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Os Mirins:
Respeito ao Gaúcho, de Francisco Castilhos e Albino Manique

 

10/09/2008 09:18:42
CANGA
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Antonio Francisco de Paula

 

Velha canga campesina

Do cerne de guajuvira

Até parece mentira

Que hoje te vejo assim

Suspensa pelos canzis

Lá no alto da porteira

Da fazenda cabeceira

Na querência onde nasci

 

Atirada ao relento

Esbanjando formosura

Balançando nas alturas

Rebenqueada pelo vento

Ouvindo o triste lamento

Na beira do matagal

Da coruja com o urutau

Num dueto agourento

 

Carcomida pelo tempo

Vai repontando eras

Solitária na tapera

À espera do carreteiro

Do cogote dos carreiros

Do Cuitelo e do Brinquinho

Bois da guia bem mansinhos

Que ruminavam no terreiro

 

Por certo também espera

Os bois do coice afamados

O Pachola e o Chitado

E as duas juntas do meio

O Pimpão e o Craveiro

O Pintassilgo e o Letreiro

Que apesar de caborteiros

Nunca fizeram feio

 

Fosse puxando tora

Uma carreta de quitanda

A pipa d'água da sanga

Ou no cabeçalho do arado

Levando um guri montado

Pra venda do corredor

Fazer compras pro vovô

Num trotezito cadenciado

 

Quantas e quantas vezes

Se entreveraste velha canga

Nas coivaras de japecanga

No arado lavrando o chão

Agüentando firme o tirão

Os solavancos nos tocos

Abraçada no pescoço

De uma junta de babão

 

Teus canzis de cambuim

Com caprichos falquejados

Brochas de couro cochado

Tamoeiro traçado a mão

Te atrelando no cambão

Da carreta carregada

Que serpenteava nas estradas

Transportando a produção

 

Não é fácil velha canga

Reviver a tua história

Refazer a trajetória

De um tempo que já se foi

No passo lerdo dos bois

Pros pagos da eternidade

Deixando triste saudade

No peito de um trovador

 

Ficaste assim por destino

Extraviada na distância

Ajoujada na lembrança

Dos poetas e payadores

Na voz xucra dos cantores

Cancioneiros do meu pago

Que te cantam com afago

Em versos lindos de amores

 

Velho jugo campeiro

Traste de mil andanças

Que ficaste por herança

Dos tempos coloniais

Dos nossos ancestrais

Deste Brasil gigante

Que o progresso arrogante

Aboliu pra nunca mais!

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  Autor: Antônio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antônio Francisco de Paula - Brasília / DF
  Observações: Poesia do Livro MEU AVÔ, MEU MESTRE - Poesias Gauchescas, do autor.

 
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