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Sina de Andejo, de Régis Marques

 

04/04/2009 23:41:14
MEMÓRIAS
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Me vi nascer, de repente,

como brota um manancial

que, na inconstância de um rumo,

toma a forma de vertente...

 

Recebi sons de ninar

que me embalaram o sono;

pelos grilos, sapos, aves;

o suave andar das águas,

relinchos, berros, latidos

e um vento norte a cantar...

 

Tive um berço de canhadas

rodeado por muitos montes;

e um retoço caborteiro

dos andejos horizontes.

Vi muitas luzes e cores,

de sóis e luas, trazidas;

vi estrelas escondidas

nas furnas negras das noites;

trazendo a noite por diante,

vi a Boieira, em tropel;

e depois, num mesmo instante,

me trouxe a D’alva, contente,

um sol vermelho, nascente,

todo embrulhado de céu.

 

Os ventos me levantaram

e mirei os horizontes...

senti, nos pés, os repontes

do pastiçal convidando;

e vi meu corpo andejando

apoiado pelos montes...

 

Molhei meus pés nas aguadas,

brinquei com luas nos cerros,

senti sons, pelos enlevos,

que o campo aberto trazia;

revivi, na calmaria,

um sonho, depois da infância:

embuçalar a constância

de ser eu mesmo algum dia!

 

Encilhei um potro baio

- ruano - tanta coragem...

que me levava à visagem:

horizontes de fartura...

me entreverei nas lonjuras,

campeando as velhas ganâncias;

cansei o potro, as distâncias,

não achei o que campeava...

senti falta do que estava

guardado na minha infância...

 

As léguas iam e vinham;

pra trás, os rastros ficavam;

pra frente, os olhos não viam,

nem sei mesmo se olhavam...

o potro baio cansado,

meu peito tomando aprumo,

dei de rédeas pro meu rumo,

retornando pro passado...

 

Me senti na bagualada

retoçando pelos cerros,

aprendi com os meus erros

pra não repeti-los mais...

do vento, tive a tenência

que me afastou do desterro:

segui a égua madrinha

de uma saudade daninha,

que me levava à querência

com carinhos de cincerro!

 

Voltei como a primavera,

com certezas de cigarra;

com lamentos de guitarra

me denotando o que eu era...

saudade atada nos tentos,

potro baio pelechado,

olhar feliz, renovado;

luzeiro novo por dentro...

 

E renasci, de repente,

como brota um manancial;

que, na constância do rumo,

toma a forma de vertente

pra se encontrar, afinal...

............................................................................
  Autor: Guilherme Collares
Poesia enviada Por: Cássio Gomes Lopes - Candiota / RS
  Observações: II BIVAQUE DA POESIA CRIOULA, Campo Bom-RS, Junho de 1994. Obs. de Cássio Gomes Lopes: na declamação feminina, o 8. verso da 5a estrofe poderá ter a palavra "mesmo" substituída por "mesma", ficando assim: "de ser eu 'mesma' algum dia!".

 
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