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Jayme Caetano Braun:
Sangue Farrapo

 

25/07/2009 12:23:35
NO TEMPO DO ONÇA
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Tem a vida suas agruras,

Tem a caça as aventuras.

 

         Eu as caças sempre amei

         Como as guerras ama um rei.

 

Se na idade medieval

Era a caça afã real...

 

         Se nos tempos que lá vão,

Foi dos ricos ganha-pão...

 

Eu por isso como um rei

Este esporte sempre amei.

 

É verdade: mil perigos

Traz a caça aos seus amigos.

 

Quantas vezes me perdi

Pelas margens do Ijuí!

 

         Quantas vezes com as feras

         Tive lutas bem severas!

 

Inda trago na memória

Destas caças, uma história:

 

         Ela deu-se em Cerro Largo

         Neste Sul, sem desembargo:

 

Foi num árido dezembro,

Seca braba, bem me lembro...

 

         Esta seca foi tão forte,

         Que era mesmo pouca sorte!

 

Nosso milho foi nascendo

E na proporção morrendo;

 

         Ao feijão já vi morrer

         Antes mesmo de nascer!

 

- Nada tenho que fazer,

Fui dizendo - que lazer?

 

         Isto assim não pode estar,

         Todo o dia a preguiçar!

 

Vamos ver se nós podemos

Ir à caça, pelo menos...

 

         Encilhei o meu bagual

         E rumei pro matagal.

 

Pus o Felix na coleira

E o fuzil em bandoleira;

 

         - Foi o pai do meu papai

         Que o achou no Paraguai.

 

Trinta balas, por ventura,

Carregava na cintura;

 

         Na bainha meu facão,

Mais idoso do que Adão.

 

Nem me pude deslembrar

Dos crioulos pra fumar -

 

         Charutões de meio metro

         Mais estimo do que um cetro...

 

Embrenhei-me mato adentro,

Sempre andando, até seu centro.

 

         Cruzei vales, cruzei montes,

         Cruzei brejos, cruzei fontes.

 

Encontrando um bom lugar

Resolvi ali parar.

 

         Amarrei meu Malacar

E deitei pra descansar.

 

Na esquerda meu cusquinho,

Na direita o fuzilinho.

 

         Quando a noite foi chegando

         Eu sonhava, já roncando...

 

E dormia satisfeito...

(Pra dormir eu tenho jeito!)

 

         Redepente... que foi isso?

         Despertou-me um reboliço!

 

Que clamores endiabrados!

Que tropel de meus pecados!

 

         De jaguar’s um batalhão

         Se medindo com meu cão.

 

Mas o Felix combatia

Com bravura e valentia.

 

         Malacar — bagual gentil

         — Repartia coices mil.

 

Levantando-me ligeiro

Me ostentei também guerreiro:

 

         Meu fuzil eu agarrei,

         Trinta chumbos disparei.

 

Já não tendo mais cartucho

Do facão então eu puxo.

 

         Mal um golpe eu tinha dado

         Tilintou despedaçado.

 

Fez primeira em suas refregas

Viu-se inerme então o degas.

 

         Tremebundo pelo escuro,

         Meu bagual então procuro.

 

Pressuroso, me assentei

No seu lombo e lhe bradei:

 

         Upa, upa, upa sus,

         Meu cavalo, cataplus!

 

Toca, toca já pra fora

Deste inferno sem demora!

 

         Meu bagual desenfrenado

         Corre, salta qual veado...

 

Eu pensei: — Cavalo nobre,

Mais potente que um gás-pobre!

 

         Fomos indo assim adiante

         Sem parar nem um instante.

 

Abordando o rio Ijui,

Baita cena ali vivi;

 

         Pois o bom do meu bagual

         Foi comigo pro caudal.

 

E o “riozito” é sempre inchado

Com as águas do Encantado.

 

         Fui dizendo adeus ao mundo,

         A quem tinha amor profundo.

 

Mas o bom do meu bagual

Era um tipo sem igual.

 

         Quando o menos esperava

         No outro lado já me achava.

 

Novamente me firmei

No seu lombo e lhe gritei:

 

         - Upa, upa catrapús,

         Meu cavalo, upa sús!

 

Toca, toca já pra fora

Destas águas sem demora.

 

         E o bagual desatinado

         Corre desencabrestado.

 

E o cãozito atrás seguia,

Nem o chão mais atingia;

 

         As orelhas afilava

         E o rabinho espiralava.

 

Quando entrei no povoado

Cerro Azul denominado,

 

         No horizonte a lua vinha

         Qual vintém, tão redondinha.

 

Quando o degas lá passou

Todo mundo se alarmou.

 

         Os piazitos a gritas

         Começaram de escapar.

 

A polícia se assustou,

Acorreu e perguntou:

 

         - Que é que tendes minha gente,

         Tanto frege de repente?

 

As mulheres se benziam;

- T’arrenego, xiii... diziam.

 

         Ai que dor no coração

Não passou o sacristão!

 

Foi de grito pra canônica,

Lançando a bomba atônica.

 

         Lá num gordo negociante

         Quis tomar fortificante.

 

Mas que susto! pois o bicho

Deu um salto no bolicho.

 

         Pra ver quantos temebundos

         Parecia o fim dos mundos.

 

Meu cavalo corcoveou

No negócio, e se empinou.

 

         Foi então que reparei

Toda a história e me assustei.

 

Enriçaram-me os cabelos

Caiu-me a alma nos chinelos.

 

         Foi medonha a minha sorte

         Pois montara a própria morte!

 

Era hora em Cerro Largo

De tomar o mate amargo.

 

Eu trocara o Malacar

         Pelo lombo de um jaguar.

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  Autor: Viro Rauber
Poesia enviada Por: Carlos Zatti - Curitiba / PR
  Observações: A poesia, recolhida por Carlos Zatti no ano de 1963, fora escrita em 1946, não tendo o escritor paranista localizado a sua publicação por qualquer outro meio.

 
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01/07/2014 16:08:23 carlos Zatti - Curitiba / PR - Brasil
Ô pessoal, aí de Cerro Largo, será que nunca ouviram ou leram isso? Ninguém publicou estas rimas?!... Será que o título do poema é mesmo este que eu dei?
Sítio: *****
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