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Anu, Chimarrita, Balaio, Dança dos Facões e Chula

 

04/08/2006 19:48:36
SIMPLESMENTE JUVENAL
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Paulo Moacir Ferreira Bambil

Não sei bem a tua origem
Mas me sinto na obrigação
De contar a minha versão
Do que lembro bem ou mal!
Só sei que te chamavas Juvenal
Era um índio missioneiro negro
Borrachão e pacholento
Na oito soco tinha talento
Humilde sem dobrar pelego

Eu ainda era um piá
Te encontrei a campo fora
Lembro como se fosse agora
Do teu sorriso franco e aberto
Sem nunca saber ao certo
Se te iam tratar com desdém
Mas tu eras sempre assim
Morava num rancho de capim
Nunca pré-julgou a ninguém

O lugar onde plantou teu biongo
Não tinha nenhum conforto
No mato em trilhos tortos
Pra os outros não cobiçar
Não havia plantas e nem lugar 
Nos confins daquela plaga
Água era de uma sanga perene
Luz só de sebo ou querosene
Cercanias de São Luiz Gonzaga

És mais um deserdado da pampa
A sociedade te julgou um posseiro
Construiu tua casa num potreiro
Num lugar inabitável
Mas não deixou de ser amável
Quando tu alguém lá recebia
Na humildade do teu rancho
Mesmo que fosse um carancho
Tratavas todos com fidalguia

Viveste sempre de changa
Tocando tua gaita de botão
Acordes vindos do coração
Alegrava a qualquer um
E não pedia retorno algum
Muitas vezes te humilhaste
Pra ganhar o teu sustento
São coisas que não agüento
Quando ocorre este contraste

Andava quase sempre borracho
Na canha encontrava aconchego
Sina de mais um homem negro
Já foi escrito em catecismo
Nesse cruel e disfarçado racismo
Desde os tempos da formação
Do meu rio grande português
Que da injustiça foi freguês
Homens sem amor no coração

No acordeom fazia um agrado
E a gaita sempre no mesmo gemido
Pra não errar no sustenido
E nas canções na mesma fila 
Faceiro quando ganhava uns pila
Pois todo o troco era bem vindo
Precisa ao menos pra comer
Se mantinha pra não morrer
Levava a vida sempre sorrindo

Não pedia nada em troca
Mas ajudou muito doutor
Nenhum deles lhe deu valor
Só te sobrava a borduna
Mas ajudaste eles na fortuna
Mesmo contra a correnteza
Eles só queriam o teu suor
Tinham tudo do bom e do melhor
Sem importar com tua pobreza

Depois de passados os anos
Não perdi de tudo o contato
Não são estórias são fatos
Continuaste ao tranquito
Sobrevivendo solito
Pois pobre já nasce marcado
Vem no mundo pra os outros servir
Mourejando muitas vezes sem dormir
E ainda leva fama de malvado

Constituíste tua família
Teu filho tem a minha idade
E a tua chinoca na verdade
Só sei que era uma mulata
Que tinha uma beleza inata
Negra esquia muito bonita
Cuidava de tu e o herdeiro
Um negrinho mui faceiro
Conhecido por “Capica”

Hoje me sinto frustrado
Ninguém lembra a tua história
Só eu te guardo na memória
Os teus feitos de gaúcho
Negro sem maldade ou luxo
Não te perdeste ao léu 
Os anjos fizeram o juízo
Agora é reforço no paraíso
Gaiteiro do Patrão Velho do Céu!
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  Autor: Paulo Moacir Ferreira Bambil
Poesia enviada Por: Paulo Moacir Ferreira Bambil - Brasília / DF
  Observações: O poeta e declamador Paulo Moacir Ferreira Bambil é natural dos Pagos de São Nicolau-RS.

 
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