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Deus Gaúcho, de Régis Marques

 

04/06/2009 10:57:21
LAÇO PETIÇO
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Numa tarde de mormaço,

No descambar da primavera,

Na varanda de uma tapera,

Sentado num banco baixo,

Um índio tecia um laço

Com o couro de um tambeiro,

Que morreu num atoleiro,

Lá na restinga do passo.

 

O laço que o quera trançava

Não era laço de verdade,

Pois era na realidade

Lacito de brincadeira;

A miniatura campeira,

De oito tentos bem sovados,

Com capricho desquinado,

Lonqueado à sua maneira.

 

Fui me aproximando do taura,

Despacito, imaginando

No que estaria pensando

Esse velho coronilha,

Arrematando a presilha,

Prendendo a argola à ilhapa,

Bordando à ponta de faca,

Com perícia e maestria.

 

Prendi um grito, na chegada,

Que foi de extraviar quero-quero;

E aquele homem sério

Retrucou de prontidão,

Com a rodilhita na mão,

Num vozeirão de toda a goela:

Tapera não tem tramela

Nem cadeado no portão.

 

Postado feito um monarca,

Num jeitão meio engraçado,

Ameaçou um reboleado

Com o lacinho de brinquedo;

A armada ajeitou com os dedos,

Bem retovados de calo,

Como se fosse dar um pealo

De sobre-lombo, no varjedo.

 

Naquele gesto matreiro,

No olhar trêmulo e cansado,

De pronto entendi o recado

Que o índio estava me dando;

De certo estava tateando,

No instante do reboleado,

Laçar o próprio passado

Na invernada de desengano.

 

Ou, ainda, relembrando

A dura vida de tropeiro,

Quando foi culatra e ponteiro

De boiadas e tropilhas,

O mestre maior de encilha,

O tapejara estradeiro,

O gaudério candongueiro,

O graxaim das coxilhas.

 

E na hora da despedida,

Na saída da porteira,

Recostado na tronqueira,

Sesteando sobre o garrão,

Num derradeiro chimarrão,

Soletrou com embaraço:

Poeta, leva contigo o laço

de lembrança deste peão.

 

Desde então guardo comigo,

Com carinho enrodilhado,

Nesse gancho, pendurado

Na parede do galpão,

Esta singela recordação,

Fonte viva de poesia,

Que ganhei naquele dia

Do campesino artesão.

 

E no embretar da história

Da relíquia de couro cru,

Tropeando foi-se o chiru,

Paleteando o seu bagual,

Rumo à estância celestial

Do Patrão Velho buenacho,

Se juntar ao Tio Anastácio,

De Jayme Caetano Braun!

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  Autor: Antônio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antônio Francisco de Paula - Brasília / DF
  Observações: Poesia constante do livro "MEU AVÔ, MEU MESTRE", do autor.

 
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21/08/2009 10:27:35 Antonio Francisco de Paula - Brasília-DF / DF - Brasil
Mateus, essa poesia fiz em homenagem ao falecido cunhado Pedro Cassu, que foi um gaúcho que além de peão domador e grande laçador também foi guasqueiro de primeira, do qual ganhei um lacinho, que guardo comigo até hoje. Comente com a Tânia e com a Neguinha. Abraços!
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17/08/2009 23:13:28 mateus lopes - Itapeva / SP - Brasil
Que beleza de poesia! Parabéns! Continue assim. Abraço do mano velho da Caputera!
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17/06/2009 19:52:17 Deroci Freitas de Moraes - Santa Maria / RS - Brasil
Mas índio velho, junto com um gauchesco abraço, te mando meus sinceros parabéns!
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