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Vilson Schmitt:
Tradicionalismo Moderno

 

26/08/2008 19:03:40
RELATO DE UM GUERREIRO
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TOCARAM-SE OS CLARINS

LÁ NOS CONFINS DO MEU ESTADO.

A GUERRA TINHA COMEÇADO,

ENCARNIÇADA E MUI MALDOSA.

PEDI PARA ROSA, MINHA MULHER:

- ME ACHE O SACO DE ESTOPA,

PONHA NELE ALGUMA ROUPA

E FALE AQUEM LHE CONVIER

QUE FUI DEFENDER O NOSSO CHÃO

DA INVASÃO CASTELHANA;

E POR ESTA ATITUDE TIRANA

TENHO QUE ME REBELAR,

POIS AQUI EM MINHA TERRA

SÓ ENTRA QUEM TEM

LICENÇA PRA ENTRAR.

 

FUI ATÉ O GALPÃO

PEGAR MEUS APETRECHOS;

TIREI DO BAÚ A POEIRA ENCRAVADA,

ERA ALI QUE ESTAVAM GUARDADAS

MINHA ADAGA, MINHA GARRUCHA,

E TAMBÉM A MINHA ESPADA.

PREPAREI O TORNO,

BOTEI FOGO NO FORNO

PARA MOLDAR MAIS UMA LANÇA,

POIS A VELHA ENFERRUJOU

COM O SANGUE DAS ÚLTIMAS MATANÇAS.

OUTRA VEZ VEIO PROVOCAÇÃO.

EU IA TER QUE ENFRENTAR CIDADÃOS

QUE HÁ MUITO EU JÁ CONHECIA,

PELA TRISTE IRONIA

DE INVADIR DE NOVO O MEU RINCÃO.

 

POR UM MOMENTO APENAS

EU SENTI UM CERTO MEDO;

EU IA PARTIR BEM CEDO,

PARA TALVEZ A ÚLTIMA BATALHA.

E LÁ OS FIOS DAS NAVALHAS

ESTAVAM A ME ESPERAR,

MAS EU NUNCA IRIA ME NEGAR

DE PROTEGER MINHAS FRONTEIRAS.

E SE A MINHA MORTE FOSSE LIGEIRA

TAMBÉM SERIA A DO INIMIGO;

E PARA ME ACOMPANHAR PARA O INFERNO

UNS TREZENTOS EU LEVARIA COMIGO

 

ANTES DE SAIR ME PUS

A REZAR UM POUQUINHO,

TENTEI EXPLICAR AO CÉU

A MINHA ATITUDE

E ROGUEI QUE ME AJUDE

A VOLTAR À MINHA QUERÊNCIA;

JÁ QUE GUERRA ERA DEMÊNCIA

DE ALGUNS LOUCOS MALDITOS,

SEMPRE GUIADOS PELA AMBIÇÃO,

PARA VER SEUS IMPÉRIOS MAIORES

ESCRAVIZAVAM OS MENORES

NOS PONDO NAQUELA SITUAÇÃO.

 

SELEI O ROBUSTO,

O FILHO DO TEATINO,

MEU CAVALO DE ESTIMAÇÃO.

DEIXO O TEATINO EM CASA

POR NÃO TER OUTRA OPÇÃO.

FOI UM CAVALO VALENTE,

E SE ESTOU AQUI NOVAMENTE

FOI POR UM FATO OCORRIDO;

SABENDO QUE EU ESTAVA FERIDO

PRUM CANTO ME PUXOU PELOS CABELOS.

E NUMA NOITE LONGA E FRIA

ME ESQUENTOU SOBRE SEUS PÊLOS.

AGORA, PELA VELHICE QUE LHE CHEGOU,

VAI TER QUE FICAR EM CASA;

PRECISO DE UM CAVALO LIGEIRO,

PORQUE O CAMPO DO ENTREVEIRO

NÃO PERDOA QUEM É LERDO.

MUITO OBRIGADO TEATINO,

POR ESTE TEU FILHO QUE HERDO.

 

ME FUI PELA ESTRADA

E CAVALGUEI DEZ DIAS INTEIROS.

E NUMA NOITINHA

ENCONTREI O NEGRO CHICO,

E JUNTO VINHA O ZÉ BENTINHO.

- MUITO BOA NOITE, COMPANHEIRO,

ME CUMPRIMENTARAM, SEMPRE SORRINDO.

DECERTO TAMBÉM ESTAVAM INDO

LÁ PRAS BANDAS DA PELEIA.

AGORA A COISA IA FICAR FEIA,

EU JÁ TINHA VISTO ELES GUERREAR.

E ACREDITEM NO QUE EU VOU FALAR,

ERA PRECISO MUITA CORAGEM

PARA AQUELES DOIS ENFRENTAR.

 

SE ACAMPAMOS NESTA NOITE

E ACENDEMOS A FOGUEIRA;

E PELA NOITE INTEIRA

SE VIA OS CLARÕES,

PELOS TIROS DOS CANHÕES.

