Usuário:
 
  Senha:
 
 

Grupo Rodeio:
Sina de Andejo, de Régis Marques

 

22/02/2010 11:20:38
PRELÚDIO A UM CAMPO MORTO
............................................................................

 

 

Uma grota, uma sanga e um rancho a beira-chão, assim era o meu rincão na costa do Caiboaté; a casa tinha parapeito, onde nas noites de lua a alma se postava nua pra assoviar um chamamé. Um jardinzinho na frente contraponteava o palanque; um potreiro, logo adiante, pra’o pastejar do aguateiro; a madre-silva de cheiro sombreava a cachorrada, que dormia esparramada no conforto do terreiro. Um açude, feito espelho, bem pro lado do nascente, em que a lua espiava a gente nas noites de Primavera, onde as estrelas cadentes mergulhavam incandescentes pra esconder suas quimeras. Bem no moirão da porteira, de frente pro corredor, um João-de-barro chismeiro, no seu ofício de oleiro, se arvorou de morador; de manhã tocava alvorada, só pra acordar sua amada e declarar o seu amor. Naquele rancho campeiro se aquerenciou a amizade, ali morou a verdade ajoujada com a bonança; era o baú de lembranças que eu carregava em glória, pra guardar a minha história dos bons tempos de criança. Todo pássaro sai do ninho no dia em que cresce a asa, eu também saí de casa e abandonei meu cantinho, amarguei reminiscências; agora, volto à querência, cansado de andar sozinho. Antes não tivesse vindo, pra ver o que vejo aqui, o lugar em que nasci com as cercas derrubadas; onde olho é terra virada, taipa e ronco de motor; é o prelúdio do horror, a própria essência do nada. O sangue escuro da terra tingiu o campo do fundo, abriu-se um sulco profundo, mais que na pampa – na alma; a sanga que vagava, calma, morreu por soterramento, e a grota por envenenamento com a ganância do mundo. No lugar da velha morada restou um angico solito, como o último milico cobrindo uma retirada; numa gesta desesperada fincou pé na sua trincheira, na esperança derradeira de salvar a invernada. Nem a sanga nem a grota resistiram ao progresso, não assistiram o regresso desse andarengo tordilho, que sonhou legar aos filhos a pampa íntegra e pura. Porém, a volta foi mais dura que uma vida no lombilho. Os sonhos somem no tempo, voam pra longe do alcance; rancho, potreiro e palanque ficaram no pensamento; somente o choro do vento restou pra contar a história; sobrou apenas memórias e o eco do meu lamento. O clarim do João-de-barro não tocará mais na porteira nem a coruja breteira descansará nas lonjuras; só haverão desalentos, pra quem campereou sustento no verde destas planuras. Dou de rédeas no meu flete e saio batendo na marca, com a sisma de um monarca que perdeu o seu reinado; vou me arranchar no povoado, no balcão de alguma venda, beber saudades da fazenda e ruminar o meu passado. Venho basteriado de tempo e das andanças machaças; vou afogar na cachaça minha vocação de campeiro. Depois de velho... povoeiro, sobrevivendo de changa, me enterrem junto com a sanga, quando apagar meu luzeiro!
............................................................................
  Autor: Jorge Claudemir Soares
Poesia enviada Por: Jorge Claudemir Soares - Uruguaiana / RS
  Observações:
Obra defendida na 13ª Sesmaria da Poesia, de Osório-RS,
com a interpretação de Franco Ferreira,
amadrinhado por Daniel Canis ao violão.

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
17/03/2010 17:41:37 Hildemar Cardoso Moreira - Contenda / PR - Brasil
Caro poeta Jorge. A tua poesia me fez recordar o dia em que, depois de muitos anos, voltei à minha Terra Natal, com a esperança de rever todas as coisas que guardei na lembrança. Mas nada do que vi existia há mais de 70 anos, e creio que a saudade me fez sentir vontade de voltar ao passado que o progresso apagou. Bela poesia! Parabens!
Sítio: *****
Untitled Document