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Os Farrapos:
Passo do Bugio

 

25/08/2008 12:23:12
LEMBRETE DE LIBERDADE
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RECEBI UM PRESENTE ESTRANHO
DAS MÃOS DE UM DESCONHECIDO,
ESTAVA DENTRO DE UM SACO
E NOTEI QUE ERA UM TECIDO.
EDUCADAMENTE ELE ME RECOMENDA,
PEDIU PRA GUARDAR COM PRESTEZA
AQUELA ESTRANHA ENCOMENDA.
 
NUM SUSSURRO OFEGANTE,
LENTAMENTE ELE ME FALA
QUE O SEU TEMPO TERMINOU,
COMO EM TODO SER VIVENTE,
E DAQUI PARA A FRENTE
EU ERA O ESCOLHIDO,
PARA GUARDAR O BRASÃO,
QUE FORA A RAZÃO
DE MUITOS TEREM MORRIDO.
 
MEIO DESCONFIADO DA SORTE,
COM O VELHO MALTRAPILHO,
PEDI ESCLARECIMENTO
DE EU TER SIDO O ESCOLHIDO.
PRONTAMENTE ELE ME FALOU
QUE FUI OUTRORA UM GUAPO,
PELOS TEMPOS DOS FARRAPOS;
E NOS MISTÉRIOS DA CRIAÇÃO
HAVIA VOLTADO PARA A VIDA,
E COMO FUI UM SOLDADO FIEL
AQUI EMBAIXO DO CÉU,
ESTA ERA A MINHA NOVA LIDA.
 
NÃO DAVA PARA ACREDITAR
NAQUELA ESTRANHA FIGURA,
TINHA UM JEITO DE ASSOMBRAÇÃO,
MAL SAÍDO DA SEPULTURA.
COMO EU TERIA SIDO UM SOLDADO,
DOS ANOS DA MONARQUIA?
JUREI QUE ERA FOLIA
DAQUELE POBRE DIABO.
 
DE REPENTE, NUM GRITO, ME ESPANTA:
“SEU MOÇO ME FAZ O FAVOR”,
DISSE-ME O VELHO DA BARBA BRANCA,
“ME GUARDE BEM ESTE TRAPO,
POR ONDE FORES OU ANDE
É O ORGULHO DOS FARRAPOS,
E SAGRADO PARA O RIO GRANDE.
 
MILHARES DE VIDAS TOMBARAM,
POR ESTE PEDAÇO DE PANO.
POR ISSO TODOS OS ANOS
VIREI DAR UMA OLHADA.
FOSTE NOMEADO GUARDIÃO
E PELA NOBRE FUNÇÃO
SEGUIRÁ NESTA CAMPEREADA.
 
MOSTRE POR AÍ ESTE ESTANDARTE,
QUE AGORA LHE ENTREGO À PARTE,
ESPALHE O SUCEDIDO
PARA AS NOVAS GERAÇÕES;
NÃO MANTENHA ESQUECIDO,
PRESERVANDO NA MEMÓRIA,
ESTE PEDAÇO DA HISTÓRIA
DA SAGA DA NOSSA GENTE,
ESCRITA COM SANGUE DERRAMADO
DE MUITOS GAÚCHOS VALENTES.
 
DE REPENTE O CÉU DEU UM ESTRONDO,
OLHEI PRA CIMA ASSUSTADO,
VINHA EM NOSSA DIREÇÃO
DEZ COLUNAS DE HOMENS ARMADOS;
ESTREMECI E FIQUEI ESTUPEFATO,
POIS NOTEI QUE AQUELES VULTOS
ERAM DE NEGROS, DE BRANCOS, 
DE ÍNDIOS, DE MESTIÇOS E MULATOS.
 
EM SAUDAÇÃO DE CONTINÊNCIA
NÓS FOMOS COMPRIMENTADOS,
TROUXERAM O CAVALO DO VELHO,
MUITÍSSIMO BEM ENCILHADO;
QUE BONITO O ALAZÃO,
COM SEUS ARREIOS PRATEADOS,
O POTRO LAMBEU A MÃO DO VELHO,
NUM GESTO DE SAUDADE,
QUE APRONTOU-SE PARA PARTIR 
AO RUMO DA ETERNIDADE.
 
