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Os Mirins:
Respeito ao Gaúcho, de Francisco Castilhos e Albino Manique

 

20/11/2011 22:17:05
TIO OLAVO
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TAVA BRANQUEANDO A MELENA
DO NEGRO VELHO OLAVO;
ERA FILHO DE ESCRAVO,
MAIS VELHO QUE A GALENA;
A PELE MAIS QUE MORENA
TISNADA PELO SOL QUENTE;
TINHA UM SORRISO CONTENTE,
NO ROSTO DAQUELE IDOSO,
BROTANDO VOLUNTARIOSO
NA BRANCURA DOS SEUS DENTES.

O GALPÃO, SEU PARADOR,
COM OS PERTENCES E O CACHORRO,
TENDO OS PELEGOS DE FORRO
E O PALA POR COBERTOR;
O LENÇOL O TIRADOR,
DE TRAVESSEIRO O LOMBILHO.
NÃO SABIA MAIS DOS FILHOS,
DEPOIS QUE A MULHER MORREU,
MAS NEM POR ISTO PERDEU
DOS OLHOS PRETOS O BRILHO.

ERVA BUENA SEMPRE TINHA,
E A COSTELA NA BRASA;
PASSAVA EM VOLTA DA CASA
DANDO BÓIA PRAS GALINHAS;
APARTAVA ALGUMA RINHA,
VARRIA BEM O TERREIRO,
FUMACEAVA UM PALHEIRO,
PRESO NO CANTO DA BOCA,
E CANTAVA COM VOZ ROUCA,
SACUDINDO UM PANDEIRO.

NO CAMPO, PRA DAR UM PASSEIO,
ÀS VEZES LHE APETECIA;
VER AS VACAS COM SUAS CRIAS,
TIRAR O MOFO DO ARREIO;
NO CAVALO DAR UM FLOREIO,
E UMA ARRASTADA NO LAÇO;
SENTIR NO ROSTO O MORMAÇO
DAQUELE SOL DE JANEIRO;
E O CACHORRO, COMPANHEIRO,
NA SOMBRA DO SEU PICAÇO.

MAS NUM PASSEIO, À TARDINHA,
TIO OLAVO SE DEU MAL;
PARECIA UM BAGUAL
O PICAÇO, QUANDO VINHA;
SÓ SE VIA A CARAPINHA
DO NEGRO, JÁ SEM CHAPÉU.
FOI AQUELE ESCARCÉU,
E TODO MUNDO CORRIA;
NEM REZANDO A AVE MARIA
SE ESCAPOU DO BOLÉU.

ACUDIRAM O COITADO,
MAS JÁ ESTAVA LÁ NO CÉU.
TODOS TIRARAM O CHAPÉU
E UM PAI NOSSO FOI REZADO;
AVISARAM NO POVOADO
DA MORTE DO POBRE PEÃO;
MANDARAM CHAMAR O IRMÃO,
FIZERAM BOMBACHA NOVA;
DEPOIS CAVARAM UMA COVA
DE SETE PALMOS NO CHÃO.

CONFORME HAVIA PEDIDO,
FOI DE LENÇO COLORADO,
PRA NO CÉU CHEGAR PILCHADO
QUANDO FOSSE ESCOLHIDO;
QUERIA ESTAR PREVENIDO
LÁ NA QUERÊNCIA DIVINA;
E, ASSIM, DE RELANCINA,
SE VIESSE A ELE O LAMPEJO
DE UM MATE, E JUNTO O BEIJO,
NO ENCONTRO COM SUA CHINA.

O LUTO COBRIU O GALPÃO
E SILENCIOU O PANDEIRO.
FICOU O TOCO DO PALHEIRO
SE DESMANCHANDO NO CHÃO.
A BANQUETA NO OITÃO,
TRISTE LÁ FORA FICOU.
O PICAÇO SE QUEBROU,
EM CONSEQUÊNCIA DO SUSTO.
MORREU O POBRE DO CUSCO
E O PAI-DE-FOGO APAGOU!

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  Autor: Deroci Freitas de Moraes
Poesia enviada Por: Deroci Freitas de Moraes - Santa Maria / RS
  Observações:

Poesia publicada em 13.03.2009 e republicada em 20.11.2011.


 
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10/06/2009 15:13:53 José Itajaú Oleques Teixeira - Taguatinga / DF - Brasil
Prezada Regina. O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita e a comunicação postada neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Em resposta, informamos-te que o termo "melena" refere-se à cabeleira do vivente. Assim, a expressão "tava branqueando a melena" significa "estava branqueando o cabelo". Quanto aos termos do vocabulário gaúcho sul-brasileiro, assim que possível estaremos publicando um dicionário regionalista sul-rio-grandense neste espaço virtual. Saudações Gauchescas e um forte abraço a essa prezada visitante do sítio Bombacha Larga!
Sítio: http://www.bombachalarga.org
10/06/2009 12:05:08 Regina - Itapema / SC - Brasil
TAVA BRANQUEANDO A MELENA Gostaria de entender essa frase,pois devido a minha falta de conhecimento sobre o assunto,não consegui compreender o início ....preciso ter aulas da cultura gaúcha e do regionalismo empregado nas falas deste povo maravilhoso. Aguardo resposta ( se possível) e maiores informações sobre sua rica tradição (rspimoveis@hotmail.com).Obrigada.
Sítio: *****
13/03/2009 22:52:54 Jose Vanoci Alvarez Marques - Cmaquã / RS - Brasil
Poesia de muito boa qualidade! Parabéns, vivente, pela vertente de inspiração. Espero que continues semeando mais sementes na terra do SÍTIO BOMBACHA LARGA, grande divulgador da tradição gaúcha, ao qual muito devemos.
Sítio: *****
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