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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

01/09/2010 13:58:22
VERSOS PARA UM QUARTO DE LUA
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É setembro
e a chuva vem negando o estribo,
para a floração da primavera.
Na invernada da tapera a cavalhada,
ainda pelo grosso da invernia,
campeia o baixio dos caponetes,
como quem anseia por silêncio.
Vivaracho, o Minuano campereia noite e dia,
a bater chapa contra os bicharás;
parece querer, nesse seu tranco,
contrariar um xiru, cabelos brancos,
que atende pelo nome de... Fidêncio!

Há quase uma semana o índio velho
profetiza o tempo, pra logo adiante;
afirma que na entrada da minguante
a chuva chegará, fala sorrindo!
O outubro será florido e lindo,
como há muito não se vê por estas plagas;
e, amadrinhando um pai-de-fogo e uma cambona,
no olhar do peão algo gaviona,
qual o "quite" faiscante de uma adaga.

No meu tempo de piá, foi sempre assim!
Um índio teba, de prosa serena,
desses que seguiram um clarim
e, por luxo no más, usam chilenas;
com eles aprendi a amar a terra
e, nos momentos tristes, compreendê-la.
Quem sabe eles soubessem disso lendo estrelas,
para ensinarem-me o amor que o pago encerra!

Ah, Rio Grande!
Desses gaúchos de um misto de pedra,
mais dura que o aço e um som de milonga,
mais doce que o mel;
ungidos de pampa, ponteiros nos vaus,
seus cernes, colhidos num quarto minguante,
são quais os granitos que habitam peraus!

Vieram de onde sesteou a ternura,
costeando o caminho de algum lugarejo.
Peões e changueiros, vaqueanos e andejos,
que abriram picadas em mil arrebóis.
Vieram do fundo do tempo, mais sábios, vividos,
pois foram curtidos por quartos de lua e sabres de sóis!

Sim! Foi com eles que aprendi a "sacar tentos",
laçar um potro xucro do "gargalo",
emendar um laço de a cavalo,
e a nunca renegar os sentimentos!
Foi com esses homens de voz calma,
parceiros de meus mates, na infância,
que recebi o batismo numa estância,
para o campo guardar eterno n'alma!

Todos creem nesses velhitos,
que de profetas já ganharam ares.
Talvez, mais um domador que enseba "aperos"
e afunda na distância seus olhares,
cinchando alguma nuvem desgarrada.
No cavalete, maneadores e buçais
reluzem no aguardo dos baguais,
que é tempo de rodeio e potreadas!

No fim do inverno
parece até que os campos
trouxeram cavalos para a muda!
Renovam-se os sonhos pelos catres,
da peonada rude e macanuda.
Agora, a espera é uma ilhapa tão somente
de um laço que doze braças tinha;
o Minuano, aos poucos, se embainha,
quando a minguante chega... finalmente!

Velhito "boca santa", o "seu" Fidêncio!
Se apeia um toró, junto da aurora,
e o céu sangra a pua das esporas,
que os raios no garrão botaram canga.
Setembro, despacito, se arremanga
para seguir, enfim, o seu caminho;
pois quando a sina-sina esconde espinhos,
sabe que é hora de buscar o vau das sangas.

Outubro - bem montado - esbarra o pingo,
cerrando a porteira do silêncio;
na mala-de-garupa traz gravetos,
para o lume dos olhos do Fidêncio.
O campo, lentamente, se perfuma,
para o peão que cresceu sobre o arreio;
e na vida de um guri tornou-se esteio,
juntando rimas pobres: uma a uma!

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  Autor: Lauro Antonio Corrêa Simões
Poesia enviada Por: Epaminondas Lopes dos Santos - Dourados / MS
  Observações:

Poesia declamada por Romeu Weber, no III Bivaque da Poesia Gaúcha, de Campo Bom-RS.


 
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