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Paixão Côrtes:
Gaúcho Velho

 

25/02/2010 20:42:45
DÉCIMA DO DESPACHADO
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Queria os campos da Estância,
mas muito mais que o Patrão;
patrão: um bem de interesse,
ele: um bem do coração.

Ali se tinha criado,
tranqueando no peticito;
ali ficara mocito,
algo meio entonadito,
mas muito considerado.

Que tempos tinham volvido
da era do petição!
Até que as suas chilenas
andassem mordendo, apenas,
virilhas de redomão.

Do açude grande da frente,
aquela água era sua,
pra alivianar bagualada
e adonde, de madrugada,
nadava em noites de lua.

Como queria o rodeio
da Invernada do Rincão!
Não porque lá o gado engorda,
mas porque ali andou sabendo
coisas da vida, e aprendendo
como se estende uma corda.

Primeira vez que boleou,
voando, um potro à la cria,
foi na coxilha macia
dessa invernada buerana.
- Se foi um tiro bonito!
Voltou cantando, solito,
cantigas da Quero-Mana.

Daquele galpão do fogo,
roncava toda a peonada,
foi que fugiu, com mau jogo,
no redomão do Lencina,
naquela noite lembrada,
cortando pela canhada,
para campear uma china.

E de um domingo de inverno
guarda o recuerdo taful.
Domingo, não há quem mande.
Então, foi ver a bonecra,
com o poncho de pano azul
e as botas de cano grande.
Não há um que não se abrande
com estas morochas do Sul.

Com o chapéu mais gaúcho
que um fabricante já fez!
Com essas chilenas de luxo,
limadas em cada mês.
Um colorado no ombro!
E um tirador, um assombro,
sobre a bombacha xadrez.

Na salita, em luz morteira
pela garoa lá fora,
junto da prenda que adora
`stá' como pampa em capoeira.
E, se trata de ir-se embora
é que o chama a obrigação.
Convida o pingo na espora,
já com as estrelas boieiras,
desjarreteando à la bruta
a aragana recoluta
das alegrias matreiras.

Dava gosto, num aparte
de novilhada pavena,
no zaino-negro Ventena,
no sol com que março escalda,
sacando boi, mui pachola,
com o laço à la bate-cola
e o pala na meia-espalda.

Como ele amava essa Estância,
muito melhor que o patrão!
Foi ali que se fez homem,
de piazito a gauchão;
foi ali a sua proeza,
que o sagrou na redondeza,
e eu conto porque enxerguei:
era um famoso aporreado,
meio salgo, salmilhado,
e a lo mais já respeitado
de domadores de lei.

Ele montou no Gambeta
e foi surrando alternado,
com gritos de bugre louco;
só cortando na paleta,
nem muito nem muito pouco;
depois de quatro galopes
amoleceu a galheta;
com quatro toadas de mango
já dava pra ir a um fandango,
como matungo sotreta.

De tudo isso se alembrava,
quando se viu despachado!
Da Estância posto de lado,
como um inútil pilungo,
como sovéu ramalhado,
como potro torto e troncho,
como caco de urucungo;
na garupa atou o poncho
e o lacito enrrodilhado
sobre o quadril do matungo.

Umas roupitas na mala,
largo chapéu desabado,
sobre o olhar machucado
de índio que ainda tem brio;
fechado em silêncio fundo
saiu tranqueando pra o mundo,
pra o mundo que ainda não viu.

Despois, galpões de outros pagos,
alambrados, tropas, canchas;
por bolichos e piguanchas,
no pelo-a-pelo da sina;
com as miseriadas ganâncias
de tanto bicho sovina!
Foi mermando, ansim, de valde,
sobre um oitão de arrabalde,
na colhera de uma china.

E quem o vê na gaiota,
nuns fretezitos mixados,
ou reatando as cambotas,
nuns trapos mui remendados,
já sem pilchas e sem botas
e os crespos mouro-prateados,
já nem conserva distância!
E ainda é um campeiro: alma e jeito,
guardando em baú perfeito,
bem enterrado no peito,
velhas gauchadas da Estância!

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  Autor: Aureliano de Figueiredo Pinto
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia publicada em atendimento ao pedido do prezado visitante Fábio, de Balneário Camboriú-SC.


 
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