço;

cresci juntando pedaços

de brasileiras coragens.

 

Sou, enfim, o sabiá que canta,

alegre, embora sozinho.

Sou gemido do moinho,

num tom triste que encanta.

Sou pó que se levanta;

sou raiz, sou sangue, sou verso.

Sou maior que a História grega;

eu sou Gaúcho, e me chega

pra ser feliz no Universo!

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  Autor: Marco Aurélio Campos
Poesia enviada Por: Rodrigo M. Teixeira - Brasília / DF
  Observações: Poesia publicada em 30.11.2005 e republicada em 11.07.2009, em atenção ao pedido do prezado visitante Ângelo Martins Scarrone.

 
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