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Os Bertussi:
O Tropeiro

 

19/07/2010 14:33:48
ÚLTIMO PEALO
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Na Estância das Três Marias
a tarde vinha morrendo,
o sol vinha se escondendo,
sobre sangrenta mortalha;
a noite, lúgubre imagem,
sobre soberba paisagem
estendia o negro pala.
Qual fantasma impertinente,
num dos moirões da porteira,
cismarenta e agoureira,
uma coruja velava.
E, no fundo do galpão,
a cuia de chimarrão
de mão em mão se jogava.

Enquanto a peonada alegre
charlava e se divertia,
contando os causos do dia
nas paradas de rodeio,
o Tio Nicássio, encolhido,
ficava, como esquecido,
riscando o chão com o dedo.
Já fazia um par de anos
que na estância era agregado,
sempre quieto, mui fechado,
charlando com sua memória.
E nessa noite o posteiro
lhe pediu, meio matreiro:
- Conta, Nicássio, a tua historia!

O velho ergueu-se do banco
e foi à porta do galpão,
e viu o primeiro clarão
de lua que apareceu;
voltou, tornou a se sentar,
dizendo: - Vou lhes contar
como aquilo aconteceu...
No tempo que eu era moço
- que tempo bom, sim senhor! -
era o maior pealador
que já pisara na estância;
tanto a pé quanto a cavalo,
botava qualquer pealo
sem medir bicho e distância.

Tinha um pingo macanudo,
boas pilchas, bom apero,
na guaiaca algum dinheiro,
tudo estava de colher;
até que numa gerreada
senti a primeira chifrada
de olhos de uma mulher.
O amor guri, moleque,
que me atravessou pela vida
e foi carreira perdida
a lo largo me venceu,
pois me trouxe uma china
que era estrela vespertina,
que do céu se desprendeu.

O namoro foi curtito.
Em seguida nos casamos,
e o nosso rancho enfeitamos
como um mundo de carinho.
Quando um dia, encabulada,
me disse: - Está de chegada
o nosso primeiro filinho.
Tudo foi festa, alegria.
E, como era domingo,
botei o freio no pingo,
para ir ao armazém.
E ela veio, mimosa,
dizendo-me, carinhosa:
- Eu te acompanho, meu bem.

Trouxe o zaino do piquete,
destinado à minha amada,
e fomos descendo a canhada
ao tranquito, bem juntinhos;
enquanto, da mataria,
vinha aquela sinfonia
do canto dos passarinhos.
Costeávamos um repecho,
quando uma lebre pulou;
o velho zaino espantou
e a campo-a-fora endireita;
a china quis sujeitá-lo,
mas não é qualquer cavalo
que assustado se sujeita.

Vendo que ia em direção
de horrível despenhadeiro,
desatei, mais que ligeiro,
o meu laço velho e amigo;
e naquela disparada
lancei aos ventos a armada,
sentindo perto o perigo.
Quando o laço se fechou
nas duas patas dianteiras,
bateu o zaino as cadeiras
junto ao despenhadeiro.
Mas a china, pobrezinha,
ficou no chão, tão quietinha,
que eu tive medo, posteiro!

Fui chegando, devagar,
pra junto do meu amor.
Ainda sinto aquela dor,
que me cobre como um véu,
quando vi minha querida
pálida, muda, sem vida,
entregue ao Papai do Céu.
Junto com ela se foi
a última esperança;
morreu, também, a criança
que ela levava, juntinho.
E eu, por vontade de Jesus,
vou carregando esta cruz
tão magoado e tão sozinho!

E ao cair sobre os meus ombros
os arreios do fracasso,
dei de presente o meu laço,
não subi mais a cavalo.
Mas, eu não posso esquecer
que ela tinha que morrer
no meu último pealo!

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  Autor: Vaterloo Camejo
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia publicada a pedido do prezado visitante Izidomar.


 
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31/03/2015 23:07:48 gelson vieira - david canabarro / RS - Brasil
meu pai declamava esta obra do meu rio grande um grande abrasso
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21/01/2015 11:49:38 GRACIANO SAIS - Herval / RS - Brasil
Com quem tem os direitos autoriais da POESIA ULTIMO PEALO?
Sítio: *****
04/11/2014 18:16:06 GRACIANO SAIS - HERVAL / RS - Brasil
Quero gravar esta poesia em um CD que sera lançado em 2015, preciso do contato do Autor? Um forte Quebra Costela.
Sítio: *****
07/10/2014 18:22:45 GRACIANO SAIS - HERVAL / RS - Brasil
Uma das poesias mais bonitas, tenho encontrado frases deiferentes! Preciso do contato do AUTOR ou FAMILIA?
Sítio: *****
08/04/2012 02:09:16 OBSantos - Getúlio Vargas / RS - Brasil
Obrigado pela poesia, não sabia até então o nome do autor.
Sítio: *****
25/08/2011 00:39:57 gerson tche - getulio vargas / RS - Brasil
Parabéns a vcs que ..........obrigado pela poesia.
Sítio: *****
30/06/2011 13:11:15 rafael carvalho - jaguarão / RS - Brasil
Olá! Também conheço frases diferentes dessa poesia. Porém, mesmo assim continua sendo muito bonita: um verdadeiro clássico.
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08/06/2011 21:38:32 rogerio botelho - jaguarao / RS - Brasil
Conheço frases diferentes nesta poesia.
Sítio: *****
20/04/2011 21:07:33 igor barbosa - bage / RS - Brasil
Linda poesia! Preciso do áudio, com clareza; se alguém tiver, valeu!!!
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28/11/2010 02:44:55 LAURA - CURITIBA / PR - Brasil
Olá! Meu pai recitava esse poema, qdo eu era criança... tem algumas palavras e frases diferentes, esse texto foi escrito de acordo com o poema do Camejo ou foi escrito de cabeça? Desculpe a pergunta, pois perdi o livro desse porma e me lembro de algumas frases diferentes. Grata!
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