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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

05/03/2010 09:37:27
MEUS SILÊNCIOS
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Mateando, com meus silêncios,
abro a porteira do peito
e me vou cancelas adentro,
quando a saudade vem fazer-me confidências,
amargando a ausência do meu canto-chão.
Um manancial de ternuras, repenicando no peito;
aromas doces da infância,  no ventre da terra mãe,
onde o amor rebrotava enverdecido,
o sol despontava, colorindo o lombo da coxilha,
espalhando aromas de alecrim e maçanilhas
na verde imensidão do meu viver!
Meu olhar se esgarçava no horizonte,
onde o arco-íris vinha beber água na fonte;
depois partia, beijando as franjas do céu.

Essa paisagem divinal da minha terra,
que guardo na vitrine dos meus olhos,
onde as lonjuras se alongam,
mas não conseguem apagar;
lá o meu sonhar petiço buscava espaços,
semeando risos, adormecendo nos trevais macios,
sonhando com um mundo repleto de paz!
Mas o tempo, a galope, levou pra bem longe
meu mundo criança,
deixando a saudade no brete do peito
e um adeus cristalizado no olhar,
pealando estrelas em calçadas nuas,
onde a luz da lua não vem poetar,
a primavera não tem beija–flores,
só um gosto amargo de ausências
pairando no ar!

No trote largo dessa vida louca,
amalgamando lembranças desbotadas,
fantasmas, apenas, mais nada...
Pelos caminhos tortos do destino
ainda busco meu Eu Menina:
pés descalços, riso frouxo, festa nos olhos,
bebendo a imensidão azul da minha infância!
Como reencontrar o que perdi,
quando parti sem dizer nada?
Sem um adeus, emponchei meus sonhos nessa longa estrada;
e aqui, palanqueando o meu peito,
resta o só da solidão
e essa dor a desnudar-me a alma,
acompanhando os passos do meu coração,
que perdeu-se nas incertezas da vida, e não consegue voltar.

Voltar pra aquele rancho,
tapera adormecida na colina,
por onde a primavera passou,
deixando matizes perfumadas
na alma de quem ali viveu;
reencontrar meu velho pai,
à sombra do oitão do rancho,
mateando ao entardecer;
ouvir pássaros cantando na calidez do poente,
ouvir murmúrios da sanga, correndo nos pedregulhos,
ver aguapés florescidos, como quem borda um vestido
para enfeitar a lagoa.

Colorir o céu da boca, colhendo rubras pitangas;
ver os raios de sol varando a sanga,
ouvir o sino repicar a Ave-Maria,
mesclando paz e nostalgia;
e eu, menina, a cirandar canções
no flete da Estrela D'alva,
encilhado de ilusão, a galopar campos sem fim,
a rebuscar, de ponta à ponta,
o meu mundo faz de conta,
que perdeu-se por aí,
deixando rios de saudade
pelos recantos de mim!

Quizera retornar no tempo,
retroceder, encontrar comigo;
abrir a porta desse rancho-coração abandonado,
deixar o sol entrar, tecendo rendas de esperanças;
me embriagar no perfume das madressilvas singelas,
ouvir gritos-sentinela, do Quero-quero pampiano;
sentir o xucro minuano a desmanchar minhas tranças,
embalar mil esperanças, voltar pra minha querência,
dedilhar mudas guitarras, empoeiradas de ausências,
milonguear versos de amor, encontrar notas perdidas,
que ficaram adormecidas na partitura do peito;
no crepitar dos fogões, aquecer recordações
do verde-azul do meu pago!
Poder, enfim, meus parceiros,
deixar queimar nos braseiros
toda saudade que trago!

Aquecer o frio da ausência,
apagar o pó da estrada,
sair de alma lavada
no riacho das lembranças,
que um dia deixei ficar,
à sombra de uma figueira,
no canto de um sabiá;
juntar pedaços de mim,
resquícios rubros de aurora,
que se embretaram no tempo
engolindo chuva e vento,
cabresteando um potro de ansiedade.
E nessa inquietude, por caminhos rudes,
até me fiz poeta,
roubando rimas de poentes multicores,
semeando versos de amores
pra não morrer de saudade!

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  Autor: Jurema Chaves
Poesia enviada Por: Jurema Chaves - São Leopoldo / RS
  Observações:

Poesia publicada no livro Tropilha de Afagos, da autora.


 
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27/07/2011 23:13:09 Marly Pascoalino - Osasco / SP - Brasil
Boa Noite. Meu nome é Marly. Sou sua conterrânea e gosto muito de suas poesias. Faço parte da Invernada Artística do CTG Saudades do Sul, de Embú das Artes, SP. Deus te abençõe, por estas lindas poesias. Beijão! Marly
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