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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

27/06/2006 10:36:51
DUAS DATAS
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Na pedra somente o nome 
e duas datas, mais nada. 
Nas datas, os dois sinais: 
para o nascimento, a estrela, 
a cruz...para o nunca mais. 
 
Estrela e cruz, duas datas 
e uma vida entre as estacas 
que marcam início e fim. 
Como a cancha de carreira 
de algum bolicho tapera, 
coberta pelo capim, 
onde se vê – de passada – 
alguma estaca cravada, 
marcando a cancha, ainda assim. 
 
 
O partidor é uma estrela, 
a cruz é o laço final. 
Entre as duas, tanta estória 
que o tempo não vai guardar; 
que se um dia fosse escrita 
pra que pudesse ser lida, 
do início ao fim da vida 
seria marcada igual: 
maiúscula no começo, 
no fim o ponto final. 
Mas quanta interrogação, 
espantos e reticências, 
nas entrelinhas da vida 
contida em seu coração? 
 
 
Era uma vez um piazito 
e um mundo por descobrir, 
um medo de faz-de-conta, 
bicho-papão pra dormir. 
Distintos sons pra lembrar: 
do pai, gritos com o gado; 
da mãe, vozes de acalantos. 
 
Depois, um viver de espantos 
numa terra por povoar. 
O ritual das madrugadas 
em volta ao fogo de chão; 
rodeios, domas, potreadas. 
 
Ainda não tinha barba 
quando veio o “23”. 
O pai era maragato 
e se foi daquela vez, 
se juntar a Honório Lemes. 
Uma tropilha de zainos, 
uma espada, um mosquetão; 
lenço vermelho esvoaçando , 
junto ao aceno da mão, 
dando adeus, pra não voltar. 
 
A vida seguindo adiante, 
com seus ciclos naturais. 
Num gateado de confiança 
enfrentou o toro passo 
pra um baile, uma carreirada 
ou a sombra de um potreiro 
na casa da namorada. 
 
Casamento e rancho novo, 
onde o amor foi morar. 
Muito trabalho 
e os filhos, 
chegando como andorinhas 
pra encher a casa de sons. 
Depois a necessidade 
de dar escola pra os piás. 
a mudança para o povo, 
deixando o pago pra trás. 
 
O pago onde deixou nome 
como campeiro de lei. 
 
Não nascera esse cavalo 
que o pegasse de mau jeito 
numa rodada traiçoeira. 
Vista e dresteza de sobra, 
pisava a orelha do maula, 
saindo sempre de pé! 
Num rodeio era um respeito 
quando apartava novilhos. 
Amagava na paleta, 
de pingo alçado no freio, 
tirando “erguido” o franqueiro. 
 
Se o boi olhasse o sinuelo, 
bancava o flete no freio, 
vinha ao tranco pra o rodeio. 
 
Quando desatava o laço, 
podia chegar co’a marca 
que o bicho estava no chão. 
Seguro e bem a cavalo, 
um dia – por patacoada – 
passou a mão no cabresto, 
num arremedo de laço, 
e fez passar a porteira 
a zebua caborteira, 
na cincha do seu picaço. 
 
Noutra feita, um touro pampa 
que refugava o rodeio, 
boleou a anca e se veio 
atropelando o cavalo. 
Livrou o pingo da carga 
e se juntou com o touro. 
De encontro sobre a paleta 
contra aquela massa bruta, 
sem deixar virar de frente, 
ia baixando o trançado 
com toda força do braço. 
 
A polvadeira subindo, 
cavalo e touro rodeando 
nessa peleia de morte. 
Até que num de repente, 
co’ajuda de deus e sorte, 
o touro- tonto a laçaço – 
alinhou rumo ao rodeio. 
 
Tropelias como essa 
eram coisas costumeiras. 
Levaria horas inteiras 
contando essas gauchadas 
de quem, em qualquer serviço, 
honrou sempre o compromisso 
e nunca negou quarteada. 
 
Mesmo sendo ventania, 
pelos filhos se fazia 
dócil, com voz de veludo, 
quando contava uma estória 
ou segredava acalantos: 
“Dorme criança linda 
teu sono doce e puro, 
porque não tens ainda 
cuidados com o futuro...” 
E as mãos ásperas, pesadas, 
calejadas pela lida, 
eram suaves como asas 
acariciando os cabelos 
da criança adormecida. 
 
Quando meus irmãos se foram, 
buscando rumo e razão, 
fiquei ouvindo seus “causos”, 
vendo seu envelhecer. 
 
Hoje sinto que essa pedra, 
com duas datas e um nome, 
resume a vida do homem 
como num livro fechado. 
E, ao relembrar o passado 
como minha referência, 
nestes versos choro a ausência 
de quem fez tanto na vida 
que aqui vejo resumida 
a um nome com dois sinais: 
 
uma estrela pra um começo 
e uma cruz... pra o nunca mais!
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  Autor: Colmar Pereira Duarte
Poesia enviada Por: Beatriz Barbará - Porto Alegre / RS
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