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Paixão Côrtes:
Gaúcho Velho

 

09/08/2009 18:17:46
CHALEIRA PRETA
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Ao te ver, chaleira preta,

carcomida, encascurrada,

esquecida, abandonada

junto aos trastes, no galpão,

num instante brota a lembrança

da minha feliz infância,

no meu querido rincão.

 

Em pensamento te avisto

enganchada na corrente,

pendurada junto à trempe,

chiando sobre o tição,

sempre cheia de água quente,

servindo nossa gente

na roda de chimarrão.

 

Entreverada no borralho

com caldeirão e panela,

entre espetos de costela,

batata-doce e pinhão,

lambuzada de graxa,

impregnada  de fumaça,

envernizada de carvão.

 

No seu formato bojudo,

de bico longo envergado,

cabo firme remanchado,

para aguentar o repuxo:

a quentura dos braseiros,

nos fogões galponeiros

dos ranchos simples, sem luxo.

 

Rude utensílio campeiro

de ferro bruto fundido,

forjado no tempo antigo,

nos idos da escravidão;

que traz entranhada na estampa

a hospitalidade do pampa,

do povo do meu rincão.

 

Quantas vezes viajastes

enfurnada em bruacas,

ouvindo tropel de patas,

duetando com as tralhas,

sacolejando nos cargueiros,

entre aboios de tropeiros

e rangidos de cangalhas.

 

Nos pousos das comitivas,

nos ranchos abandonados,

nos fogões improvisados,

com pedaços de cupim,

sovando chapas e grelhas,

chamuscada de centelhas

de brasas de guamirim.

 

Te recordo, chaleira preta,

bordada de picumã,

no aconchego das manhãs,

nas mãos do cozinheiro

preparando, com carinho,

um café forte, quentinho,

no velho estilo campeiro.

 

Regando a cuia morena,

de topete levantado,

de mate-amargo cevado,

num ato de comunhão;

nos dias frios, de geada,

na tertúlia com a peonada,

ao pé do fogo de chão.

 

Lendária chaleira preta,

relíquia de estimação,

rainha da tradição

que o tempo não deu fim;

herança dos ancestrais,

dos avôs de meus pais,

que guardo dentro de mim!

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  Autor: Antonio Francisco de Paula
Poesia enviada Por: Antonio Francisco de Paula - Brasília / DF
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24/08/2009 19:36:28 cidinei mello - porto alegre / RS - Brasil
Buenas, gaúcho! Gostei muito do poema; muito tomei amargo com água na chaleira preta! Abraço!
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