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Deus Gaúcho, de Régis Marques

 

21/07/2009 22:24:27
CANTO DE NINAR DE MÃE PRETA
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Mãe preta, Óleo sobre tela de

Lucilio de Albuquerque

 

Mãe preta, filha do pampa,

criando filhos e filhos:

os que o seu ventre gerou

e os filhos do sinhozinho,

que com zeloso carinho

em seu seio alimentou!

 

Quantas noites tu passastes,

ao derredor de um foguito,

aquecendo a solidão,

numa aflita inquietação

do choro dos inocentes,

que ninavas, ternamente,

murmurando uma canção.

 

Filhos brancos e negros,

filhos do amor e da bondade;

na cruel desigualdade,

o seu coração pisado,

pois via o amado filho

ser açoitado, vendido

em leilão, igual o gado!

 

Mãe negra que trazia

em seu colo o amor profundo...;

filhos perdidos no mundo,

sem nunca saber porque,

que lhes tiravam dos braços,

partidos em tantos pedaços;

um coração a sofrer!

 

Querendo saber do filho

que o patrãozinho vendeu,

como um cãozinho qualquer,

mãe negra não tem o direito

de ver seu filho crescer,

de acalentá-lo em seu peito,

carregando sua cruz

multiplicada de espinhos,

arrancada aos pedaçinhos

da alma dessa mulher! 

 

Mãe negra, que ensinou

o caminho do perdão,

que se perdia de seu filho

pra criar o do patrão,

sempre tinha uma oração

nos lábios tristes, marcados,

num sorriso escravizado:

uma sombra de aflição!

 

Num silêncio de oratório

soluçava seus segredos,

entrecortados de medos,

num pranto de mansidão;

embaçava-lhe a visão,

onde uma luz acendia,

aos pés da Virgem Maria,

seu manto de proteção! 

 

Mãe negra: a fronte prateando

de tantos rudes janeiros,

a sofrer e a trabalhar;

secando o suor do rosto,

debruçada num fogão,

a remexer seus quitutes,

pra que o sinhozinho branco

aumentasse seus dobrões:

fortunas adquiridas

vendendo e roubando vidas

na cruel escravidão,

com seus trajes requintados,

enquanto os negros, coitados,

rodavam de pés no chão!

 

Numa senzala sombria,

parindo crias e crias,

a mulher escrava de outrora:

a pele negra, retinta,

mas no olhar, bem distinta,

a altivez de quem chora! 

Silêncios emudecidos,

soluços entrecortados

numa canção de ninar,

que nunca foi esquecida.

Minha mãe preta, querida,

hoje quero te abraçar! 

 

Ficou na voz do silêncio

um afago a sussurrar;

as tuas mãos ‘asperosas’

guardavam perfume das rosas,

que colhias pra ofertar!

Apesar do que sofrias,

sabias acalentar!

Negras mãos, rudes e ternas,

numa doçura materna

de proteger e amar!

 

Quisera ter uma estrela,

pra iluminar o meu verso

e te ofertar o universo

de amor que aqui semeastes,

dos filhos que tu criastes,

que sequer lembram de ti;

mas fazes parte da História,

na alma e na memória

do Rio Grande, onde eu nasci!

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  Autor: Jurema Chaves
Poesia enviada Por: Jurema Chaves - São Leopoldo / RS
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29/03/2011 22:00:06 cidinei ramires de mello - sapucaia do sul / RS - Brasil
Parabéns pelo poema! Muito autêntico! Abraço!
Sítio: *****
03/03/2010 16:00:14 Marcelina - são Paulo / SP - Brasil
Linda poesia, cheia de verdade e de ternura. Amei!
Sítio: *****
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