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Os Filhos do Rio Grande:
Laçador

 

03/12/2008 12:45:10
CARRETEANDO A VIDA
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Adenir Paz da Silva

 

Hoje um sabiá laranjeira pousou na quincha da minha carreta.

Enquanto o sabiá me olhava, a carreta da minha vida seguia tranquila.

Notei que nessa estrada não havia buracos e nem lombadas.

O seu fim se perdia longe, atrás de uma coxilha, de um  horizonte bordado de azul.

Existia uma paz envolvente no caminho que eu seguia.

Então o sabiá começou a cantar.

Uma cantiga linda, macanuda, vinda do fundo de sua alma.

Os bois que puxavam a carreta: Felicidade, Esperança, Fé, Amor... ficaram de orelha em pé.

Pareceu-me que eles acompanhavam a canção com seu andar.

A carreta parecia que flutuava.

Foi nesse tranco que também comecei a cantar; como é lindo a gente cantar!

Parece que nos revigoramos, expomos nossos sentimentos, a felicidade aflora através do nosso cantar.

O sabiá não pareceu surpreso com minha iniciativa; cantou mais alto.

Fizemos um duo fantástico; apesar da minha desafinação, a canção se tornou maviosa, contagiante.

De vez em quando, nas entrelinhas da canção, os bois da minha carreta mugiam, fazendo coro que virava harmonia no nosso cantar.

Fiquei tão louco de faceiro que me arrisquei a colocar o sabiá ao meu lado.

Não tive resistência; ao meu lado, aquela criatura de Deus sentou no meu ombro.

A cantiga ficou mais forte, mais penetrante; virou um entrevero de alegria.

Aquele parceiro já fazia parte do meu viver.

Nas coisas simples de minha vida ganhei uma amizade quase impossível, que se tornou um tesouro.

Ora vejam, ser amigo de um pássaro!

Que loucura!

Quanto mais cantávamos mais vontade a gente tinha.

Eu disse a gente?

Que envolvimento incrível com aquele ente emplumado!

Depois de certo tempo, ele parou de cantar.

Continuei cantarolando baixinho, provocando-o a silvar novamente.

Como querendo se despedir roçou sua asa no meu rosto, como querendo me abraçar ou acarinhar.

Alçou vôo ao redor da carreta, como querendo dizer adeus, e foi sentar em um galho de uma figueira frondosa, que sombreava a margem da estrada da minha vida.

E ali ficou vendo a minha passagem com minha carreta, puxada por parelhas de bois que muitos carreteiros gostariam de ter.

Segui em frente já sentindo uma saudade baguala do amigo que deixei à beira da estrada da minha vida.

E toquei a carreta, agora com mais vontade de chegar.

A minha viagem tinha um sentido.

O caminho era aquele que deveria seguir.

O significado do fato assucedido tinha uma explicação; sorri e agradeci ao qüera que me proporcionou aquele fantástico acontecimento: obrigado Patrão das Alturas; não mereço tanto!

Sai dos meus pensamentos e gritei: - vamos Esperança, quero lhe ter nesta caminhada; Felicidade, não me deixes, tu és importantíssima nesta jornada; ah! meu boi de Fé, nunca deixarei de tê-lo; e tu, boi da ponta - Amor -, te manterei sempre embretado em meu coração.

Proteja-me Patrão Velho!

Continues a seguir ao meu lado; tu és meu Amigo Divino, Eterno...

E vamo que vamo, minha boiada.

Seguiremos cantando, como o nosso Sabiá.

A vida é linda; a viagem é muito mais confortante e proveitosa.

Seguiremos até quando Deus quiser, levando nesta carreta as riquezas que Ele nos deu; o viver, os amigos...

Toca boi, toca boi... Era boi, era boi...

 

 

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  Autor: Adenir Paz da Silva
Poesia enviada Por: Adenir Paz da Silva - Brasília / DF
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