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Baitaca:
No meio dos Quatro Ventos

 

15/10/2010 13:32:07
VAQUEANOS DE TROPA E TEMPO
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Firmo o olhar no poente,
por sobre o touso do mouro,
vejo o sol tingir de ouro
os remansos do Ibicuí;
sei as manhas das chegadas,
pela experiência que trago,
e já escuto a voz do meu pago,
que a aragem traz até mim.

Unidos no mesmo abraço,
na sombra que lambe o chão,
eu e o mouro, um pelotão
que avança pedindo vaza...
No papel de comandante
abro clarões no horizonte,
toureando as tropas da noite
de rumo feito pras casas.

Conheço os dramas do ofício,
por isto não desarvoro
nem tampouco me apavoro,
se o tempo cisma comigo;
sou desses que não se apuram,
e num corredor não me enleio;
pois me sustento no arreio,
se a sorte nega o estribo.

Penso no bem que me faz
o dom de embuçalar temores
e de amansar dissabores,
com ação pronta e destorcida...
O resto eu vou aprendendo,
nas horas largas do ofício;
pois o tempo é o meu munício,
pra tourear as penas da vida!

Sacudo a poeira dos sonhos
e o meu peito se levanta
lembrando de uma percanta,
por quem me perdi de amores,
e que deixei nos corredores
de um tempo que já se foi...
Enquanto cortava estradas,
moldando a minha identidade
e matando a dor das saudades,
nos gritos de êra boi !

Enfrentando chuva e vento,
combatendo lado a lado,
eu e o mouro - dois soldados -
peleando em busca do pão...
Empurrando os horizontes,
na peiteira dos arreios,
e erguendo sonhos alheios
no valor dos meus “garrão”.

Aprendi com os calejados
a pôr tenência nas chegadas,
pois cada desencilhada
é um causo que chega ao fim...
Por isso que eu vivo, assim,
enforquilhado nos bastos,
campeando temas nos pastos
para escrever minha história,
e me enraizar na memória
dos que vêm depois de mim!

Já sinto o cheiro do pago
e a minha alma se aquieta,
cruzo a paisagem deserta
num trotão de ir pra namoro,
assoviando uma milonga,
dessas que assanham até o vento,
fazendo acompanhamento
pro bate cascos do mouro.

Ergo a cortina dos olhos
buscando as réstias do dia,
que se despede em poesia,
na tez morena dos campos...
Sigo a tourear meus anseios
nesta sina caminheira,
enquanto a noite campeira
borda estrelas no seu manto.

Vaqueanos de tropa e tempo,
com manhas de ser ponteiros,
eu e o mouro - dois parceiros -,
cada qual com suas dores;
um resmunga por carinhos,
o outro pede a boca livre:
são penas de dois que vivem,
com a sina dos corredores.

Levo a alma sobre os bastos
e marcas de tempo no couro;
meu saber é o meu tesouro,
que juntei tropeando a vida...
E por andar de crista eguida,
sem me curvar a cabrestos,
sei que chegar é um pretexto
pra ajeitar outra partida!

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  Autor: Gilberto Trindade dos Anjos
Poesia enviada Por: Gilberto Trindade dos Anjos - São Paulo / SP
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