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Grupo Fogo de Chão:
Gaúcho

 

27/06/2006 10:45:08
ÚLTIMO ATO
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A morte chegou de quieto 
com alpargatas barbudas 
de tanto campear viventes. 
O sol recém despontara 
sobre os pastos serenados 
daquele final de agosto. 
 
Mateando, de frente à porta, 
ia pensando recuerdos 
por não ter com quem prosear. 
a vida é um rio de esperanças 
que o tempo enche de remansos 
onde nadam as lembranças 
quando não se sonha mais. 
 
Estava assim distraído 
quando ela tocou seu ombro. 
Quis levantar mas tombou, 
soltando a cuia da mão. 
A cuia rolou pra longe 
deixando um rastro e um som ... 
 
A morte o deixou caído; 
Quebrou a cuia do mate, 
sofrenou seu coração. 
 
Quando alguém chegou à porta 
que emoldurava o silêncio 
daquele quarto vazio, 
achou seu corpo de borco, 
com o rosto contra o chão; 
como, num tronco de angico, 
uma casca de cigarra 
deixada na mutação. 
 
Morreu tal como vivera 
sem aviso, sem alarde. 
 
Seu último confidente 
foi esta cuia de mate da manhã, 
do fim da tarde, 
que rolou da mão sem vida 
deixando um rastro e um som ... 
 
Morreu tal como quisera 
por gostar da solidão; 
Solteiro, sem neto ou filho 
pra chorar porque se foi. 
 
No velório, só o silêncio 
acompanhava o balanço 
da chama das duas velas 
no ritual do relembrar. 
 
Companheiro como poucos 
nunca negava o estribo 
ou deixava um compromisso 
para um passeio ou um serviço. 
 
Mate pronto, água caliente 
ou de pingo pelo freio, 
mas não largava na frente, 
sempre esperava o convite. 
 
E os silêncios que ele tinha 
guardados de muito tempo? 
Daqueles que só os amigos 
podem juntos desfrutar. 
 
Quando as brasas dos borralhos 
se acomodam para dormir, 
já não chiam as cambonas 
nem há causos pra contar, 
cada qual com seus recuerdos 
confidenciando segredos 
nesse dialeto casmurro 
onde a palavra é demais. 
 
Dizem que o homem já nasce 
com o destino traçado. 
Ninguém vive por acaso 
mas cumprindo uma tarefa. 
Como se fosse uma peça 
de um tabuleiro invisível 
onde um Deus joga xadrez! 
 
Como um tonto personagem 
de um circo de marionetes 
numa cena repetida 
pela vida, tantas vezes, 
preso a uma cruz de cordões. 
 
E a mão que nos move os passos 
estabelece os fracassos 
e determina as conquistas. 
Dos marionetes artistas 
este foi coadjuvante. 
 
Passou nos palcos da vida 
sem despertar atenção. 
Acho até que foi por isso 
que nunca quis se casar. 
Pra não subir nesse palco 
como artista principal. 
 
Mas a morte entrou em cena. 
E neste ato final 
o pôs no meio da sala, 
com luzes ao seu redor. 
Todos rezavam por ele. 
Todos tiraram o chapéu. 
E o levaram do cenário 
com as flores e o caixão. 
 
Com todos os seus silêncios 
guardados pra nunca mais!

 

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  Autor: Colmar Pereira Duarte
Poesia enviada Por: Beatriz Barbará - Porto Alegre / RS
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