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Berenice Azambuja:
É disso que o velho gosta,
de Berenice Azambuja

 

18/11/2008 10:18:46
OS OLHOS DO NEGRINHO
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Nos tempos que já vão longe,
por culpa do Grão-Senhor,
o mundo era um carneador,
assim, na comparação;
coberto de sangue rubro,
vestido do corpo vivo
do negro, pobre cativo,
nas garras da escravidão.
 
Vinham barcos de além-mar
galopeando pelas águas,
trazendo dores e mágoas
no seu bojo infecto e imundo.
E despejavam nos campos
dos potreiros do Brasil,
que se fez também covil
do maior crime do mundo.
 
Nosso pampa, por desgraça,
foi cúmplice desse crime.
Hoje, no então, se redime
da culpa dessa maldade,
abrindo a todas as raças
todas as porteiras do pago,
que cultiva, com afago,
a mais pura liberdade.
 
Mas foi nesse triste tempo
que nasceu o Benedito.
Um pobre escravo, um negrito,
que morreu ainda na infância.
Nasceu não, veio ao mundo
como um traste sem valor.
Foi crescendo e ficou sendo
o mandalete da estância.
O pobre do Benedito era
pau pra toda obra.
Mais ruim que carne de cobra
era para ele o senhor.
– Benedito, busca água
– Benedito espanta o gado.
– Benedito, desgraçado,
negro ordinário, estupor.
 
E logo o relho cantava,
e o Benedito gemia.
Apanhava e não sabia
por que razão, o coitado.
E ficava ali, parado,
fitando o senhor, sestroso,
os olhos grandes, tremendo,
meio choroso, calado.
– Benedito, fecha os olhos.
Não me olhes desse jeito.
O temor e o respeito
deixavam o senhor aflito.
Pois no fundo desse olhar
havia um triste segredo;
e o senhor já tinha medo
dos olhos do Benedito.
 
- Benedito, fecha os olhos;
fecha os olhos, Benedito!
 
E à noite, quando o negrinho,
depois que a lida findava,
corpo moído, se deitava
no chão duro da senzala.
A lua vinha de manso
furar a palha do teto,
e o menino, com afeto,
ficava rindo a fitá-la.
E abria, ainda, mais os olhos,
como a beber o luar,
que nunca o ouviu reclamar,
por ele o mirar assim.
E feliz por um momento,
o menino tão pequeno
fechava os olhos, sereno,
e adormecia por fim.
 
– Benedito fecha os olhos;
desvia, negro, esse olhar.
Pois hoje tu vais fechar
para sempre, ô desgraçado!
E o monstro humano bateu
no menino sem cessar,
até o pobre tombar
aos seus pés ensangüentado.
E o olhar do Benedito
mais e mais se escancarava;
e, louco, o senhor gritava:
- Fecha os olhos Benedito.
E o relho vinha de novo
lanhar o corpo flaquito.
- Benedito fecha os olhos;
fecha os olhos, Benedito!
 
Até que um breve silêncio
susteve o braço assassino,
pois a alma do menino,
escravo da negra sorte,
fugiu, por fim, já cansada
de tanto o corpo apanhar,
e, feliz, foi se entregar
aos braços livres da morte.
 
E o olhar do Benedito nem
assim não se fechou.
Morto, embora, ali ficou
mais e mais escancarado.
E o senhor, ao ver aquilo,
perdeu a luz da consciência,
e se arrojou na demência
a gritar desesperado:
– Benedito fecha os olhos;
fecha os olhos, Benedito!
 
E o olhar do Benedito
ficou grudado no céu.
Uma noite, por entre o véu
da grandeza do infinito,
um par de estrelas surgiu,
a brilhar, fitando o mundo.
Tinha um mirar tão profundo,
como os olhos do negrito.
E, hoje - que ainda existe
na consciência universal
a eterna nódoa do mal
daquele crime maldito -,
quanto homem ainda há,
que ao ver o par
de estrelas brilhar,
não tem ganas de gritar:
– Fecha os olhos, Benedito!
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  Autor: Dimas Costa
Poesia enviada Por: Renato Werckmeister - São Leopoldo / RS
  Observações: Favor conferir a letra desta poesia, apropriada e relevante para a comemoração do Dia da Consciência Negra. Renato Werckmeister

 
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19/04/2010 08:13:23 Gervásio lourenço - Porto Lucena / RS - Brasil
Esta poesia, realmente, é muito boa.
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