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Deus Gaúcho, de Régis Marques

 

27/08/2009 00:58:18
ROMANCE DE PEÃO (TOBIANO CAPINCHO)
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Este tobiano de estância

foi o bicho mais maleva

que o diabo inventou pra um peão:

zólhos de chancho, cabano,

sargo, coiceiro, aragano,

manoteador e bufão!

 

Peão que chegasse atrasado

na segunda, mui sovado

da farra pelo rincão,

já se sabia: a sua pena

era encilhar o ventana,

que ansim mandava o Patrão!

 

Uma feita - era segunda -

na estância, ao clarear do dia,

com cara de laço novo, cheguei;

já estava meu povo na mangueira.

E alguém gritou, quando já davam cavalo:

- Lace o tobiano capincho,

pra esse que vem dos bochincho

do Rincão do Cantagalo!

 

Que sina! Se eu tinha o peito

mais puro que a Estrela D'alva,

que bico de beija-flor!

Qual bochincho, se eu voltava

de ver a prenda que amava,

todo enredado de amor!

 

Virge do céu! Será o diabo!

Um cristão que andou bailando

por duas noite e treis dia,

com no ouvido as harmonia

da cordeona retrechando,

e o coração sarandeando

numa havanera macia!

 

Nos olhos tontos de sono,

como em espelho pequeno,

aquele corpo moreno,

com crespos que o vento bate;

e o auroma: à flor e a sereno,

que vêm na prosa em cochicho.

- Que auroma! Não vi em bolicho

nem nos baús dos mascate!

 

E os negros olhos ariscos

como iraras bobeaderas

nas poças que a seca embarra,

na sombra de um caponete;

e que maneia ginete,

como pealo de cucharra!

 

Quanta coisa ela me disse

não dizendo quaje nada!

Quanta coisa ela entendeu,

da minha boca cerrada:

porteira do coração!

E, agora, eu, moço monarca,

chego batendo na marca,

no meu ofício de peão!

 

Bonito! Agora, acordar

de um sonho que é um lindo engano!

Soltar o corpo franzino,

em que envidei meu destino,

pra me trompar com o malino,

que é este capincho tobiano!

 

Chego e: - Bom dia, Senhores!

Largo, já meio covarde;

e me respondem: - Boa tarde!

Dormiu nas palhas, paissano?

Largue esse! Traga o buçal!

La putcha, que é desigual

a sorte de um campechano!

 

Vinha o tobiano no laço

como dourado na linha;

ligeiro como tainha,

como traíra de açude;

dando mais pulos e saltos

que um calcuta na rinha!

Haaa! Quando a sorte é mesquinha

não hai feitiço que ajude!

 

Pra encilhá o venta rasgada

foi abaxo de oração!

E, já maneado e enfrenado,

foi luita pra arreglá os troço!

Rezei quatro Padre-nosso

só pra sentar o xergão!

 

Cheguei a carona e os basto;

e quanto a cincha tinia,

o infame se foi pra o céu;

voltou, tombou de boléu.

Quaje perdendo o chapéu,

rezei quatro Ave-Maria!

 

E o urco como um bodoque:

traiçoero, olhando pra trais,

com a cincha no osso do peito!

E eu le ajeitando, com jeito,

por causa do capatais!

 

Depois de bem encilhado

tranqueou, com passo de tango,

muito mal intencionado:

encolhido e retovado!

Eu vi minha vida pequena;

corri os olhos na chilena

e olhei pra tala do mango!

 

Na voz de – bamos, moçada!

campeei a volta e montei,

certito e firme nos basto!

Já o bicho se vinha urrando,

ladeadito, se brandiando,

como quatiara de arrasto!

 

Nóis fumo naquela toada,

nessa dança desgranida

em que um taura arrisca a vida

só pra honrar a patacoada!

 

Despois, de focinho gacho,

agarrou ladeira em descida,

na fúria despavorida

de um touro num costa-abaxo!

 

Me encomendei pro Senhor,

também pra Virgem Maria!

Nem sei como arresestia,

ansim, blandito de amor!

E sem amadrinhador,

nesse lançante tremendo,

me fui solito, me vendo

mais triste que um payador!

 

Rodou e ficou roncando, quebrado!

É o fim do Capincho!

E eu paradito e com tino,

a pensar desta maneira:

- Por ti, a mais linda triguera,

gineteio a vida intera

no lombo do meu DESTINO!

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  Autor: Aureliano Figueiredo Pinto
Poesia enviada Por: Cássio Lopes - Candiota / RS
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22/04/2010 15:11:18 olavo meier - lages / SC - Brasil
Gostei muito! Não consegui gravação desta poesia; se possível, me informe o nome do artista que interpreta, p eu ir n youtube...
Sítio: *****
07/09/2009 18:41:14 jorge prates - uruguaina / RS - Brasil
É lindo ver no palanque um ventena cusquilhoso, desses que arrastam o tosso lambendo o chão da mangueira; pra quem tem alma campera, este convite é um regalo; e estes não deixam cavalos com ânsias de estrada e puera! Lorisoni Barbosa
Sítio: *****
27/08/2009 12:21:18 cidinei mello - Porto Alegre / RS - Brasil
Obrigado, Cássio, pela poesia. Essa é das garruda, mesmo. Autêntica essa Tubiano Capincho. Abraço!
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