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Os Filhos do Rio Grande:
Laçador

 

27/06/2006 10:29:25
SAGA
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Um pouco a pé,

um pouco nas carretas,

cheguei até aqui com os pioneiros.

Vim desbravar um chão desconhecido.

Terra selvagem;

mapa dividido

cortando a América, de sul a norte

(pobres despojos da caça abatida

que a avidez de Algarve e de Castela,

a dente e garra,

repartia em dois).

 

Depois...

os ranchos de barro e taquara,

quincha de Santa Fé - casa e trincheira -

e os palanques cravados no chão novo

- marcos de posse, sinais de conquista.

As labaredas dos fogões ao vento,

drapejando no ar novas bandeiras,

nessas planuras de perder de vista.

 

Num orago

a imagem protetora

trazida de além-mar - santa e padroeira -

aos pés da qual rezei

quando as estrelas

punham velas no altar do fim do dia.

 

Plantei a terra aberta pela enxada

pra o milagre do sonho

e da semente.

Dei ternura e amor ao meu marido;

povoei com filhos a terra abençoada.

Partejei como os bugres meus filhotes.

Cada macho nascido

outro gaúcho,

um ginete, uma lança, uma outra espada!

 

Cada fêmea arrancada do meu ventre

outra esquecida, nessa luta inglória

de ser mulher

no amanhecer da história

escrita pelos homens, simplesmente.

 

Fui mulher e fui mãe,

fui curandeira.

Fiz promessas, chorei,

benzi tormentas;

aprendi rezas pra amansar a morte;

cantei cantigas e curei feridas.

 

Com pão e vinho celebrei a vida;

com os olhos no céu

tracei meu norte.

 

Com mil cruzes

pontuei o meu passado,

ao enterrar os mortos pelas guerras

que mudaram fronteiras e tratados.

 

Na saga que vivi no Continente,

se nome tive algum foi Ana Terra.

Pois, como Anita, andei fazendo guerra,

mas não abandonei a minha gente

que fez deste rincão

pátria e querência.

Para viver aqui o tempo inteiro,

anônima trilhei o meu calvário

e desprezei o amor de Garibaldi

pra ser mulher de Pedro Missioneiro.

 

As lágrimas

verteram meu desgosto,

mas o sorriso iluminou meu rosto

pra o amor

que das penas nos redime.

 

Nas tempestades

que enfrentei na vida,

se me vergaram ventos, eu fui vime;

permaneci em pé,

sem ser vencida.

 

Busco há duzentos anos o horizonte,

lutando sempre contra o preconceito

de ser mulher

e de sentir no peito

amor por essa terra que é tão minha,

porque as vidas

vivi - todas que tinha -

pra conquistá-la

e ter esse direito!

............................................................................
  Autor: Colmar Duarte
Poesia enviada Por: Beatriz Barbará - Porto Alegre / RS
  Observações: O BL agradece a Prenda Beatriz pela prestimosa colaboração!

 
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