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Miguel Marques:
No Agosto da Alma

 

23/09/2010 12:22:20
REFLEXÕES DE UM GAÚCHO
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Uruguaiana - RS

 

O que se passa, afinal?
Será que estou invisível
ou vocês são meu delírio?
Será que ninguém me vê,
com este baita chapelão
e um cavalo de monarca?
Ou eu estou transparente
ou vocês são todos cegos!

Aqui estou. Aqui estou,
com centúrias de História
e quilômetros de campo;
geografia conquistada
sobre o lombo do cavalo.
Mesmo assim, ninguém me vê...
Todo mundo me ignora!

Quantas vezes já morri
peleando com castelhano,
por uma nesga de mapa?
Quantas vezes me mataram
por desafiar o Império,
GRITANDO que estou aqui!
Mesmo assim, ninguém me vê...

Quantos vagões de seara
distribuí pelo país,
quando o pampa era um celeiro
sangrando safras douradas
pra deleitar os tiranos?
Me mataram tantas vezes
quando, judiado de sal,
eu tinha o ouro do charque
que engordava os navios.

Enquanto o velho Império
lambuzava-se na corte,
me deixando ao Deus-dará
nos confins das sesmarias,
quem digladiava de adaga
com o paisano invejoso
que bolinava a fronteira?

Eu sempre estive presente;
não declinei das peleias;
eu nunca fugi da raia
nem me encolhi no tambor.
Quando a causa era a Pátria,
que se formava no Sul,
quando o ideal era o homem
espoliado pelo homem,
sempre estive por aqui.
O vermelho na bandeira,
foi meu sangue que tingiu.

Eu não nasci brasileiro,
mas me tornei por vontade
num tempo de formação,
quando paisano e patrício
se mesclavam pelo pampa,
sem limite e identidade...

Eu, sim, morri de lança na mão
pra erguer esta Nação,
que há muito me despreza
desde tempos ignotos.
Sendo o Garrão do País,
eu sustento sobre o ombros
esta Terra-continente.

Mas, talvez, me menosprezem
porque eu seja diferente,
porque me visto de História;
e de bota e de bombacha
me enforquilho sobre um potro,
transpassando mais um século;
contrariando a ganância
da Matriz que não me vê!

Mesmo assim, de qualquer jeito,
vou morrer mais uma vez;
e quantas vezes quiserem...
Não pra me separar,
pois a escolha foi minha...
Vou morrer mais uma vez,
se assim preciso for,
pra continuar brasileiro
de mestiçagem chirua.

Só não me peçam, jamais,
pra renegar as origens;
nem tentem, de forma alguma,
me tirar a liberdade,
porque mesmo ignorado,
invisível, transparente,
eu vivo pelo Brasil,
mas morro pelo Rio Grande!

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  Autor: Vaine Darde
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia interpretada por Antônio D. Barbosa, amadrinhado por Henrique Scholz,
na 12a Quadra da Sesmaria da Poesia Crioula de Osório-RS.


 
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