ANTES DE IR O VELHO ME DISSE:
“ESTAREI NO VENTO MINUANO.
PELO INVERNO DE TODOS OS ANOS
O VENTO LEVA NOSSAS ALMAS,
PARA PATRULHAR O ESTADO”.
FOI, ENTÃO, QUE EU ENTENDI
QUE AS ALMAS DAQUELES GUERREIROS
É QUE TORNAVAM O VENTO MAIS GELADO.
 
DEPOIS QUE O VELHO SE FOI,
TIREI DO SACO O TECIDO.
ERA A BANDEIRA FARROUPILHA,
QUE ME FORA OUTORGADA;
SE VIA NELA MARCAS DE ADAGAS
E MUITOS FUROS DE BALAS.
E NO DOCUMENTO DE PANO
SE ATESTA A VERACIDADE,
POIS O SANGUE NA BANDEIRA
É LEGITIMO E DE VERDADE.
 
SE FOI UM SONHO NÃO SEI,
TALVEZ UMA BRECHA NO TEMPO.
O VELHO SUBIU AO FIRMAMENTO
NA SUA FARDA DE LUXO.
E EU FIQUEI COM O DOCUMENTO,
PARA MOSTRAR AOS GAÚCHOS.
AGORA FICO IMAGINANDO
QUE A SUA HONROSA MISSÃO
FINALMENTE ESTAVA COMPRIDA.
E MESMO ASSIM PROMETE QUE VOLTA,
PARA VER SE A REVOLTA
NÃO FORA AQUI ESQUECIDA.
 
GANHEI TAMBÉM UMA LANÇA
DO ÚLTIMO SOLDADO QUE PARTIU;
E NELA TINHA UMA ESCRITA,
ASSIM, GRAVADA COM FOGO:
“AINDA VOLTO DE NOVO,
SE MINHA GENTE ESTIVER AO LÉU,
E PELA LIBERDADE DO RIO GRANDE
NINGUÉM ME SEGURA NO CÉU!
 
AMARREI A BANDEIRA NA LANÇA
E PROCUREI UM MORRO OU UM MONTE,
PARA QUE SE VEJAM NO HORIZONTE
ESTE LEMBRETE DE LIBERDADE.
FOI LÁ NO PASSO DA SAUDADE
QUE FINQUEI A NOSSA BANDEIRA,
BEM NO ALTO A COMPANHEIRA
LÁ TREMULA VITORIOSA.
E QUEM OLHAR DE PERTO A GARBOSA
VAI VER AS SUAS CICATRIZES:
FOI O PREÇO QUE ELA PAGOU
POR ESTE ESTADO DE LIVRES.
 
SALVE O MEU RIO GRANDE DO SUL,
QUERÊNCIA DOS VENTOS GELADOS.
DEIXO, AQUI, REGISTRADO
QUE ESTA MINHA INSPIRAÇÃO
VEIO DE UM ESTRANHO ZUMBIDO,
BEM NO PÉ DO MEU OUVIDO,
TODA ESTA MINHA FALAÇÃO;
PORQUE O PRESENTE DE PANO,
QUE GANHEI DO SEU FULANO,
É UM MISTO DE SONHO E REAL,
PARA QUE NUNCA ESQUEÇAMOS
A GUERRA COM OS CASTELHANOS
E A TIRANIA IMPERIAL!
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  Autor: Gilmar Espíndola
Poesia enviada Por: Gilmar Espíndola - Viamão / RS
  Observações: Sobre esta poesia explico o seguinte: sou vendedor viajante e levei 20 anos para escrever ela; e o interessante é que me vinha a inspiração, eu parava no meio da estrada para escrever os versos, mas somente no ano de 2006 é que tive a oportunidade de terminá-la. E, assim sendo, então pude descançar de algo que me dizia que eu tinha que completar este poema campeiro. O autor.

 
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