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Os Filhos do Rio Grande:
Cheiro do Rio Grande,
de Darci Lopes

 

11/08/2008 10:53:30
O ÚLTIMO PEALO
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Na velha Estância Gaúcha, do pago sul-rio-grandense,
um gaúcho santanense fechava um outro palheiro;
entre ansioso e faceiro - e quase sem perceber -,
com o ato de se benzer rezou ao Velho Patrão:
à chinoca pediu proteção, e ao filho que ia nascer.

E já no primeiro berro o capataz exclamou:
- É o meu guri que chegou! Há muito que eu o espero!
E veio do jeito que eu quero: forte e são-de-lombo,
com tutano, peito-de-pombo; e no braço puxou o pai,
pode-se ver que ele vai com o laço dar muito tombo!

Depois, num berço-caixote, um nenezito crescia
e com arte já amanuncia finos tentos de couro;
laça, por instinto, um touro da tropa de osso do pai.
Ao montar a cavalo não cai. De dia vive a sorrir;
e à noite, para dormir, ouvir estórias ele vai.

Bem cedo o piá já demonstra grande destreza com o laço;
firma e larga o braço, soltando armadas no ar,
que certeiras iam cerrar no moirão do corredor.
Era o destino-senhor revelando a todo o pago:
no pealo surgia um Mago, no laço um Mestre-Doutor!

Com orgulho o velho viu o seu piazito crescer,
dia-a-dia a merecer o seu campeiro elogio.
Assim o guri prosseguiu construindo a sua sanha
de ser em toda a Campanha um laçador de respeito
e pealador de todo o jeito: é a fama que o acompanha.

Vieram as Festas Campeiras, Torneios de Tiro de Laço,
aonde o moço, fachudaço, perante platéias inteiras,
e lindas prendas faceiras, levantava troféus de campeão;
por todo aquele rincão, nos Rodeios Crioulos do Pago,
do pealo foi sempre o Mago, do laço o Mestre, o Doutor!

Assim foi por toda a vida de gaúcho sul-brasileiro.
A morte do pai campeiro o faz honrar a herança,
que desde quando criança recebeu do quera idôneo
que não tolerava o errôneo na regional tradição,
na cultura que o seu chão lhe dera por patrimônio.

O dono da Estância Gaúcha não abriu mão do peão;
para o buenacho patrão ele é o novo capataz:
mais vaqueano, mais capaz, como o pai ficou no labor.
E no rancho não teve uma flor, pois a sua vida era andar
pelo pago a laçar e pealar, no seu destino-senhor!

E quando a velhice chegou, avisando ao peão sulista
que a existência é finita nesta Tropeada Terrena,
encontrou um índio torena, que mesmo sem ter no braço
a antiga força do aço, de tirador fazia uma farra,
dando pealos de cucharra com firmes trancos de laço!

Um Centro de Tradições do seu Rio Grande do Sul,
uma tarde de céu azul de um domingo com vento:
testemunhas do advento. E muitos haverão de lembrá-lo
e para sempre guardá-lo na memória do rincão:
o último dia de um peão e o seu último pealo!

Correu na querência a notícia da morte do pealador,
cumprindo o destino-senhor na arte da lida com o laço,
de gaúcho campeiraço: Mago, Mestre e Doutor.
Tironeado pela dor que o velho peito sentiu,
pealada a rês, morto caiu: o laço firme, no tirador!

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  Autor: José Itajaú Oleques Teixeira
Poesia enviada Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações:

Poesia publicada em atendimento ao pedido do Vivente Altemir, de Jaguarão-RS, formulado a este sítio, via correio eletrônico, no dia 06.08.2008...


