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Deus Gaúcho, de Régis Marques

 

02/01/2012 22:58:48
PAYADA DO ANO-NOVO
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Feliz Ano-novo, indiada!
Feliz Ano-novo, gente!
É a maneira reverente
de iniciar esta payada,
nesta hora iluminada
de pátria e de melodia;
e o payador se arrepia
de tradição campesina,
na primeira sabatina
do ano que principia!

Cerimônia não preciso
para cantar, quando falo,
porque nasci de a cavalo
no lombo de um improviso;
canto até o dia do juízo
no estilo missioneiro.
E o meu verso galponeiro
dispensa qualquer prefácio;
e tanto entra num palácio
como num rancho posteiro!

O Ano-novo, parido,
anda aí fazendo as suas
pelos campos, pelas ruas:
potrilho recém lambido;
ainda não tem apelido,
porque é meio bagualão,
difícil de dar a mão
e bombeando desconfiado
como china de soldado
em tempo de "prontidão"!

Os homens do mundo inteiro
fizeram ajuntamento,
pra assistir o nascimento
desse piazito Janeiro.
E aqui no pago campeiro
toda a indiada se reuniu
e, reverente, assistiu,
com ternura, com afinco,
pra ver o "noventa e cinco",
que a noite grande pariu!

Aqui no povo as famílias
fazem o tal "reveillon",
mas lá no campo, onde o som
é o do vento nas flexilhas,
nós só fazemos vigílias,
quando se reúne a peonada;
na volta da madrugada
ouviu-se um berro de touro.
O ano macho, em vez de choro,
já nasceu dando risada!

Sendo macho é sempre assim:
já nasce enrugando a testa,
porque não vem para a festa
de "Circo de Borlantim".
- Esse vai ser de cupim,
gritava um índio de lá;
- Vai ser "buerana" esse piá,
se não der urucubaca.
Umbigo cortado à faca
e enleado num xiripá!

Eu ia bombeando o céu,
na hora do nascimento,
e ouvindo o choro do vento
num barbaresco "Te Deum".
Depois tapiei o chapéu,
meio pra espantar o sono,
memoriando, com entono,
do índio da Timbaúva,
"que Ano-novo é como chuva:
não tem patrão, não tem dono"!

E entre um trago e um amargo,
recostado num esteio,
bombeava o piazito feio,
mas taludo, sem embargo,
sentindo no campo largo
cheiro de pasto e de incenso,
naquele desejo imenso
de que este ano que nasce
faça que o Homem se abrace
no amor, na paz e no bom senso!

Isso é um sonho - talvez seja -
do payador que improvisa.
Mas um sonho se realiza
se com fé a gente o deseja.
Mas pra mim, que tenho a igreja
no altar da geografia,
guardo essa filosofia
de cruzador sem parança:
se não houvesse esperança,
tudo que é pobre morria!

Mas vou dar uma cruzada
lá pras bandas de São Luiz,
onde deixei a raiz
pra todo o sempre encravada:
Terra Santa, colorada,
de sangue-guasca tingida;
Terra mil vezes querida,
morada de São Sepé,
ali aonde a indiada de fé
nasce com a alma encardida!

Cruzando o Piratiny
vou ver as pedras no fundo,
santo pedaço de mundo
que deixei, mas não perdi;
voltar de novo a guri,
à infância e à adolescência;
rever de novo a querência,
num verdejo espiritual:
meu velho pago natal,
onde mamei inocência!

Depois, seguir olfateando
os recuerdos de criança,
procurando a sombra mansa
onde me criei tropeando;
e, logo adiante, cruzando
no Passo da Laranjeira,
lá onde uma bugra parteira,
segundo o ritual antigo,
fez enterrar meu umbigo
na raiz duma figueira!

Depois matar a saudade,
se é que a saudade se mata,
bombeando a lua de prata
tropeando na imensidade;
a infância e a mocidade,
e as ânsias deste índio quera;
e as flores da primavera,
que, sem querer, esmaguei;
e os sonhos que não domei,
lá no Rincão da Tapera!

Mas paro, porque a emoção
já me fez perder a calma:
tenho urumbevas na alma
e um cerro no coração;
há um chamado de amplidão,
que para longe me toca;
atração que me convoca,
de acordo com as velhas leis:
vou dançar Ternos de Reis,
nos ranchos da Bossoroca!

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  Autor: Jayme Caetano Braun
Poesia enviada Por: Hilton Luiz Araldi - Passo Fundo / RS
  Observações:

Jayme Caetano Braum:
"Payada do Ano-novo".


 
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15/03/2012 15:17:45 hildemar - Contenda / PR - Brasil
Ouvir a fala do grande payador que Deus levou para Suas moradas, o poeta sempre querido Jayme Caetano Braun, é para mim sempre uma dádiva Divina, que eu não me canso de agradecer.
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