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Conjunto Farroupilha:
Chimarrita

 

04/07/2011 14:06:07
ÚLTIMOS CARRETEIROS
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Não sou as rugas e os cortes,
que a vida marca em meu couro;
sou bem mais que algum lamento,
à beira deste fogão;
meu olhar revoa ao longe,
muito além dessa fumaça,
além da nuvem que passa
no ventre da imensidão!

Meus anseios vêm de longe,
de muito além desta era;
são juntas de bois brasinos
cruzando tempos e estradas;
os sonhos são santa-fé
quinchando carretas velhas,
que povoam meus silêncios
e o fundo dessas volteadas!

São tantos eixos rangendo,
são tantas rodas girando;
e a sina de carreteiro
vai repetindo: - até quando?
São tantos, tantos caminhos
plenos de pó e atoleiros;
e um manto de soledades,
mais largo que o pampa inteiro!

O pampa é um céu, pra quem sonha
nas asas de uma carreta;
miro na volta, de manso;
outras almas também sonham
o mesmo sonho que eu:
esteios de um tempo velho
em cada olhar resistente,
pechando a vida de frente
sem qualquer sombra de adeus!

O fogo busca os silêncios mais fundos,
que nossas almas remoem inquietas;
e faz dos olhos porteiras abertas,
pra os nossos sonhos ganharem o mundo;
e cada rosto se faz um espelho,
onde as lembranças, há pouco caladas,
trazem um tempo repleto de estradas
e uma carreta de luz, por sinuelo!

O fogo faz que devora,
mas na verdade acarinha;
há um ranger que vem de longe,
alimentando o rodar
do eterno ciclo da vida.
Quem sabe o mundo girando
seja, apenas, uma roda
da carreta mais bonita,
que Deus Pai idealizou!

A vida passa e repassa,
o mundo segue girando,
a inquietude picaneando;
e a sina de carreteiro,
ainda, repete: - até quando?
Até quando Deus quiser!
E Deus, sempre, há de querer!

Não me falem de passado,
quando eu falo do presente,
do meu sangue, da minha gente,
da minha noção de alma.
Sou filho de carreteiro;
meus companheiros, também.
E não me venham, doutores,
com patacas e motores,
que de estradas e de amores
nós sabemos muito bem!

Talvez não sejamos fortes
ou verdadeiros heróis,
mas o que somos e amamos
nem mesmo o tempo destrói!
O mundo corre, se apressa;
nós seguimos devagar.
E, assim, enxergamos coisas
que muitos, sempre correndo,
não têm tempo de cuidar!

Como a vida é mais bonita,
pra quem sabe perceber
a beleza que há na vida!
Os resmungos da carreta
talvez sejam meus, também;
eles nos contam segredos,
a cada nova jornada!

Pra que pressa? Temos tempo,
todo o tempo da existência!
Os bois seguem no compasso
que marca o meu coração!
Meu pensamento se eleva,
procura os olhos de Deus,
vertendo luz entre as trevas,
toda essa luz, que conserva
tão viva a nossa missão!
Minha carreta é meu templo;
e a estrada: minha oração!

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  Autor: Carlos Omar Villela Gomes
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia interpretada por Patrocínio Vaz Ávila, amadrinhado por Geraldo Trindade, na 10ª Quadra da Sesmaria da Poesia Gaúcha, de Osório-RS.


 
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