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Jayme Caetano Braun:
Sangue Farrapo

 

25/08/2008 11:32:49
TROVA DE BAITAS
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VOU LHES CONTAR UM CASO
QUE COMIGO ACONTECEU:
JÁ ERA DE TARDEZINHA
E LOGO ANOITECEU;
PROCUREI ABRIGO
EMBAIXO DE UMA FIGUEIRA,
PARA DA NOITE ME PROTEGER.
COMO EU IRIA SABER
DO QUE IA SE PASSAR?
E TRANQUILO, COM MEUS PENSAMENTOS,
JÁ QUE ESTAVA, ALI, SOZINHO;
E A NOITE CORRIA ALTA,
ME APARECE UM NEGRINHO
COM UMA CARA DE PERALTA,
ESQUISITO, DE UMA PERNA SÓ,
E FUMANDO UM CACHIMBO ESTRANHO.
LOGO FOI ME AVISANDO
QUE NO LUGAR ONDE EU ESTAVA
A NOITE NUNCA PARAVA,
ERA MAIS MOVIMENTADO
DO QUE ESTAÇÃO DE TREM.
E QUE ALI NINGUÉM,
QUE VIVO ESTIVESSE,
PARAVA UM SÓ INSTANTE,
POIS. ENTÃO. DAÍ POR DIANTE,
LHES CONTO AGORA O QUE OUVE.
DEPOIS, QUE O NEGRO FOI EMBORA.
 
NÃO DEI MUITA BOLA,
POIS NINGUÉM ME ENROLA.
ACHEI QUE ERA SACANAGEM
E ACENDI O MEU PAIEIRO.
FOI QUANDO PERCEBI
UM VULTO EM MINHA DIREÇÃO,
TINHA UMA GAITA NUM BRAÇO
E NO OUTRO UM VIOLÃO.
SENTOU-SE, ALI, DO MEU LADINHO,
FOI PEGANDO O MEU FUMO
E FAZENDO UM ENROLADINHO.
E DEPOIS DE UMA BELA TRAGADA,
SOLTANDO UMA BAFORADA,
SEM SEQUER ME OLHAR ME INFORMOU
QUE ALI ONDE ESTÁVAMOS
HÁ MUITO FORA MARCADA
UMA DESTAS DERRADEIRAS TROVAS;
E EU PROVA VIVA SERIA
DE TODA AQUELA CANTORIA.
 
BUENO! QUE LUGAR PRA SE CANTAR,
MEIO DESERTO, PENSEI.
DECERTO OUTRA BRINCADEIRA.
NISTO, LÁ ADIANTE, NA PORTEIRA
COMEÇOU A CHEGAR GENTE;
VINHAM DE TODOS OS LADOS,
A SE ASSENTAR EM NOSSA FRENTE.
LOGO PERCEBI UM DETALHE,
QUE ME DEIXOU TODO CABREIRO,
SEUS ANDARES PARECIAM DE MANCOS,
E TODOS VESTIDOS DE BRANCO.
E PRA NÃO SAIR EM DISPARADA,
IMAGINEI QUE FOSSE COMBINADA
A INDUMENTARIA USADA
PARA AQUELA REUNIÃO.
AÍ PRESTEI MAIS ATENÇÃO
EM OUTRO DETALHE MUITO ESQUISITO:
SEUS ROSTOS NÃO TINHAM FEIÇÕES,
E MESMO ASSIM ERAM MUITO BONITOS.
 
DE REPENTE OUVI UM  GRITO,
QUE PARECIA QUE VINHA LÁ DO INFINITO.
ERA O PRIMEIRO TROVADOR CHEGANDO;
PEGOU O VIOLÃO E LOGO FOI AFINANDO.
E O OUTRO CHEGOU, NO MESMO INSTANTE,
TODO RADIANTE, AQUELE BAITA;
E SE GRUDOU NA TAL DA GAITA
E DEDILHOU UMA SINFONIA.
QUE BONITA MELODIA
E QUE QÜERA ORIGINAL!
E O OUTRO BAGUAL,
O TAL DO VIOLÃO,
ME SOLTA UM MI MAIOR DE GAVETÃO,
QUE FIQUEI IMPRESSIONADO.
QUE PRESENTE ABENÇOADO
AQUELA BELA OCASIÃO!
 
AÍ SE APRONTARAM
COM SEUS INSTRUMENTOS,
UM DE CADA LADO.
QUANDO O DA VIOLA TOCOU,
O SEU PEITO ENTOOU
O SEGUINTE VERSO, IMPROVISADO:
“ESTA TROVA EU ESPEREI
CALMAMENTE, MEU GURI.
POR ISSO ESTOU AQUI,
PARA VER DO QUE ÉS FEITO.
MAS SEI QUE TU, SUJEITO,
NÃO VAI DAR NEM PRA SAÍDA.
E QUERO VER A TUA IDA
MAS CEDO DO QUE TU PENSAS.
E NEM A RECOMPENSA
TERÁS DAQUI PARA A FRENTE,
E VÊ SE VAIS LOGO EMBORA,
Ó CRIATURA IMPERTINENTE”!
 