NÃO TENHO VERGONHA DE DIZER,

ESTE ERA O JEITO QUE EU QUERIA MORRER,

POIS UM HOMEM DE VERDADE

NÃO FOGE NUNCA DA LUTA,

E AQUELES GRAMPUTAS

DAQUI A POUCO IRIAM VER...

 

TENTEI DORMIR UM POUQUITO,

MAS O NEGRO CHICO NÃO DEIXOU;

ESTAVA SONHANDO E GRITOU:

- CORRAM LÁ, ACUDAM O CAMARADA,

E OUTRAS PALAVRAS BALBUCIOU.

NAQUELE INSTANTE ALI CHEGOU

O ÍNDIO GERÔNCIO E O PORFÍRIO;

AGORA SE COMPLETA O MARTÍRIO

DOS MARVADOS DOS INVASORES.

QUERIA EU GUERREAR CONTRA CEM,

E NÃO CONTRA AQUELES QUATRO SENHORES.

 

NA CHEGADA EM NOSSAS LINHAS

PERCEBEMOS O PIOR,

O INIMIGO ERA MAIOR

NA QUANTIDADE E ARMAMENTO.

E O REFORÇO QUE AINDA VINHA

IA DEMORAR UM CERTO TEMPO.

APRONTAMOS A CAVALARIA

E EMPUNHAMOS A BANDEIRA,

E COM A COLUNA FORMADA

SAÍMOS EM DISPARADA

PELOS CAMPOS VERDEJANTES,

NEM TÃO VERDES COMO ANTES,

PELO SANGUE DERRAMADO.

NESTA HORA EU ME ORGULHEI

DE TER NASCIDO GAÚCHO

E PERTENCER A ESTE ESTADO.

 

 

VOANDO EM MEU CAVALO

NA BATALHA ME APRESENTEI.

NÃO SEI POR QUANTO TEMPO PELEEI

NEM MESMO QUANTOS MATEI,

SÓ SEI QUE OS SENTIDOS  RECOBREI

PELO TOQUE DA RETIRADA.

ERA O INIMIGO A CAMPO FORA.

E NAQUELA HORA

TAMBÉM SE OUVIA OS GRITOS

E AS RISADAS DO CHICO;

GRITAVA: - ONDE ESTÃO INDO?

FIQUEM MAIS UM POUCO!

SERÁ QUE O NEGRO ESTAVA LOUCO?

O POBRE NÃO PODIA ESTAR BEM CERTO,

ZOMBANDO DA MORTE ALI TÃO PERTO.

 

NESTE DIA NÃO VIERAM MAIS NOS ENFRENTAR.

GARANTO, ESTAVAM MEIO PERDIDOS;

TALVEZ NÃO TIVESSEM ENTENDIDO

A CORAGEM DE TÃO POUCA GENTE.

EM BREVE VOLTARIAM, NOVAMENTE.

ENTÃO, RESOLVEMOS ATACAR.

PELA MELHOR DEFESA O ATAQUE;

LEVARAM MAIS ESTE BAQUE,

SEM ESPERAR TANTA BRAVURA,

POIS SE DEPARARAM COM A FÚRIA

DOS CARRASCOS DOS SEUS DESTINOS.

E NO CORTE DO AÇO FRIO,

PRO OUTRO LADO DO RIO

EMPURRAMOS OS CORRENTINOS.

 

OS POBRES SEM NEM UM TINO

PERECIAM MENINOS ASSUSTADOS.

E OS QUE NÃO MORRERAM AFOGADOS,

CHEGARAM DO OUTRO LADO,

UM TANTO QUANTO APAVORADOS.

NÃO VOLTEM MAIS À ESTA TERRA,

PORQUE AQUI SE FAZ GUERRA

POR PURA VOCAÇÃO E PRAZER;

NÃO ENTREM SEM PEDIR LICENÇA

AOS DONOS DESTA QUERÊNCIA,

“POR CA NO VENGAN MAS A VOUVER”!

 

DEPOIS DESTA PASSAGEM,

FOI ASSINADO O TRATADO.

PRO INIMIGO UMA SAÍDA HONROSA,

PARA NÓS APENAS PROSA.

EU VOLTEI PARA A ROSA

E GUARDEI MINHAS FERRAMENTAS.

MAS, DE VEZ ENQUANDO,

O QUE AINDA ME ATORMENTA,

ME ACORDANDO ASSUSTADO,

É O SONHO EM QUE NÃO POSSO MAIS

DEFENDER O NOSSO ESTADO!

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  Autor: Gilmar EspÍndola
Poesia enviada Por: Gilmar EspÍndola - Viamão / RS
  Observações: Uma homenagem a todos os guerreiros anônimos; e que descansem em paz! O autor.

 
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11/09/2008 15:53:51 veroci - SERAFINA CORRÊA / RS - Brasil
SOU NATURAL DE VIAMÃO, MAS MORO EM SEC À 4 ANOS E TAMBÉM ESCREVO POESIAS. GOSTEI MUITO DESTA, QUE ESCREVESTE. PARABÉNS POR ESTA GAUCHESCA POESIA!
Sítio: http://VEROCI/C/VIEIRA@HOTMAIL.COM
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