 
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08/06/2011 15:29:18 Dhiéro Stringuini da Silva - Cachoeira do Sul / RS - Brasil
Mas que poesia gaúcha! Quem me dera ter a honra de morrer como o pealador: "num ultimo pealo"´. JOSÉ ITAJAÚ, tá de parabéns pela poesia mais linda que eu já vi. Obrigado.
Sítio: *****
02/12/2010 19:26:36 andersson - uruguaiana / RS - Brasil
o jiru
Sítio: *****
21/05/2010 22:41:18 Odolir Riva - Cascavel / PR - Brasil
Obrigado pela letra, Gabriel. Há muito tempo que eu procurava esta poesia; é muito linda. Abraços.
Sítio: *****
17/05/2010 01:21:23 Gabriel Rodrigues - Viamão / RS - Brasil
O ULTIMO PEALO Vaterloo Camejo Na Estância das Três Marias a tarde vinha morrendo O sol vinha se escondendo sobre sangrenta mortalha A noite lúgubre imagem sobre soberba paisagem estendia o negro pala Qual fantasma impertinente num dos moirões da porteira Cismarenta e agoureira uma coruja velava E no fundo do galpão a cuia de chimarrão de mão em mão se jogava Enquanto a peonada alegre charlava e se divertia Contando os causos do dia nas paradas de rodeio O Tio Nicássio encolhido ficava como esquecido Riscando o chão com o dedo Já fazia um par de anos que na estância era agregado Sempre quieto mui fechado charlando com sua memória E nessa noite o posteiro lhe pediu meio matreiro Conta Nicássio a tua historia O velho ergueu-se do banco e foi a porta do galpão E viu o primeiro clarão de lua que apareceu Voltou , tornou a se sentar Dizendo: - Vou lhes contar como aquilo aconteceu No tempo que eu era moço que tempo bom sim senhor Era o maior pealador que já pisara na estância Tanto a pé quanto a cavalo botava qualquer pealo Sem medir bicho e distância Tinha um pingo macanudo, boas pilchas , bom apero Na guaiaca algum dinheiro Tudo estava de colher Até que numa gerreada senti a primeira chifrada de olhos De uma mulher O amor guri moleque se me atravessou pela vida E foi carreira perdida a lolargo me venceu Pois me trouxe uma china que era estrela vespertina que Do céu se desprendeu O namoro foi curtito em seguida nos casamos E o nosso rancho enfeitamos como um mundo de carinho Quando um dia encabulada me disse está de chegada O nosso primeiro filinho Tudo foi festa , alegria E como era domingo botei o freio no pingo Para ir ao armazém e ela veio mimosa dizendo-me carinhosa Eu te acompanho meu bem Trouxe o zaino do piquete destinado a minha amada E fomos descendo a canhada ao tranquito bem juntinhos Enquanto da mataria vinha aquela sinfonia do canto dos passarinhos Costeávamos um repecho quando uma lebre pulou O velho zaino espantou e a campo a fora endireita A china quis sujeita-lo mas não é qualquer cavalo Que assustado se sujeita Vendo que ia em direção de horrível despenhadeiro Desatei mais que ligeiro o meu laço velho e amigo E naquela disparada lancei aos ventos a armada Sentindo perto o perigo Quando o laço se fechou nas duas patas dianteiras Bateu o zaino as cadeiras junto ao despenhadeiro Mas a china pobrezinha ficou no chão tão quietinha Que eu tive medo posteiro Fui chegando devagar pra junto do meu amor Ainda sinto aquela dor que me cobre como um véu Quando vi minha querida, pálida, muda , sem vida Entregue ao papai do céu Junto com ela se foi a ultima esperança Morreu também a criança que ela levava, juntinho E eu por vontade de Jesus vou carregando esta cruz Tão magoado e tão sozinho E ao cair sobre os meus ombros os arreios do fracasso Dei de presente o meu laço não subi mais á cavalo Mas eu não posso esquecer que ela tinha que morrer No meu último pealo.
Sítio: http://poesiariograndense.blogspot.com
17/05/2010 01:19:55 Gabriel Rodrigues - Viamão / RS - Brasil
Tenho a poesia o ultimo pealo "na estância das Três Marias, a tarde ía morrendo...". No meu blog vai la e olha
Sítio: http://poesiariograndense.blogspot.com
08/05/2010 22:03:58 odolir riva - cascavel / PR - Brasil
Gostaria que alguém publicasse a letra da poesia o último pealo, cujo começo è "na estância das Três Marias, a tarde ía morrendo...".
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19/01/2010 11:20:24 João Vasco Bandeira Dutra Jr. - Rio do Sul / SC - Brasil
Rapaz, tbém sou de Jaguarão, mas moro em Rio do Sul; tbém estou atrás de uma poesia, que o nome é o Último Pealo, e não é essa que mandaste; ela fala do melhor pealador q jamais pisou na estância. Se achares me manda. Um abraço!
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20/12/2008 21:52:33 willian de quevedo - pelotas / RS - Brasil
Olá! Eu declamo pelo meu CTG Estância da Barra e digo a vocês que com essa poesia eu já fiz jurado chorar. Parabéns por essa poesia tao linda!!!
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