O DA GAITA NEM SE INCOMODOU
E COMEÇOU SEU REPERTÓRIO:
“CRIATURA IMPERTINENTE
ÉS TU, Ô RATO PEQUENINO.
TROVA É COISA DE GENTE GRANDE,
MAS ANTES QUE TU ANDE
EU VOU TE DAR UM BOM CONSELHO:
POR CAUSA DO TEU TAMANHO,
QUE É DE UM FEDELHO,
ÉS METIDO A CANTADOR,
PASSOU A VIDA MENTINDO
E NO RÁDIO SEMPRE GRUNINDO,
ENROLANDO O EXPECTADOR,
VOLTE PRO TEU LADO DO CÉU,
É O MELHOR QUE TU ME FAZ;
AQUI EU É QUE SOU O ÁS
E SÍNDICO DESTE BORDEL”!
 
BAH! PELO INÍCIO DA TROVA
EU FIQUEI ESTARRECIDO.
EU JÁ TINHA CONHECIDO
DOIS BACANAS IGUAL A ELES:
UM ERA O DO CORAÇÃO DE LUTO
E O OUTRO AQUELE DOS PASSARINHOS,
E EM TODOS OS MEUS CAMINHOS
SEMPRE ESCUTEI ELES COM ATENÇÃO;
PRA MIM SEMPRE FORAM CAMPEÕES,
OS DOIS TINHAM O MESMO BRILHO,
MAS CADA UM TINHA O SEU ESTILO
MARCADO POR SEUS VOSEIRÕES.
 
E AÍ, MEUS AMIGOS,
SEGUIRAM TROVANDO
POR TODA A MADRUGADA.
PARECIAM DOIS ESPADACHINS,
NUM DUELO DE VIDA E MORTE.
E PARA A MINHA SORTE,
EU FUI TESTEMUNHA DESTE FATO;
E LÁ, NO MEIO DO MATO,
QUEM DIRIA, EU TESTEMUNHARIA
ESTE IMENSO ESPETÁCULO.
 
MAS COMO JÁ ESTAVA AMANHECENDO,
RESOLVERAM TERMINAR OUTRA NOITE.
E ANTES QUE O SOL OS AÇOITE,
SE ABRAÇARAM SORRIDENTES.
E JUNTO COM OS OUTROS PRESENTES,
SE FORAM NÃO SEI PARA ONDE,
SÓ SEI QUE PEGARAM UM BONDE.
E A IMPRESSÃO QUE ME DEU,
POIS JÁ ESTAVA MEIO DORMINDO,
É QUE O BONDE IA SUBINDO,
EM DIREÇÃO AO CÉU ESTRELADO.
MEIO COMPLICADA AQUELA SAÍDA;
RESOLVI DAR UMA DORMIDA
E ME VIREI PRO OUTRO LADO.
 
DEPOIS QUE ACORDEI,
PARECIA ATÉ QUE EU TINHA SONHADO.
FOI QUANDO EU ACHEI UM PAPEL,
COM TUDO DA TROVA ANOTAD0.
E NELE TINHA UM RECADO 
ME PEDINDO PRA DIVULGAR
A TROVA DAQUELE LUGAR,
MEIO ESTRANHA, POR SINAL.
MAS, DEPOIS, QUANDO EU TIVER TEMPO,
OU A QUALQUER MOMENTO,
ESVREVO PARA VOCÊS
ESTE MEIO FINAL,
PORQUE FICARAM DE VOLTAR
PARA A TROVA TERMINAR,
OS DOIS FULANOS DE TAL.
 
E, AGORA, POR ONDE EU ANDE
SEMPRE ESCOLHO UMA FIGUEIRA,
PARA PODER ME ABRIGAR.
E AINDA ESPERO ELES VOLTAR,
MAS VAI DEPENDER DA SORTE;
E NAS NOITES DE CÉU ESTRELADO
EU FICO CUIDANDO PRO NORTE,
POIS FOI O RUMO QUE TOMARAM
DEPOIS DAQUELA APRESENTAÇÃO.
TENHO CERTEZA QUE VOLTARÃO
E ISTO ME ANIMA A MENTE.
E QUANDO NOTO UMA ESTRELA CADENTE
ME SALTA O CORAÇÃO,
POIS AQUELAS DUAS FERAS VIERAM
NESTE TIPO DE CONDUÇÃO!
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  Autor: Gilmar Espíndola
Poesia enviada Por: Gilmar Espíndola - Viamão / RS
  Observações: O que dizer deste poema? Acho que é uma homenagem póstuma a dois ídolos gaúchos, da nossa cultura regional sul-rio-grandense. O autor.

 
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