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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

07/09/2010 11:35:16
ORIGENS
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Eu poderia ter nascido longe,
do outro lado do vasto oceano,
nas savanas da África Central,
no tórrido deserto do Saara
ou nos confins do Continente Austral.

Ter vindo ao mundo na terra dos monges,
lá no Tibet, na China, na Mongólia;
num lindo dia do Leste europeu;
sob a brisa de um Mar Egeu
ou nas Planícies de uma Patagônia;
talvez pudesse ser acalentado,
entre as begônias da Mesopotâmia.

Talvez pudesse ter crescido livre,
na amplidão dos Montes Apalaches;
ser um pagé, em uma tribo apache;
ser um cacique, entre os Astecas;
ou ser um príncipe, na Ilha de Creta.

Porém, não foi nesses lugares todos
que tive a graça de enxergar o sol;
foi num lugar aonde o arrebol
é mais intenso do que nos demais;
foi nesses campos mais meridionais,
num catre simples, junto aos pajonais
deste Brasil, que nos ufana tanto;
foi neste canto, onde o desencanto
não tem mais força do que a nossa fé;
onde um igual pode ser o que é,
sem falsos lumes e luzeiros tolos.

É um lugar abençoado e livre;
é uma Querência que, por graça, tive
pra dar alento ao meu primeiro choro;
é um pedaço do Brasil Sulino,
que por capricho do Jesus Menino,
deu-me à luz e me acolheu em coro.

É aqui que achei a minha companheira;
é aqui que vivo e que criei raiz;
é aqui que eu tento amar e ser feliz;
é aqui que crio os filhos para o mundo.

É aqui que nutro o amor mais profundo
pelos amigos que adornam a vida
e que, um dia, irão me dar guarida,
quando eu me for para não mais voltar.

Eu poderia ter nascido longe,
às margens quentes de um Rio Ganges,
entre as geladas terras da Sibéria,
sob os silentes montes do Himalaia
ou nas áridas estepes da Nigéria.

Eu poderia ter virado gente
no deserto do Atacama, com seu tédio,
ou nos confins da grande Cordilheira;
às margens tristes do Danúbio Azul;
junto aos conflitos da África do Sul;
em meio às guerras do Oriente Médio.

Porém, o Grande Arquiteto do Universo
quis que eu nascesse, pronto para o verso,
neste torrão que tanto amo e canto;
quis que eu brotasse, como por encanto,
num pastiçal de trevos e flexilhas,
sentindo o aroma das coxilhas
da Pampa Gaúcha, sem patrão nem doma;

onde o Minuano, por bagual, reclama,
com uivos fortes seu melhor quinhão;
onde cultuamos a seiva mais pura;
onde podemos buscar nossas curas,
nos abraçarmos com toda a ternura;
e onde posso te chamar de irmão.

Eu poderia ter nascido longe,
lá nas Rochosas dos americanos;
nos ricos castelos dos romanos;
ou entre os nobres da era feudal.

Eu poderia ser condecorado
tal qual um conde, após ter voltado
de uma Cruzada do “bem” contra o “mal”;
talvez pudesse ter sido aleitado
em berço de ouro, ou ser um soldado
das hostes bravas de um Gengis Kam;
talvez pudesse ter sido ungido
por sacerdotes do antigo Egito,
ou ser um líder, sem baixar a crista;
ser um guerreiro, ao qual bastasse um grito,
pra ser seguido na maior conquista.

Eu poderia ter nascido longe,
em qualquer canto do nosso planeta;
pois, quem escolhe qual será o gameta
que vai gerar a nossa frágil vida?
Qual o lugar desta terra sofrida 
e tantas quantas razões escondidas
regem as rédeas do nosso destino?

Mas foi aqui que, com respeito à raça;
foi neste chão que Deus me deu a graça
de me encontrar, qual um torcaz que passa
reconhecendo as plagas de onde vim;
é aqui que sonho em construir meu mundo;
é aqui que eu quero me plantar bem fundo,
quando chegar a hora do meu fim!

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  Autor: Nenito Sarturi
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia interpretada por Pedro Júnior da Fontoura, amadrinhado por Valdir Verona, na 9a Quadra da Sesmaria da Poesia Gaúcha de Osório-RS, em setembro de 2004.


 
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